Senado

A grande ilusão

António Bagão Félix


Apolítica, polvilhada por epifenómenos, consome-se na discussão do maniqueísmo direita-esquerda. A esquerda acha-se detentora da verdade, garante da distribuição sem prévia produção de riqueza, educadora moral e monopolista cultural. A direita, não raro, deixa-se seduzir pelo canto da “sereia correcta” e envergonha-se (ou pede desculpa) quando tenta defender o seu ideário personalista.

Millôr Fernandes disse um dia, em jeito caricatural, que a diferença fundamental entre direita e esquerda é que a direita acredita cegamente em tudo o que lhe ensinaram e a esquerda acredita cegamente em tudo o que ensina.

A Europa está refém dos ditames do pensamento único, das causas dissolventes, do dinheiro fácil do BCE. Despreza a família, relativiza a vida humana, ignora os deveres associados aos direitos. A marxista luta de classes deu lugar à marxiana luta de minorias. Para tal cultiva-se ad nauseam o relativismo e o presentismo. Há dias, no seu albergue parlamentar, uma maioria decidiu, em deriva totalitária, que o aborto é um direito humano (!) e que a liberdade e objecção de consciência deve ser restrita ou eliminada. São os mesmos que apoiam freneticamente países e regiões onde, por exemplo, a mulher é tratada como um objecto e certas orientações sexuais podem levar à condenação à morte!

Por cá, os dois principais partidos têm um programa comum: o do poder pelo poder. Primeiro, para conquistá-lo, depois, para enxamearem a máquina do Estado e as suas adjacências, por fim, para satisfazer a gula dos jotas e personagens ignotas sem vida fora da mama do Estado. O país político é o da táctica-do-dia-seguinte, não o da estratégia-dos-anos-e-gerações-seguintes. Todos os dias se anuncia qualquer medida simpática (não populista, credo!) para fingir que se governa, sem nenhuma verificação e escrutínio posteriores. Tudo, com compulsiva e finória reciprocidade: o que agora se critica na oposição far-se-á no poder e vice-versa.

Geringonçadamente, juntam-se ideários inconciliáveis para (não) realizar reformas fundamentais. Quais são os desígnios nacionais nos anos em que não há futebol planetário? Tudo se resume à prática mendicante de mais dinheiro europeu e à quase confiscatória tributação do trabalho. O primeiro-ministro resumiu magistralmente os milhões da Europa apatacada: “Quando posso ir ao banco?”

Não nos iludamos: mais dinheiro é mais Estado, mais amiguismo, mais lobbying subterrâneo, mais gestão eleitoral, mais “marca Portugal”. Os industriosos capitalistas de passivos e os assessores do regime agradecem; as agências de comunicação orquestram e executam as convenientes agendas e fabricam as “verdades” (não fake news, credo!) do regime. À esquerda, limpam a memória do que é inconveniente lembrar ou associar; à direita, avivam a memória transformada em lenda, como desculpa para o desgoverno da esquerda.

A correcção política é obsessiva e sequestrou o país mediático, desde as televisões domesticadas e subsidiadas até à imprensa e redes sociais. Este sanitarismo linguístico é usado como uma poderosa forma de controlo da mente, gerando novas e capciosas censuras. Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz, pois que se sentenciou que o politicamente correcto representa o bem e o politicamente incorrecto representa a heresia e o mal.

Quem a põe em causa leva com insultos bolsados pela nova polícia dos costumes. Dizem promover a tolerância e acabam por ser os mais intolerantes. As cartilhas educativas são manipuladas, com o dinheiro de todos. Enquanto a educação religiosa ou moral é demonizada, a ideologia de género e outras similares são proficientemente ensinadas por soldados da correcção política. Um jovem só vota e conduz aos 18 anos, mas é livre para tudo o que é fracturante aos 14, 15 e 16 anos.

Tudo isto, evidentemente, sem haver oposição. E, claro está, “a banda Nação”!