Senado

Um país de cenários

Fernando Lima


Vivemos num país de cenários políticos. O melhor exemplo vem de cima. Em Belém, temos o mestre dos mestres na criação de cenários. Iniciou-se no Expresso e rapidamente ganhou a fama de ser também um criador de factos políticos. Entretinham essencialmente a classe política, mas foram fazendo escola nos meios jornalísticos. Depois do Expresso, manteve a marca em órgãos de informação por onde passou. Chegado a Belém, investido nas altas funções de Presidente da República, era suposto que, por exigência do cargo, cessasse uma actividade reconhecidamente favorita. Mas não. O fluxo de criação de cenários políticos continua e o Expresso volta a ser um órgão privilegiado.

O “vício” de Marcelo Rebelo de Sousa “contagiou” membros do Conselho de Estado que, na condição de comentadores televisivos, são igualmente alimentadores de cenários políticos para todos os gostos. É ouvi-los, sempre cheios de conjecturas, e um dos temas favoritos é o das remodelações governamentais, chegando inclusivamente a mencionar nomes de possíveis remodeláveis. Está assim criado o suspense e, aparentemente, uma parte do Governo fica a prazo, até que, entretanto, nada acontece. Como as palavras leva-as o vento, o tempo ajuda a esquecer rapidamente o que não passava de uma especulação.

À volta do destino do Orçamento do Estado (OE) para 2022 não faltaram cenários, prognósticos, palpites. Em Outubro de 2021, o Presidente da República afirmava que “o OE vai passar”. Esta convicção de Marcelo foi sendo sustentada por comentadores que diziam acreditar que o PCP ia “viabilizá-lo”. Luís Marques Mendes, um permanente construtor de cenários, foi taxativo: o PCP “vai ser racional”. Justificava a “racionalidade” comunista com o facto de ter conseguido, na negociação do OE, que não só cerca de 80% dos pensionistas beneficiassem de um aumento extraordinário das pensões como começasse já em Janeiro e não em Agosto, como queria o Governo.

O PCP não se deixou influenciar por opiniões alheias que lhe davam conselhos de bom senso e decidiu por si próprio ao votar contra a aprovação do OE de 2022. Como o BE, o outro parceiro da geringonça, tomou decisão idêntica, o chumbo do documento levou o Presidente da República, conforme tinha prometido, a dissolver a Assembleia da República, convocando eleições legislativas. Mais uma campanha eleitoral e, concomitantemente, a incerteza quanto a resultados finais que permitam perceber o que acontecerá à governação do país. As sondagens procuram antecipar resultados mas, muitas vezes, são origem de mais dúvidas sobre a arrumação das forças partidárias no processo político.

A razão da convocação antecipada de eleições, por ter fracassado a solução política que deu estabilidade ao país durante seis anos, teria de estar obviamente no centro do debate eleitoral. Por isso, nesta ida às urnas, o que se seguirá como nova solução governativa é a grande incógnita e, nessa medida, a prioridade do nosso jornalismo tem sido questionar todos os intervenientes sobre cenários pós-eleitorais. Sabemos que a fragmentação partidária gera muitas dúvidas, mas pergunta-se até quase à exaustão para conseguir comprometer os políticos com uma resposta. Os comentadores acompanham-nos com o mesmo afã. Afinal, a campanha eleitoral parece estar reduzida a um conjunto de suposições que não só bloqueiam a discussão de assuntos concretos como confundem o eleitorado. A quem aproveita este bloqueio? Obviamente a quem ocupa o poder.

Quando se tornou consensual que Portugal é um país estagnado por ausência de reformas que de viam corresponder às necessidades do tempo que vivemos e, desse modo, preparar o nosso futuro, assistimos diariamente à gestão da conjuntura em função dos interesses de quem nos tem governado nestes seis anos. O que na vida dos portugueses irá ser diferente depois das eleições de 30 de Janeiro? Pode dizer-se que é uma pergunta sem resposta. Quando a prioridade são cenários e não as soluções que importam à vida das pessoas, a política portuguesa está transformada numa nebulosa. Por isso, o cepticismo na sociedade portuguesa é maior que a esperança.