Senado

A dura realidade do turismo a menos

Bernardo Trindade


Neste tempo de turismo a menos, recordemos que há alguns anos se instalou em Portugal a discussão em torno do tema turismo a mais. Sobretudo nos grandes centros urbanos, mobilizou várias vozes.

Procurando ser honesto, fui percebendo também que a estas vozes não as movia qualquer animosidade quanto a um bom hotel, um bom restaurante, uma boa praia ou um bom peixe. Nada disso: pude perceber e confirmar que o que as irritava era a ideia de perderem o exclusivo destas boas experiências. Nada, pois, contra o turismo; tudo contra uma ideia de partilha, sobretudo em larga escala...

Com a noção de que a regulação destes “excessos” tem de continuar a fazer-se, avancemos.

De facto, desde o advento das low-cost e da democratização pelo baixo preço no acesso ao transporte aéreo que milhões de pessoas puderam desfrutar de experiências fora do seu país de residência.

E é aqui que entrou Portugal nos últimos anos. O país, outrora difícil de alcançar pela sua localização, pôde beneficiar nos últimos anos desta nova dinâmica de procura. Entenda-se, o país de norte a sul, do Porto Santo ao Corvo. Portugal preparou-se para poder proporcionar a um não residente um convite a uma experiência de consumo. Esta exportação cá dentro foi visível na escolha de um bom hotel, de um bom alojamento local, de um bom restaurante, de um contacto com a bela natureza, na fruição do património, no comércio e na animação...

Todo este ambiente trouxe ganhos. Ganhos directos na criação de valor, no emprego, na receita fiscal, no equilíbrio da balança externa de pagamentos, no combate à desertificação do país, com a permanência de muitas pessoas nas suas terras. E ainda ganhos indirectos em centenas de projectos de jovens e menos jovens que puderam desenvolver uma ideia para responder a esta opção de um cliente estrangeiro por Portugal.

Acrescentaria ainda uma outra dimensão. Pude percebê-la, aliás, quando estive na Portugal In - estrutura de missão para captação de investimento no Brexit -: boas experiências de turismo no nosso país evoluíram para relações perenes noutros sectores de actividade. Tivemos exemplos na indústria, agricultura e imobiliário...

Andando, chegámos aqui. Melhor: chegámos há 15 meses, confrontando-nos com esta pandemia também económica. Com a pandemia, assistimos a aviões no chão e mobilidade zero, consumidores em casa, empresas fechadas, emprego destruído, sonhos destruídos, turismo a menos!...

Sendo sincero, não foram os apoios à manutenção do emprego no layoff e no apoio à retoma, então o desastre social tinha assumido dimensões gigantescas. Sobretudo porque foi no turismo que aumentaram mais os registos de emprego na Segurança Social, nos bons anos. Sim, mais de 400 mil pessoas...

Sim, agora é preciso animar o novo começo. Com o plano de vacinação a cumprir a sua missão, vamos voltar. Mas não vamos voltar logo. Vai depender da restauração lenta de uma confiança perdida. E isso não se faz por decreto. Precisamos de que os apoios ao emprego continuem para além de 2021. Com isso, vamos “partilhando” com a Segurança Social a nossa relação com a força de trabalho.

E não, não queiramos inventar reindustrializações. Continuemos a aposta em actividades em que mostramos ser competitivos globalmente e façamo-lo ligando com ganho a outras actividades. Já o fizemos no passado. Fomos felizes. Continuemos.