Redes sociais abrandam guerra contra o discurso de ódio

A remoção das publicações que incitam à violência está a recuar nos meios virtuais, de acordo com a própria Comissão Europeia. Só o Facebook eliminou 70% das publicações indicadas como discurso de ódio este ano, em comparação com os 88% de conteúdos retirados na “limpeza” anterior. Revelações que surgem precisamente na semana em que uma ex-trabalhadora do império Zuckerberg deu a cara para denunciar os perigos do algoritmo, onde o lucro está acima da segurança.



Há dois anos que o dono do Facebook sabia que o Instagram tem graves impactos na auto-estima dos mais jovens - conduzindo a casos de ansiedade excessiva, depressão, anoréxia, e, no limite, suicídio -, embora tenha optado por não divulgar as conclusões do estudo interno que acabou por chegar às mãos do Wall Street Journal.

Protagonista da fuga de informação que pôs a nu parte da estratégia do império liderado por Mark Zuckerberg, Frances Haugen veio dizer, preto no branco, que a empresa, que além do Instagram também gere o Whatsapp, escolhe “o lucro em detrimento da segurança”, acrescentando a sua experiência pessoal enquanto ex-trabalhadora ao já longo debate sobre o papel que as redes sociais assumiram nos mercados mundiais e nas entranhas dos sistemas democráticos.

“Havia conflitos de interesse entre o que é bom para o público e o que é bom para a empresa”, vincou Haugen durante a entrevista concedida ao programa 60 minutos, emitido em Portugal pela SIC Notícias. “E uma e outra vez, o Facebook optou por optimizar os seus próprios interesses, como fazer dinheiro”, escancarou ainda sobre os bastidores do centro de decisão do império multimilionário gerido por um homem só.

Em cima do acontecimento, o portal Politco.eu vem agora revelar que, no seu conjunto, as redes sociais eliminaram menos discurso de ódio em 2021 do que em 2019. À lupa, o relatório da Comissão Europeia revelado em primeira mão mostra que o Facebook, o Google, entre outros operadores com menos expressão, excluíram 62,5% dos conteúdos denunciados entre março e abril deste ano, abaixo da taxa de 71% registada no relatório de Bruxelas de há dois anos.

De resto, desde 2016 que a União Europeia audita estas empresas. Logo na sua avaliação inicial já tinha alertado que responsáveis do Youtube, Facebook, Twitter ou Google estavam a remover menos de metade das publicações denunciadas pelo seu cariz racista, xenófobo, sexista, homofóbico, entre outras formas de ódio ou discriminação. Muito embora, as redes sociais tenham vindo a responder à pressão das instituições europeias no combate a estes discursos, os primeiros meses deste ano mostram uma inversão na rota.

O Facebook e o Youtube são exemplos disso mesmo, num arranque de ano ainda marcado pelos efeitos colaterais da pandemia e pelo crescimento exponencial das publicações anti-ciência que têm servido de base teórica aos grupos que continuam a negar a existência e a gravidade da pandemia desencadeada pelo novo coronavírus. A maior rede social do mundo removeu 70% dos conteúdos denunciados, face aos 88% retirados durante a última auditoria dos técnicos de Bruxelas. No portal e depósito de vídeos, a taxa de remoção caiu praticamente 21 pontos percentuais, para 59% este ano. À parte disso, os chineses que gerem o TikTok concluíram na sua primeira auditoria a retirada de 80% das publicações que feriam as regras da comunidade.

Na reação aos dados europeus, um porta-voz do Facebook já veio dizer que empresa “não tolera discursos de ódio” em nenhuma das suas redes sociais, comprometendo-se a continuar a guerra contra os conteúdos falsos ou descontextualizados. Entretanto, em plena batalha política sobre a regulamentação da mundo virtual, a União Europeia ainda não apontou nenhuma data para a conclusão da chamada Lei dos Serviços Digitais.

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