Senado

Portugal a empobrecer

Luís Mira Amaral


Portugal perdeu, em termos económicos, as duas primeiras décadas do século XXI, pois há 20 anos que a economia portuguesa praticamente não cresce. Nos últimos 26 anos, o PS governou 19, sendo os governos PSD/CDS sempre chamados em contexto de grave crise económico-financeira. Como é então possível alguns dizerem que as culpas do nosso impasse económico são de um modelo neoliberal? Será que o PS é neoliberal?...

Como a União Europeia é um bloco económico rico em termos mundiais, conseguimos ser um país em estado intermédio de desenvolvimento no contexto mundial, apesar de estarmos a caminho de ser um dos mais pobres da UE. Como expliquei na conferência do MEL, é conhecida a dificuldade/armadilha que muitas economias têm em sair desse estádio intermédio de desenvolvimento para um patamar superior. Para tal é preciso ter uma infra-estrutura cultural que favoreça a economia social de mercado, a empresa privada, o empreendedorismo, a liberdade de iniciativa e a livre escolha. Portugal, com a ala social-democrata do PS marginalizada e a hegemonia da esquerda marxista no Estado e na sociedade - facto singular na Europa -, não tem essa infra-estrutura e não vai sair desta armadilha. Seremos pobres num bloco rico. Mas o nosso problema não é de falta de dinheiro, é político!

No contexto europeu, Portugal passou, segundo dados da Pordata quanto ao PIB per capita expresso em paridades de poder de compra (PPS), da 15.ª posição no ano 2000 para a 19.ª em 2019, tendo sido entretanto ultrapassado por Malta, República Checa, Eslovénia, Estónia e Lituânia, registando no final deste período um PIB per capita em PPS de 24,4 mil euros, que compara com os 31,1 mil euros registados na média da União Europeia. E no que toca aos rendimentos dos salários em termos de paridade do poder de compra - salários a dividir pelo custo de vida -, já só temos atrás de nós a Bulgária!

Portugal foi dos países da União Europeia mais afectados pela pandemia, dado que era muito dependente do turismo, o qual, como sabemos, foi dos sectores mais vulneráveis, tal como, de um modo geral, os serviços. Em contrapartida, a indústria foi dos sectores mais resilientes, o que mostra, aliás, a importância do desenvolvimento industrial para garantir a resiliência económica em crises como esta. Mas Portugal tem perdido actividade industrial em relação aos restantes países da União Europeia desde 2001. A contribuição de 12% que a indústria tem para o nosso PIB compara com os 19% na média dos 27 países da UE.

Por outro lado, já se percebeu que as taxas de juro vão começar a subir com a recuperação económica e as pressões inflacionistas, gerando então um factor de stresse sobre as nossas finanças públicas. Se o PS ainda estiver no governo, teremos oficialmente o rigor orçamental. Se for o centro-direita, infelizmente, a governar, teremos a esquerda unida - PS, PCP e BE - a protestar veementemente contra a austeridade e as políticas neoliberais!