Senado

Porque será que a melhor geração de sempre não é muito mais produtiva?

João Moreira Rato


Quando em 2012 nos preparávamos para responder ao desafio de convencer os investidores a comprar dívida pública portuguesa testei, uma ou outra vez, com profissionais, o nosso discurso de venda. Numa das primeiras tentativas, um investidor muito experiente disse-me que tudo o que lhe tinha dito fazia todo o sentido, mas que faltava no meu discurso uma componente muito importante: a esperança. Em que consistia essa esperança? Nos primeiros sinais que indicassem as fontes de um robusto crescimento económico futuro. Não chegava explicar como se estavam a aplicar políticas para corrigir os desequilíbrios externos e do Estado, era preciso ilustrar de onde poderia ver esse crescimento que permitiria a Portugal entrar num círculo virtuoso de redução de dívida pública.

Assim, além de enunciar as reformas estruturais que os investidores insistiam em identificar, enfocámos muito as nossas apresentações no comportamento do sector exportador, que já servia de exemplo concreto e observável de que a estrutura da nossa economia era diversificada e resiliente - muito diferente do sector exportador assente em mão-de-obra barata que ainda estava na cabeça da comunidade financeira internacional quando se falava de Portugal.

Passados quase dez anos sobre este período, é ainda altamente relevante o modo como explicamos o potencial de crescimento do nosso país aos investidores internacionais. Olhando para a apresentação disponível no site do IGCP, observamos que a resiliência do sector exportador ocupa ainda um papel central e que os fundos europeus, o PRR em particular, merecem agora algumas páginas.

Quando olhamos para os dados económicos, deparamo-nos com um enigma: a produtividade da nossa economia, medida como o produto interno bruto por hora trabalhada, diverge das médias da União Europeia e da OCDE há mais de sete anos. Este fenómeno é enigmático porque parece não ser explicado pela variação do stock de capital na economia (um trabalhador com mais maquinaria para trabalhar deveria ser mais produtivo) e porque a evolução da formação dos trabalhadores (a tal geração mais qualificada de sempre) e das medidas de inovação e desenvolvimento de novos produtos (patentes, por exemplo) nos fariam esperar o contrário. Ou seja, se olharmos para a evolução do país em termos de formação e de desenvolvimento de novos produtos, deveríamos estar a observar não só uma evolução mais rápida da produtividade, como uma convergência para níveis europeus, e não uma divergência.

Impõe-se então procurar as razões por detrás desta observação. Onde estão as nossas fragilidades, as barreiras que impedem a realização do nosso potencial? Porque não consegue a geração mais qualificada de sempre colher plenamente os frutos dos seus estudos mais prolongados? Voltamos ao tema antigo da necessidade de reformas estruturais, vistas como mecanismo libertador do potencial de uma força de trabalho à procura da sua realização.

Iniciamos um período em que o país vai receber quantidades maciças de fundos europeus. Seria bom identificarmos os problemas de fundo que nos limitam o crescimento, ainda mais porque estes ficam disfarçados pelos fundos aplicados, como um remédio que alivia as dores pode ir mantendo o status quo quando os problemas de saúde são mais profundos.

Quando um investidor nos perguntar porque a nossa produtividade não cresce mais, o que lhe respondemos? Quando nos perguntar se este facto não indica que a nossa economia tem problemas mais profundos, se os identificámos e como os vamos resolver, o que respondemos? Por agora, devido às acções do BCE, não temos de nos preocupar tanto quando estas perguntas ficam sem resposta, mas mais cedo ou mais tarde, seja para nós ou para os investidores, vamos ter de explicar.