Tiago Matos Gomes: “Temos de desmistificar esta palavra que começa por ‘f’, que é o federalismo”

Em pleno Dia Internacional da Democracia, Tiago Matos Gomes apresentou o seu novo projecto político, o Partido Democrata Europeu. De saída do Volt Portugal, o antigo jornalista quer agora dar novo corpo a uma ideia que por lá falhou: um partido de centro, sem dogmas ideológicos, com o eurofederalismo e a ecologia a presidir os valores. Até às eleições legislativas, o caminho é longo e o tempo é precioso. Pelo meio há ainda as europeias, nas quais seria “muito positivo” eleger um deputado.

Nas últimas legislativas só o PS e o PSD elegeram mais do que 12 deputados e o CDS perdeu a representação parlamentar. É o momento mais propício para criar o Partido Democrata Europeu (PDE)?

Esta maioria absoluta do PS não foi obtida por grande convicção dos eleitores, mas por falta de alternativas. Havia o papão de o PSD coligar-se com o Chega, o que afastou eleitores, e uma zanga do eleitorado de esquerda com o PCP e o Bloco por terem chumbado o Orçamento. Nesta conjuntura, faz sentido surgir um partido do centro, moderado, entre o PS e o PSD para ser a verdadeira alternativa.

O longo caminho que o PDE terá até às próximas legislativas poderá ser uma ajuda?

Para um partido que está a surgir agora isso é positivo. Temos tempo para nos prepararmos para essas legislativas que serão daqui a quatro anos se nada acontecer de extraordinário. Mas queremos participar já nas europeias de 2024. Queremos recolher assinaturas até ao final da próxima Primavera e início do próximo Verão para podermos entregar todo o processo, com as 7500 assinaturas válidas, a declaração de princípios e os estatutos no Tribunal Constitucional. No máximo em Janeiro ou Fevereiro de 2024 queremos ter o partido aprovado para participar nas eleições de Maio de 2024.

Desvinculou-se há poucos meses do Volt Portugal, tal como alguns fundadores do PDE. Como foi possível estruturar um projecto político em tão pouco tempo?

Fui o único fundador do Volt em Portugal, e tenho toda a experiência anterior de como se cria um partido. Houve passos que consegui fazer mais rapidamente desta vez, desta vez com o contributo do Tiago Romão e do João Sousa. Houve um trabalho de equipa que proporcionou uma evolução muito mais rápida. Hoje [quinta-feira] é lançado o site e já temos propostas, linhas orientadoras, objectivos e até algumas medidas para cada uma das 12 áreas. Nós queremos 12 ministérios e vamos ter um governo-sombra. Deu muito trabalho e houve algumas noites e madrugadas a trabalhar, mas queríamos ter tudo pronto no dia 15. É o Dia Internacional da Democracia e queríamos que o movimento arrancasse nesta data. Tanto o Volt Portugal como o PDE são assumidamente europeístas...Mais do que europeístas, são eurofederalistas.

O que é que o PDE vem trazer de novo em relação do Volt?

A minha saída do Volt teve a ver com a viragem à esquerda do partido. Sobretudo por causa da nova direcção do Volt Europa, eleita numa assembleia geral realizada em Lisboa. Hoje há uma maioria clara nesse partido que está claramente à esquerda - e na esquerda woke e identitária. Daqui a uns tempos vamos ter vários partidos federalistas e transeuropeus. Aliás, além do PDE, nasce hoje o European Star Party, que é a estrutura europeia do partido. Já temos um partido que para mim é claramente à esquerda, que é o Volt, há um que não existe em Portugal, que é o Partido Federalista Europeu, claramente à direita e até um pouco conservador, e hoje nasce o partido transeuropeu claramente ao centro. A diferença é ideológica e as prioridades do European Star Party e do PDE serão diferentes das do Volt e do Partido Federalista Europeu.

Como é que o PDE se vai relacionar com esse partido. Vai ser uma espécie de subsidiário, como o Volt Portugal em relação ao Volt Europa?

Outra grande diferença é que o Volt defende um eurofederalismo muito mais centralista, comandado a partir de Bruxelas. Nós defendemos um eurofederalismo com profunda autonomia dos estados, o que também se aplica aos partidos nacionais. Haverá coordenação em termos de valores, princípios e actividades em conjunto, mas não haverá directivas. Cada Estado da União Europeia é uma realidade diferente e as prioridades são também diferentes. Essa é a riqueza da nossa Europa. Aquilo que defendemos não é uma cópia dos Estados Unidos ou do Brasil - se calhar, o federalismo mais próximo será o da Índia, onde até há mais línguas oficiais do que na Europa.

Que contactos têm em curso noutros países para criar partidos que se integrem no European Star Party?

O primeiro partido que vai surgir além do português, enquanto movimento, vai ser na Ucrânia. E já estamos com conversações muito avançadas em Espanha, na Itália, na Alemanha, no Reino Unido e na Polónia.

Com forças políticas já existentes?

Num dos casos poderá ser com uma força já existente que também está meio embrionária, e que partilha profundamente os nossos princípios, valores e ideias. Na maior parte dos casos vão surgir agora, quase do nada. Há também alguns descontentes com o Volt de outros países, pessoas que já saíram - mais de um terço dos militantes do Volt Itália saíram, com o mesmo tipo de descontentamento que nós. Vamos ver... Na maior parte dos casos serão partidos que vão surgir do zero.

Dos partidos que neste momento ocupam posições de poder na União Europeia existe algum que vejam como mais próximo?

Se elegermos um eurodeputado vamos claramente sentar-nos entre o PPE, onde está o PSD e o CDS, e o PSE, onde está o PS.

Com Macron, portanto...

Estaremos muito provavelmente no Renew Europe, se bem que este seja uma salada russa de partidos, que tem partidos Sociais-Liberais mais de centro-esquerda e outros mais de centro-direita ou claramente à direita. Nós estamos mesmo ali ao centro, mas será com esses partidos, que pertencem ao Renew Europe. O próprio partido de Macron, em França, apesar de obviamente não concordarmos com tudo o que defende, está dentro da mesma área política.

Têm definidos objectivos para as eleições europeias de 2024?

Ainda estamos numa situação um bocado embrionária, mas quando concorrermos a eleições, para lá de serem as nossas primeiras e uma oportunidade para nos darmos a conhecer ao eleitorado português, vamos fazer tudo para que possamos ser eleitos. Sabemos que é difícil, pois é preciso bem mais de 100 mil votos para eleger um deputado, mas se o conseguíssemos seria muito positivo. Precisamos de ter visibilidade, pois nenhum partido consegue eleger se não tiver visibilidade. Teremos de estar próximos da comunicação social e garantir uma grande presença nas redes sociais. Mas também vamos estar permanentemente na rua a fazer campanha. Vamos reagir à actualidade política e, na medida do possível, marcar a agenda política e mediática.

Sendo certo que se dirigem a um eleitorado centrista, habitualmente disputado entre o PS e o PSD, admite que possam atrair quem tenha votado Chega pelo posicionamento anti-sistema?

Acredito que podemos conseguir captar eleitorado descontente. Não tenho a certeza... Alguns desses descontentes estarão no Chega, mas sobretudo são abstencionistas. Iremos mais pelos abstencionistas, que não vêem alternativa nenhuma e já desistiram de ir votar, do que por aqueles que vão atrás de populismos e de extremismos, o que não é a nossa forma de estar na política.

As actuais terceira e quarta forças políticas nacionais não conseguiram eleger para o Parlamento Europeu em 2019, e só conseguiram deputados únicos nas legislativas do mesmo ano. Trilhar um caminho idêntico a esses já será bom para o PDE?

Sim. O nosso objectivo nas legislativas de 2026 será esse: eleger pelo menos um deputado. Ganha-se uma visibilidade e uma atenção da comunicação social que não se tem quando não se tem representação parlamentar. Mesmo tendo no Parlamento Europeu e não tendo no Parlamento português, a comunicação social não dá grande atenção. Veja-se o caso do deputado Francisco Guerreiro, que nem sequer tem partido, mas não recebe qualquer atenção mediática, enquanto o PAN recebe, pois tem um deputado na Assembleia da República. Queremos ter presença no Parlamento português, tal como o European Star Party tem o objectivo de começar a eleger deputados nos vários parlamentos nacionais. E a partir dai termos muito maior cobertura mediática, a nossa mensagem vai chegar a muito mais pessoas e tenho a certeza que muita gente vai aderir ao nosso projecto, seja activamente, como militantes, seja como eleitores.

A vossa proposta mais disruptiva é a eleição de um Presidente europeu por sufrágio universal, bem como a existência de um Parlamento, de um Senado e de um Governo executivo a nível europeu. Acredita que essa ideia terá muito acolhimento num país que vai a caminho dos 900 anos de História enquanto nação independente?

A Europa e os portugueses têm de pensar o seguinte: estamos a meio de uma ponte. Percorremos um caminho - no caso de Portugal desde 1986, quando aderimos à então Comunidade Económica Europeia - e estamos a meio de uma ponte. Ou ficamos aqui, não evoluímos para lado nenhum, e essa ponte pode degradar-se e até cair. Ou passamos para a margem seguinte, que é o eurofederalismo, sendo que a margem que deixámos é a soberania total que deixámos ao longo das décadas. Não é uma questão de querermos ou não querermos. É uma questão de pura necessidade. Nem a Alemanha, que é o maior estado e o mais rico da União Europeia, num mundo globalizado, com os Estados Unidos e potências emergentes, como a China e a Índia, a Rússia e - quem sabe - no futuro o Brasil, tem qualquer capacidade de ter uma voz activa no palco global. Se nós portugueses queremos ter essa voz activa será através da União Europeia e de uma futura Europa federal. Para mim, não é uma escolha; é uma quase inevitabilidade. Pode demorar 10 anos, 30, 50, 100 ou 200, mas vai acontecer, mais tarde ou mais cedo. Não sei se estarei vivo então, mas continuarei a lutar para que isso aconteça mais cedo do que mais tarde. Temos de desmistificar esta palavra que começa por “f”, que é o federalismo. No fundo, o que nós queremos é democratizar as instituições europeias. Neste momento são os governos que decidem nos bastidores quem é presidente da Comissão Europeia. As pessoas votaram para o Parlamento Europeu com candidatos diferentes, onde não constava a actual presidente da Comissão Europeia. Não faz qualquer sentido. Devem ser os povos europeus a escolher os seus representantes nas instituições europeias. A Comissão Europeia, no fundo, é um governo não oficial. Queremos as coisas às claras e que assumamos aquilo que a União Europeia deve ser: uma Europa federal, que será mais democrática do que a actual.

Vivemos numa conjuntura de tensões crescentes entre Ocidente e Oriente. A Europa federalista que defendem surgiria no sentido de fomentar as relações com as restantes potências ou, pelo contrário, seria mais no sentido de se precaver contra essas mesmas potências?

As duas coisas. Defendemos umas forças armadas europeias e não por gostarmos de andar a brincar às guerras. É um meio de dissuasão em relação a perigos vizinhos. Não nos podemos esquecer que a União Europeia e a Europa têm vizinhos algo conflituosos. Temos visto o que tem acontecido com a Rússia no caso da Ucrânia, o Médio Oriente não fica assim tão longe da Europa, o Norte de África está colado e há pessoas que chegam de balsa. Temos de ter umas forças armadas europeias que façam a nossa defesa em caso de necessidade. E que também sejam um objecto diplomático, pois um futuro ministro dos Negócios Estrangeiros que fale para o mundo terá a sua voz muito mais respeitada se tiver umas forças armadas por trás do que alguém de uma instituição europeia meia difusa, em que não se sabe muito bem quem é que manda e que não tenha forças armadas únicas. Temos sentido isso: os representantes diplomáticos europeus não têm voz no mundo. Os Estados Unidos e a China não lhes ligam nenhuma. São quase um “verbo de encher”. Queremos que a Europa tenha uma voz activa no mundo para ser um farol dos Direitos Humanos. Queremos que a Europa seja um player mundial, coisa que hoje não é.

Defendem que as políticas estruturais devem ser comuns aos países-membros, que por seu lado terão a liberdade de manter a autonomia e a identidade nacional. Como é possível conciliar estas duas coisas?

Defendemos que tudo o que tenha a ver com forças militares e com diplomacia seja comum e único. Obviamente que Portugal pode ter uma representação num país qualquer e estabelecer relações com alguns países directamente - aliás, em Espanha a Catalunha tem representação em vários países do mundo. E não queremos uniformizar o sistema educativo ou de saúde. O SNS português vai continuar a sê-lo - não queremos criar o sistema nacional de saúde europeu, o que para nós não faz qualquer sentido. A própria Alemanha, que por si só já é uma federação, tem sistemas de educação diferentes em cada um dos estados, o que é positivo, pois cria complementaridade. Os Estados continuam a ter autonomia em boa parte das áreas, mas em questões de segurança e de diplomacia haverá uma coordenação única.

E os interesses de Portugal na defesa e na diplomacia serão necessariamente os mesmos do que os da Alemanha?

Serão os interesses da Europa como um todo. Não serão os interesses nem de Portugal, nem da Alemanha, nem de Itália ou de Espanha. Serão os interesses de todos os europeus. Há sempre um denominador mínimo comum que abarca todos. A Europa vai querer continuar a ter boas relações com o Brasil ou com Angola, com os quais Portugal tem uma relação forte. Não vejo que haja um problema por Portugal ter representações a nível estadual nesses países. Essas relações não se vão perder. Há pessoas a dizer que vamos perder soberania, mas nas últimas décadas temos sido colonizados culturalmente pelos Estados Unidos com a maior das tranquilidades e ninguém pôs em causa. A própria língua portuguesa já se transformou imenso por causa dessas influências que vêm do outro lado do Atlântico, seja através do inglês ou até do português do Brasil. E as pessoas não estão muito preocupadas com isso. Mas depois dizem que a Alemanha vai mandar. Não, a Alemanha não vai mandar nisto tudo. Obviamente que a Alemanha e a França são o motor da economia, mas numa Europa federal vamos estar muito mais protegidos desse perigo de haver um país ou dois que mandam em tudo.

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