Senado

Agir para além de Glasgow

Armindo Azevedo


Estamos no caminho para um desastre climático. Este é o momento da verdade e falhar é uma sentença de morte. Foi com estas aterradoras declarações, proferidas pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que se iniciou a COP26 em Glasgow. A mesma que hoje termina deixando sentimentos contraditórios entre sinais de esperança, como o acordo mundial assinado contra a desflorestação, e manifestações de desilusão, sendo o mais marcante fracasso a recusa de China, EUA, Índia e Austrália em subscreverem o compromisso de abandono do carvão como fonte energética.

Em Portugal, coincidindo com o segundo mandato para o qual fui eleito como grão-mestre da Grande Loja Legal de Portugal-Grande Loja Regular de Portugal (GLLP-GLRP), foi definido o combate às alterações climáticas como a causa por excelência no próximo par de anos para a maçonaria e, a nível local como internacional, inúmeros maçons abraçam causas e estão envolvidos em projectos que visam contrariar o aumento da temperatura global e assegurar a descarbonização.

Na maçonaria regular acompanhamos de perto a agenda mundial e nacional no que respeita ao ambiente e à sustentabilidade, conscientes da inexorável contagem decrescente caso não levemos a cabo a transformação da qual dependem o planeta e as gerações futuras.

Mais uma vez, tal como sucedeu no passado, quando fomos o primeiro país europeu a abolir a pena de morte para crimes civis, nós, portugueses, demos um exemplo ao mundo. Ao mesmo tempo que a Assembleia da República aprovou, agora, a Lei de Bases do Clima, o nosso Parlamento foi o primeiro do planeta a reconhecer o “clima estável” como Património Comum da Humanidade e, deste modo, deverá o Governo diligenciar junto das Nações Unidas para que tal seja reconhecido de modo oficial por esta organização mundial.

Por outro lado, ao mesmo tempo que isso sucedia era divulgado o estudo de uma investigadora da Universidade de Aveiro segundo o qual cada português está a produzir cerca de 40,3 quilos de plástico por ano, valores acima da média face à União Europeia. E, em simultâneo, um inquérito aos cidadãos nacionais - promovido pela consultora NBI/Natural Business Intelligence - demonstrou que quase metade dos inquiridos não acreditam que, individualmente, possam fazer algo relevante para salvar o ambiente, existindo um sentimento de impotência no que toca ao resultado efectivo das acções individuais.

Na minha opinião, é este precisamente o principal desafio que importa vencer nesta fase: elevar a fasquia dos objectivos que a cada um de nós compete assegurar, na medida das suas possibilidades. E nunca desistir de pensar que um resultado eficaz colectivo só pode surgir em consequência do somatório dessas acções individuais.

A maçonaria regular dará, de forma empenhada, o seu contributo no caminho para atingir esta meta. Tudo faremos para que não esmoreça a crença nos efeitos positivos das acções de cada um de nós, sabendo que a desistência não é uma opção e que, tal como destacou a jovem de 14 anos Vinisha Umashankar em Glasgow, “temos de deixar de falar e começar a agir”.

O futuro é de jovens como ela, alguém que se definiu como uma pessoa que não tem tempo para a raiva porque o dedica à acção. “Não sou apenas uma rapariga da Índia. Sou uma rapariga da Terra e orgulho-me de o ser. Sou também uma estudante, inovadora, ambientalista e empresária. Mas, mais importante, sou uma optimista”, afirmou ela no seu discurso. O mundo será para jovens da Terra como Vinisha; pessoas ainda optimistas, mas também informadas e persistentes. Cabe-nos aprender com elas a agir e insistir. Para além de Glasgow deverá estar a esperança, não o desespero.