Senado

O regresso da decência a Washington e da complexidade a Cabul

Miguel Granja


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As ficções e os factos, arqui-inimigos disputando sujeitos cognoscentes e morais, partilham um atributo recíproco: a imunidade. As ficções, infelizmente, são imunes a factos, e os factos, felizmente, são imunes a ficções. Generosa na demonstração desta tese, a História, agora no Afeganistão, volta a ratificá-la de forma implacável.

A avaliação relativa das administrações Trump e Biden não pode ser desligada daquela imunidade recíproca: desde que, há sete meses, a decência regressou à Casa Branca, com ela regressaram a decente crise migratória à fronteira com o México, a decente guerra a Gaza e o decente mercado de escravas sexuais ao Afeganistão.
E regressou também, talvez para explicar um tão indecente regresso da decência, a complexidade do mundo.

Com Trump, nos anos da indecência, o mundo era espectacularmente simples - e trumpocêntrico. Tudo dizia respeito a Trump e a Trump somente, região gravítica em torno da qual tudo girava e para cujo ponto de não-retorno tudo era inapelavelmente atraído e sugado: Trump não foi um Presidente americano, foi um “horizonte de eventos”. Nos anos Trump, o especialista era um simplista - e quanto mais simplista, mais especialista. Toda a explicação começava sempre onde acabava: Trump não era um homem, era um primeiro motor imóvel. Trump, o inexplicável, explicava tudo. Ou seja, nada.

Após Trump, tudo voltou a ser complexo. Os especialistas em relações internacionais, de férias epistemológicas durante os anos da indecência, voltaram a desempoeirar as velhas teorias sobre o “pivô geográfico da história”, a “armadilha de Tucídides”, o “dilema do prisioneiro”: a queda de Cabul e aquele bebé a ser içado por cima do arame farpado, pela mão de um soldado americano, das mãos da própria mãe desesperada? Evento demasiado complexo e multifactorial. Impossível de simplificar numa única decisão política. É necessário vasculhar 20 anos de política externa norte-americana ou, segundo outros, recuar até às aventuras coloniais do Império Britânico (a escalada hermenêutica, se devidamente encorajada, chegaria certamente ao primeiro passo da Eva mitocondrial).

Biden? Mas que imputação séria de causalidade poderá ligar o decente Biden, a decente decisão de Biden e a consequência indecente da decente decisão do decente Biden? “Não sejamos simplistas”, dirá o especialista-complexo-ex-simplista.

Nos anos da indecência, tivemos um Afeganistão com Trump, mas sem mercados de escravas sexuais. Após o regresso da decência, temos um Afeganistão com mercados de escravas sexuais, mas sem Trump. A decência, regressada ou retirada, também se distingue por escolhas elementares.