Senado

A cultura, obviamente

Gonçalo Reis


Olhando para além da pandemia, do PRR e dos fundos europeus, que país pretendemos reconstruir? Que prioridades incutiremos nas gerações mais novas? Quais serão os valores, as marcas, a atitude que iremos afirmar?

Muito se tem discutido os desafios que enfrentamos e as políticas transversais a equacionar: o fomento da competitividade a par da redução das desigualdades, a modernização dos serviços públicos a par da promoção da iniciativa privada, a capacitação humana a par da atractividade fiscal. Mas quais são os sectores, as áreas vitais a dinamizar? Quais os eixos do futuro, os espaços onde queremos posicionar-nos?

Creio que a resposta, ou parte central da resposta, está na cultura, obviamente. A cultura em sentido lato, ou seja, o património e a criação contemporânea, as artes plásticas e o cinema, a música e as indústrias criativas, a arquitectura e a moda, o design e a gastronomia, os média e a política da língua e da edição, os arquivos históricos e a produção de conteúdos digitais.

Os países e as cidades mais interessantes, vibrantes e prósperos são os que apostam decididamente nas artes e no conhecimento, que colocam estas forças no centro das estratégias, construindo assim sociedades estimulantes e inclusivas.

Mas tal implica uma visão, compromisso e persistência que não temos revelado. Estamos longe das práticas mais civilizadas e contemporâneas. Temos problemas crónicos de subfinanciamento e museus nacionais sem condições (já muito antes da pandemia...); uma lei do mecenato que merece ser revista há décadas; colecções públicas mal organizadas e sem políticas de aquisições; não concedemos autonomia a museus que poderiam actuar com outro ânimo e desenvoltura; continuamos com apoios automatizados e basistas, sem seleccionar e viabilizar projectos de vulto; não valorizamos os criadores como devíamos e não capacitamos as instituições como merecem; e falta-nos projecção internacional consistente. Por mais juras de amor à cultura da parte de tantos políticos, estamos assim, muito abaixo do nosso potencial. Podemos e devemos ir mais longe.

Precisamos de tratar a cultura com outra atenção, outra ambição, com estratégias de longo prazo, meios adequados e estáveis, apostas estruturais, dando espaço aos agentes mais qualificados, potenciando verdadeiramente as instituições, ouvindo quem sabe, investindo com recorrência, hierarquizando e escolhendo sem medo iniciativas de grande alcance e capazes de marcar, que valorizem o património e estimulem os criadores e as áreas de vanguarda. Veja-se o empenho que as sociedades mais avançadas estão a colocar nestes domínios. Veja-se o investimento pensado, arrojado, de Espanha, que dedicará 1,9 mil milhões de euros, até 2025, a fomentar um hub audiovisual de ambição global. Veja-se a escolha fortíssima de Macron para dirigir o Louvre - uma mulher (a primeira) de grande gabarito na gestão de museus. Veja-se a operação do Rijksmuseum à volta do restauro da pintura “A ronda da noite”, de Rembrandt, celebrando um tesouro nacional de forma afirmativa, orgulhosa, moderna. Veja-se o efeito da inauguração da colecção Pinault, em Paris, e o esforço articulado de instituições privadas e públicas para esse projecto. São exemplos de estratégias e iniciativas sistematizadas, vigorosas, desempoeiradas, gerando enorme impacto.

O talento atrai talento, a qualidade atrai qualidade, o conhecimento atrai conhecimento. Há que ousar colocar estas matérias no coração das nossas prioridades e na agenda das políticas para o futuro.