Senado

Revoluções industriais e globalizações

Jorge Braga de Macedo


Revoluções e continuidades são quase tão parecidas como gostaria um historiador tranquilo: às sucessivas revoluções industriais iniciadas há quase 300 anos com a manufactura em Inglaterra, Europa ocidental e costa leste dos EUA seguiu-se a química industrial a partir dos anos 1850, quando foi alastrando à Alemanha e Japão. Depois das guerras veio a revolução digital dos anos 1950 que, passada a crise petrolífera dos anos 1970, deu lugar à terceira vaga de globalização, que acelerou depois da queda do muro de Berlim até à crise financeira de 2008.

A quarta revolução industrial, anunciada em Davos há cinco anos, corresponde à hiperglobalização. Este mundo 4.0 foi aptamente definido há dias na Arrábida como uma inteligência artificial que junta “ciência, tecnologia e sociedade” (E. Costa, capítulo XV de R. Malhó et al., “Complexidade: Implicações e Políticas Globais, BytheBook, no prelo). Lá voltei a defender que se não ignore a primeira circum-navegação há 500 anos, porque inspirou a epopeia camoniana e a aventura das plantas, promovendo “negócios, ciência e cultura para o desenvolvimento” que antecipam os objectivos multilaterais da OCDE, ONU, etc.

Por acaso, dias antes da queda do muro de Berlim, sete países de língua oficial portuguesa criaram em São Luís do Maranhão o embrião da futura CPLP. Como o português é a língua mais falada no hemisfério Sul, atrevi-me a envolver a Academia das Ciências de Lisboa no ciclo de conferências “Globalização em Português: revoluções e continuidades africanas”, que abrevio como GeP, realizado a propósito dos 150 anos do nascimento do grande industrial Alfredo da Silva, comemorados durante meses pela Fundação Amélia de Mello, com encerramento na Gulbenkian.

É claro que o atrevimento de jungir revoluções políticas e continuidades socioeconómicas não é só meu: ao interrogar-se sobre a revolução e a sociedade portuguesa em 1975, o economista budista francês S. C. Kolm declarou que “as acelerações sacudidas da história pontuam a vida dos povos como os sacramentos a dos cristãos”. Esta ousadia do velho amigo ajuda-me a motivar uma comparação relevante para o tema da GeP, notando que os ciclos de divergência e convergência do produto bruto português com a média europeia só revelam este último sentido depois de 1925, embora tivessem ocorrido quatro revoluções vitoriosas no século passado. A última ocorreu quando o milagre económico dos anos 1960, que nos fez passar a país industrializado, foi vítima da crise do petróleo e do cansaço em três teatros africanos de combate.

No livro resultante do debate GeP inclui-se um estudo que mostra como continuidades em Moçambique de 1900 a 2005 parecem ignorar essas revoluções sucessivas e também descreve a colaboração iniciada em 2004 entre a CPLP e o IICT, Laboratório de Estado extinto pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros em 2015, cuja sede no Palácio Burnay foi vandalizada na Primavera, depois de anos ao abandono. Oxalá a feliz revolução municipal lisboeta deste Outono torne vã a cobiça dos vândalos!