Senado

O PS e a lei de Murphy

Daniel Adrião


Depois da crise política provocada pelo chumbo do Orçamento do Estado, com o qual o PCP e o Bloco de Esquerda celebraram o requiem da morte anunciada da soi disant geringonça, obrigando à dissolução da Assembleia da República e à convocação de eleições legislativas antecipadas, fechou-se o ciclo político que se tinha iniciado em 2015.

Este desfecho não foi inopinado e muito menos imprevisível. Há muito que havia sinais evidentes da degradação das relações entre os compagnons de route do Governo, com o aumento da tensão nos debates no Parlamento e as sonoras divergências em inúmeras matérias, designadamente as leis laborais, o financiamento à banca, o aumento de salários, o investimento no SNS, etc., etc., e que já se tinham materializado nos votos contra do BE no OE de 2021 e do PCP no Orçamento rectificativo desse mesmo ano.

Só o proverbial optimismo de António Costa, que o Presidente da República apelida de irritante, permitiu ir disfarçando o esgotamento de uma solução que não logrou ser mais do que o “negativo fotográfico” do Governo de Passos e cujo compromisso se finou nos primeiros dois anos de Governo de Costa.

Depois da fase de “lua de mel”, a geringonça começou a acusar desgaste rápido por falta de um programa que pudesse ir além do mínimo denominador comum que a agenda anti-troika tinha cerzido. A linha vermelha, traçada pelo PS, das contas certas, fundamental para a confiança dos mercados e das instituições europeias, bloqueava qualquer avanço com os parceiros da esquerda radical e ressuscitava as velhas clivagens ideológicas e as diferentes mundividências que separaram as “esquerdas” em dois blocos durante mais de 40 anos. A narrativa do fim do “arco da governação” revelou-se manifestamente exagerada e sucumbiu ao teste de stresse da governação.

A verdade é que a geringonça não conseguiu ser mais do que uma resposta conjuntural à ressaca pós-troika que teve como principal móbil o afastamento da direita radical do poder, mas que falhou na construção de um programa de governação que pudesse oferecer ao país soluções de fundo, capazes de dar resposta às debilidades estruturais do país.

À geringonça aplicou-se a lei de Murphy: nada dura para sempre. Por isso, há-de haver uma altura em que todas as peças de uma máquina deixarão de funcionar.

Chegados aqui, ao PS restavam dois caminhos.

Uma opção era fingir que o ciclo político não tinha terminado e afirmar, como fez Pedro Nuno Santos, que a interrupção da geringonça constituía apenas “um parêntesis” e que seguia dentro de momentos, passando uma esponja por cima da quebra de confiança política do BE e do PCP no PS, com as graves consequências que daí resultaram para o país. Nesta linha, a narrativa seria insistir na lógica da continuidade e que as eleições antecipadas constituíam tão-só um mero acidente de percurso que seria facilmente ultrapassado, e rapidamente se retomaria o rumo anterior.

Esta foi, indiscutivelmente, a opção escolhida pela direcção do PS, que insiste na lógica da continuidade, que será espelhada quer no programa eleitoral que se anuncia, que se revelará uma espécie de balanço do que foi cumprido e do que falta cumprir, quer na recondução da larga maioria dos candidatos a deputados da legislatura anterior.

Acontece que havia outro caminho. Um caminho seguramente mais realista e em linha com aquele que é o sentimento da maioria dos portugueses, que passava por assumir que o ciclo político anterior havia terminado e que o PS tinha aprendido a lição e tomado boa nota dos sérios avisos que os eleitores lhe tinham dado, quer com a derrota nos Açores e a consequente perda do governo regional, quer com as derrotas autárquicas, principalmente de Lisboa, mas também noutras capitais regionais como o Funchal ou Coimbra. Mas, principalmente, com a crise de confiança política e a falta de entendimento estratégico, cujas divergências inultrapassáveis entre o Governo do PS e os seus ex-aliados parlamentares conduziram à formação de uma coligação negativa entre os partidos da esquerda e da direita e ao derrube do Governo.

Nesta linha estratégica, que foi aparentemente descartada pela direcção do PS e pelo seu líder, o partido deveria apresentar-se aos portugueses mostrando ser capaz de liderar um novo ciclo político, com novos protagonistas, com um programa eleitoral fortemente renovado, assente numa agenda progressista e reformista, que oferecesse aos portugueses uma visão de médio/longo prazo e a ambição e o desígnio de colocar Portugal no “pelotão da frente” da União Europeia no horizonte de uma geração.

Esta seria a estratégia que permitiria ao PS escapar à lei de Murphy em que caiu a geringonça. Oxalá ainda seja possível.