Tudo correu mal em Gaia: Do apoio de Tino de Rans a António Oliveira à guerra de mercearia

Falta de reuniões, conversas por email e um braço de ferro por feitura de listas levaram ao fim da ligação entre António Oliveira e o PSD. Sociais-democratas locais e distritais terão, agora, de apresentar solução a Rui Rio, líder do partido. Há quem fale em traição do antigo seleccionador ao líder e de um partido refém de um candidato. Nesta equação ainda há Vitorino Silva, conhecido por Tino de Rans, e líder do RIR, que lhe prometeu apoio. E poderia ser incluído nas listas.



A 23 de março, o líder do PSD anunciou António Oliveira, antigo seleccionador nacional, como o candidato à Câmara Municipal de Vila Nova Gaia. O objectivo era tentar destronar Eduardo Vítor Rodrigues, destacado socialista, da autarquia.

Mas houve uma conversa prévia em fevereiro com Cancela Moura, líder da concelhia, António Oliveira, Rui Rio e Alberto Machado, líder da distrital do PSD/Porto, apurou o NOVO. Desse encontro ficou acertado que o líder da concelhia seria o número dois ou candidato à presidência da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia. Após o anúncio de candidatura em março, o processo de preparação de candidatura, articulado com as estruturas, só avançou mês e meio depois com a concelhia e foram precisos dois meses para acertar agulhas com os candidatos às juntas de freguesia. No concelho não havia outdoors do candidato e, apenas, de quem concorre às juntas de freguesia. Nada mais, afiança ao NOVO uma fonte social-democrata.

A candidatura resultava de uma coligação com 24 anos do PSD com o CDS, que teria direito ao quarto e sétimo lugar, e também com o PPM. Que poderia ficar com o nono ou décimo lugar. E chama-se Aliança. António Oliveira queixou-se de “pressões” e intimidações, num discurso contra a mercearia tradicional dos partidos, e na passada segunda-feira, numa reunião com as estruturas distritais, avisou que não tinha um compromisso com ninguém para a feitura das listas. Foi o culminar de relação difícil com a concelhia, com algumas conversas por e-mail e até o recurso a um intermediário: António Montalvão Machado, amigo de Oliveira e do líder da concelhia, Cancela Moura. O antigo deputado fazia a ponte possível.

Estava aberto o caminho para o final desta história. António Oliveira só adiantou o nome de António Montalvão Machado, antigo deputado como candidato à presidência da Assembleia Municipal, bem aceite por todos. Ora, a distrital lembrou ao candidato que havia um compromisso assumido desde fevereiro com Rui Rio presente na reunião: o da inclusão de Cancela Moura, líder da concelhia, na lista. Além disso, o PSD, que dava o símbolo à candidatura de Oliveira, tinha uma subvenção de 100 mil euros para a coligação. Ou seja, pagava a conta.

Pelo caminho, surgiu ainda a inclusão de Vitorino Silva ou do seu partido RIR na equipa, ainda que a questão não se tenha colocado na última reunião com a distrital do PSD/Porto. Ao NOVO, Vitorino Silva, também conhecido por Tino Rans, confirma o apoio: “A única que lhe posso dizer é que eu e o RIR apoiávamos o António Oliveira. Não posso dizer mais nada”. Vitorino Silva não quis adiantar se já tinha lugar na equipa de Oliveira, mas assumiu: “Estávamos com António Oliveira. E acreditávamos que poderia ganhar Gaia. Tem provas dadas”. O ex-candidato presidencial falou no plural porque o RIR, com sede em Vila Nova de Gaia, tem por estratégia concorrer ao maior número de mandatos autárquicos, sozinho, ou “em consórcio” com pessoas que o partido reconheça. Neste caso, António Oliveira era o nome que agradava ao RIR.

Contudo, no PSD o cenário traçado sempre foi uma coligação com CDS e o PPM e nunca se incluiu o RIR.

Perante o impasse entre António Oliveira e a distrital do PSD/Porto, na passada segunda-feira, o caso transitou para Rui Rio. Que recebeu António Oliveira na passada sexta-feira na sede distrital do PSD/Porto juntamente com António Montalvão Machado. Entrou pelas 17 horas e saiu pelas 20horas. Rui Rio terá ficado com a certeza de que iria, apenas, reflectir com os amigos e a família e que ainda era possível manter a candidatura de Oliveira em Gaia. Mas a decisão teria de ser célere porque a apresentação formal da candidatura estava prevista para esta segunda-feira, depois de ter sido adiada, pelo menos, duas vezes. Existiriam ainda problemas com o orçamento rígido, imposto pelo secretário-geral adjunto, Hugo Carneiro.

O comunicado a relatar a desistência surgiu pelas 20h30 da passada sexta-feira, sem que Rui Rio tivesse conhecimento formal da decisão. Só o soube depois e ainda reagiu, via fonte oficial, a assegurar que não tinha conhecimento da desistência, até ela ser já pública, com uma carta formal. “Uma traição ao líder”, concluiu ao NOVO outra fonte do PSD, lembrando que os sociais-democratas estiveram três meses reféns de um candidato.

Esta segunda-feira, ao invés da apresentação de uma candidatura formal, o PSD de Vila Nova de Gaia e a distrital do PSD/Porto fizeram uma conferência de imprensa (com a presença da coligação Aliança) a fazer o contraditório contra António Oliveira, o “putativo ex-candidato” que “nunca apresentou uma ideia”, nas palavras de Cancela Moura. Para a história fica a certeza que tanto a distrital do PSD/Porto como o líder da concelhia de Gaia, ficaram aliviados pela saída de “um erro de casting”.

O NOVO tentou contactar António Oliveira, mas sem êxito. Fonte da candidatura, citada pelo Expresso, disse que o antigo seleccionador nacional não iria responder às críticas e que até já tinha áreas preparadas ou bandeiras como a empregabilidade e a defesa da economia local, contradizendo o líder da concelhia do PSD de Gaia.

Para já, Rui Rio deu o prazo de uma semana para a distrital do PSD/Porto e a concelhia de Vila Nova de Gaia para apresentarem uma alternativa.

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