Senado

E as mulheres?

Zita Seabra


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Esta angustiante pergunta veio-nos à memória nestes tristes dias. Soou por todo o Ocidente, perante a saída desastrada dos mais importantes exércitos do mundo, particularmente do americano, frente a uns talibãs vindos, parece, de surpresa. Ver novamente os americanos em fuga e apanhados de surpresa é qualquer coisa inimaginável.

O Presidente dos EUA, Joe Biden, tinha-nos sossegado há apenas um mês, a 8 de Julho, quando interrogado pela imprensa acerca de avisos de serviços secretos sobre a iminência da chegada dos talibãs. Nessa altura, Biden afirmou que não tinham chegado à conclusão de que os talibãs preparavam uma ofensiva.

Dormimos descansados, nós e as mulheres afegãs. Presidente dixit, em seu nome e dos serviços secretos americanos, há 20 anos no terreno. Joe Biden disse mais: “A hipótese de os talibãs tomarem o conjunto do país é altamente improvável.”

Parece então que os serviços secretos americanos não foram avisados pelos islamitas.

Mas Biden disse mais. Numa referência à saída atabalhoada, chocante e apressada dos americanos do Vietname, declarou: “Jamais veremos gente a ser evacuada do telhado de uma embaixada.” Vimos pior. Vimos helicópteros a retirar gente da embaixada americana e elementos da própria embaixada americana, e outras ocidentais, a fugirem eles próprios para o aeroporto de Cabul frente aos dirigentes islamitas.

Falha total dos serviços secretos? Ou inexistência de serviços secretos ao fim de 20 anos no Afeganistão?

E as mulheres? Que vai acontecer-lhes?

Recordemos que, de 1996 até 2001, as mulheres afegãs viveram lapidações. Viveram num mundo que nem era um regresso à Idade Média, era um mundo das trevas, viviam na Idade da Pedra, num inferno. Lapidadas em Cabul no estádio, isto é, enterradas até à cintura, braços incluídos, e apedrejadas até se esvaírem lentamente em sangue.

Mulheres de burca, obrigatória, aquela burca azul com rede na cara. Lembro-me de encontrar uma vez nos Estados Unidos uma mulher que, de manhã, apanhava o mesmo autocarro do hotel para o centro de Boston. Os meus filhos pequenos paravam, estarrecidos com a dificuldade dela em ver os degraus do autocarro e entrar. O marido aguardava sentado já no seu lugar, com os filhos sempre à sua frente.

As mulheres proibidas de estudar a partir dos oito anos de idade, de ter assistência de médicos na doença e até obrigadas ao silêncio. Silêncio dos seus passos na rua, cheia de homens com varas nas mãos que lhes batem como não se bate num animal. Das aldeias de onde vêm os talibãs ainda nos chegam relatos ou imagens de que é assim.

Que vai suceder agora às mulheres que estão nas universidades e liceus de Cabul, às que trabalham, às que não querem burca nem andar em silêncio?

Todos recordamos Malala, a menina impedida de ir à escola, a quem os talibãs fizeram uma emboscada e deram um tiro. Não morreu graças ao apoio de dois médicos britânicos. Recebeu mesmo pela sua coragem o Prémio Nobel da Paz.

Os talibãs avançaram em oito dias, forçaram a saída do Presidente e instalaram o Emirado Islâmico do Afeganistão. Quase sem combater, só com a força da memória do terror que espalham e do que se espera deles.

Hoje, instalados há menos de semana, voltaram as burcas às ruas de Cabul, regressou o medo, taparam-se as montras, fecharam-se as meninas em casa. Todos sabem como se vive na região e nas montanhas de onde eles partiram para chegar a Cabul.

Trazem armas na mão, mas nenhuma mulher, nenhuma menina está com eles, nem mesmo nas imagens de convívio que mandam difundir, no ginásio do palácio presidencial.

E nós? Uma coisa é certa:
o Ocidente saiu derrotado
e virou as costas.