Senado

O estudo da FFMS e a participação dos jovens

Alexandre Poço


Em oportuna hora surgiu recentemente o estudo “Os jovens em Portugal, hoje” da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), a partir de um inquérito realizado em Junho do ano passado a quase cinco mil pessoas entre os 15 e os 34 anos, em representação dos 2,2 milhões de jovens que constituem esta população no país.
É mais um excelente contributo que a FFMS disponibiliza para o debate público em Portugal.

Em algumas áreas, nomeadamente laborais, acesso à habitação, emancipação, salários, abandono escolar, saúde mental, as conclusões vêm confirmar o conhecimento empírico que vamos tendo através de estatísticas parcelares relativamente ao triste e grave panorama das novas gerações em Portugal.

Este estudo tem um mérito significativo e de grande relevo: numa publicação de 460 páginas (disponível gratuitamente no website da fundação), condensa análises várias sobre diferentes temas num dos maiores estudos alguma vez realizados sobre os jovens portugueses, ou seja, num retrato de uma geração.

Procurarei focar este artigo na participação dos jovens, porque o estudo traz indicadores interessantes sobre o tema. Dos jovens que participam no estudo, praticamente todos (93%) já têm 18 anos e, portanto, podem votar. Contudo, nem todos os que já alcançaram a maioridade exercem sempre o direito de voto: são pouco mais de metade (53%) os que declaram que votam sempre que há eleições e 21% os que declaram que votam na maioria das eleições. Os que nunca votam representam 14% das novas gerações.

Se um maior nível de escolaridade impacta significativamente a participação eleitoral (64% dos que votam sempre têm um curso superior, apenas 4% dos que nunca votam têm este grau de ensino), é também relevante e preocupante saber que em cada eleição, olhando para a generalidade dos jovens, apenas um em cada dois irá de certeza votar e que quase três em cada dez jovens ou nunca vota ou vota irregularmente.

Podíamos assumir que estes dados resultam de um baixo interesse pela política, mas, também aqui, o estudo da FFMS revela indicadores interessantes: 87% dos jovens têm opinião sobre a sua posição política e 59% têm um interesse intermédio, bom ou muito bom na política.

Estes dados sugerem uma conclusão lapidar: os políticos têm de olhar, de uma vez por todas, para estes indicadores. As possíveis soluções, mexendo no sistema eleitoral ou político, reforçando a responsabilização e a proximidade dos eleitos, são já sobejamente conhecidas. Ao fim de quase 50 anos de democracia, começa a ser tempo de agir, antes que seja tarde demais e estes não votantes jovens se transformem em não votantes para a vida toda. Como em tantas áreas no nosso país, as respostas estão pensadas e discutidas. Falta a coragem para agir.

Os indicadores relativos à participação em acções sociais e políticas também devem merecer reflexão e consequente acção. Durante o último ano, a acção social em que mais jovens inquiridos participaram foi “assinar uma petição”: fizeram-no 40% dos 2,2 milhões de jovens que este estudo representa. As únicas outras acções em que durante o último ano participaram pelo menos 10% dos jovens foram: “colaborar com organizações/associações de voluntariado” (16%), “colaborar com uma associação juvenil ou estudantil” (12%) e “participar numa manifestação” (10%).Confirmando a percepção empírica, durante o último ano, apenas 5% dos jovens colaboraram com um partido político, 5% contactaram um político, 4% colaboraram com um sindicato, associação ou ordem profissional e, em último lugar, apenas 4% participaram num comício político. O estudo indica também que 35% dos jovens não participaram em nenhuma acção social ou política no último ano.

Se os dados indicam a existência de opinião e de interesse, então algo está a falhar na materialização para uma comunidade jovem mais participativa. É urgente que os partidos e movimentos sociais interiorizem estes números e comecem a agir. Não há fórmulas mágicas, mas há caminhos a seguir - por exemplo, abrir as estruturas a formas de participação mais pontuais/temáticas, repensar a organização actual que vigora basicamente nos mesmos moldes desde o início da democracia, trazer o que há de melhor na tradição americana de “community organizing”, digitalizar todas as formas de participação, procurar o apoio (“endorsement”) a posições públicas através de petições que alcancem ou envolvam um maior número de pessoas.

Podemos não escolher estas ideias que aqui exploro e adoptar soluções diferentes para que as novas gerações participem mais, actuem mais, votem mais. Com os números divulgados por este estudo da FFMS, a única solução que não podemos escolher é não agir.