Senado

Bazucas não matam vírus

João César das Neves


As autoridades europeias, feridas pelo Brexit, desorientadas pela pandemia e atrapalhadas pelas farmacêuticas, recuperaram a iniciativa política com a “bazuca” do novo fundo NextGenerationEU para o magno processo de digitalização e descarbonização. O plano é lindo, com um pequeno defeito: omite totalmente o único problema que a Europa agora realmente tem.

A “gripe” paralisou o planeta na maior crise dos últimos 75 anos e, mesmo quando o fim de contágios e confinamentos permitir a retoma da actividade, são muitas as vítimas desta gigantesca perturbação a exigir cuidados imediatos. O trabalho de lhes atender, moroso, delicado e ingrato, exige pinças e bisturis, não bazucas.

No sector da saúde, o mais afectado pela crise, há muito a fazer antes de se poder receber os milhões prometidos. Os doentes não-covid, afinal a esmagadora maioria, esquecidos há meses atrás da contagem diária de infecções, precisam de um rápido programa de emergência. É urgente reestabelecer serviços, reorganizar recursos, normalizar rotinas. Isto pouco tem a ver com os investimentos adicionais com que nos querem deslumbrar.

Na educação, uma inteira geração de alunos, sobretudo os mais pequenos, apesar dos esforços corajosos de estudantes e professores, perdeu praticamente dois anos de estudos. Esta verdadeira catástrofe exige um plano bem pensado de correcção e recuperação. Claro que, como não dá cerimónias de inauguração nem conta favoravelmente nas estatísticas, os responsáveis desinteressam-se da tarefa, essencial à função do sistema educativo, preferindo falar da escola digital.

Nas empresas, e apesar dos subsídios, muitos sectores foram violentamente afectados por prejuízos e falências e quase todos sofrem do enorme endividamento imposto nos meses de penúria. Mas esta reestruturação e fragilidade financeira passam ao lado da bazuca.

Na sociedade, a prioridade tem de ser a pobreza. Como a Europa decidiu tratar a pandemia com apoios às empresas, a taxa de pobreza subiu, ao contrário das paragens onde a ajuda se orientou directamente para as pessoas. Como até nos futuros milhões de Bruxelas os pobres serão esquecidos, é preciso alguém que lhes acuda.

Finalmente, em todos os campos, com destaque para a justiça, as autarquias, a cultura e a segurança social, há que atender a atrasos, lacunas e confusões administrativas após meses de teletrabalho. Demorará muito a normalizar a actividade para se poder receber as subvenções planeadas.

Estes são os problemas imediatos, a etapa que o plano quer saltar, não tratando, e até ocultando, estes aspectos reais atrás das questões estruturais da “next generation”. Percebe-se que os dirigentes dêem por resolvidas as desagradáveis sequelas da peste, preferindo apregoar grandiosos projectos do futuro remoto. Mas o interesse nacional exige que lidemos urgentemente com aqueles que ainda estão a sofrer a catástrofe que o vírus nos impôs, antes de nos empolgarmos com sonhos de ilusionismo político. Prometer fartura anima a gente, mas desvia-a da dura realidade.