Senado

Umas eleições semicompetitivas

Carlos Blanco de Morais


É uma campanha algo surrealista. Tão surrealista como o acto que dissolveu o Parlamento e antecipou umas eleições, num potencial pico de pandemia, para dia 30 de Janeiro. Em suma, uma campanha apressada, reduzida a debates televisivos curtos, com uma desigualdade crítica na projecção pública das diversas candidaturas pelos média, com pouco povo nas ruas e com restrições sanitárias a liberdades fundamentais.

Recordei as eleições para a Constituinte em 1975, tidas como o primeiro acto eleitoral livre, depois do autoritarismo do Estado Novo. Acto “livre”, sim, mas não muito: i) jornais foram proscritos e os partidos da direita e centro-direita ilegalizados ou impedidos de concorrer; ii) comícios do CDS e PSD foram boicotados; iii) a RTP e a imprensa foram tomadas por uma esquerda sectária; iv) e o MFA impôs um pacto aos partidos para a feitura da Constituição e antecipava, antes do acto eleitoral, que o único rumo possível era o socialismo.

Será um exagero comparar as eleições de 1975 com as de 2022: hoje vive-se em democracia; os militares acatam o poder político; os partidos, da direita radical à extrema-esquerda, exercem a sua acção política; e existe liberdade de expressão e de imprensa. Todavia, subsiste uma sensação empírica de que nesta campanha impera, de forma mitigada, um aggiornamento pós-modernista de algumas das disfunções e tiques manipulativos da Constituinte em 1975, enformadoras de uma eleição ritual e semicompetitiva. Vejamos porquê.

Dirigismo televisivo e comentário político comprometido. Em primeiro lugar, as eleições em 2022 realizam-se em estado de calamidade pública, com algumas limitações à liberdade de reunião e no contexto de uma psicose colectiva de confinamento social e político. Psicose alimentada por três canais de televisão que, há mais de um ano, vendem medo pandémico e ocupam 60% dos telejornais com o tema da covid-19.

Será, assim, uma eleição quase “lunar” que, salvo alguns jantares e arruadas, pouco povo terá, juntando-se as incertezas imperdoáveis sobre o voto antecipado e o voto presencial dos confinados por doença. O risco de uma enorme abstenção, gerada por estes factores, tende a favorecer o statu quo e a distorcer as preferências eleitorais de muitos cidadãos, desmobilizados pelas restrições, pela fadiga eleitoral e pela ideia de que a eleição nada resolverá. Será que o mais ilustre e indiscutível perito em “cenários políticos”, como lembrou Fernando Lima neste jornal, não ponderou este cenário ao dissolver o Parlamento?

Em segundo lugar, a acção política centrou-se em curtos debates de pré-campanha entre líderes na TV que, com poucas excepções, foram pobres e pouco esclarecedores, oscilando entre combates de boxe que picaram temas sem qualquer interesse para o país e “conversas em família” soporíferas onde se consensualizaram banalidades.

Em terceiro lugar, tudo seria, ainda assim, tolerável se não tivessem as três televisões generalistas e algumas por cabo acordado tacitamente em filtrar os debates, seja com pivôs intrusivos e parciais, seja através do uso e abuso de um cartel de comentadores arvorados em juízes. Frequentemente, depois de um debate, ouvi e li comentadores encartados dando notas mirabolantes e fazendo apreciações sectárias, deixando a sensação de que assistiram a um debate diferente. Quem não veja um debate e depois recolha as notas dos comentadores, cujo tempo de palco é muito superior aos 25 minutos do debate que comentam, terá uma ideia desfigurada do que se passou. Em complemento surgem sondagens fiabilíssimas como as da Católica que, no passado, deram dezenas de pontos em favor de Medina sobre Moedas e maioria absoluta do PS nas eleições nos Açores. Por tudo isto, fica no ar um perfume barato de manipulação.

Da bissectriz extraída dos comentários aos debates, Rui Rio foi tratado com desdém intelectual até ao confronto com António Costa e à apresentação do programa do PSD em matéria fiscal; Ventura foi demonizado e “perdeu” todos os debates, mesmo antes de começarem; e Rodrigues dos Santos foi tratado com a condescendência reservada às crianças. Paralelamente, Rui Tavares, que há muito mendiga desesperadamente, mas em vão, um lugar de deputado, foi levado num andor e fabricado pelas televisões como a coqueluche dos debates, pesem embora as suas propostas ridículas e inexequíveis do rendimento-base universal e do passaporte humanitário internacional.

Numa campanha assente em duelos televisivos, as televisões deveriam entender que as pessoas querem ouvir os candidatos, e não a opinião dos moderadores, e que dispensam os filtros de certos comentadores comprometidos ou induzidos por spin doctors para formarem opinião. Por tudo isto, sempre achei que liberdade de expressão sem pluralismo real redunda em défice de competitividade democrática e que a ideia do Presidente de defender apoios do Estado aos média durante a pandemia seria um risco, porque não há pequenos-almoços grátis.