Susana Coroado: “Há uma tolerância dos portugueses para com o conceito de ‘rouba mas faz’”

Políticos escondidos atrás da lei sem conseguirem construir pontes de confiança com os cidadãos e eleitores com um alto grau de tolerância ao conceito de “rouba mas faz”. Susana Coroado, uma das coordenadoras do estudo “Ética e integridade na política”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, explica as principais conclusões apuradas de inquéritos a políticos e eleitores.



Ética e integridade parecem ser características cada vez menos presentes na vida política em Portugal. A Fundação Francisco Manuel dos Santos apresenta esta segunda-feira o estudo “Ética e integridade na política: percepções, controlo e impacto”.

Nesta investigação inédita em Portugal foram comparadas as opiniões de cidadãos comuns com as dos seus representantes políticos, sejam estes deputados ou autarcas. A coordenação esteve a cabo de Luís de Sousa e Susana Coroado.

Susana Coroado, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, explica ao NOVO as principais conclusões deste estudo.

Quais foram as conclusões mais interessantes que retiraram deste estudo?

O que fizemos foi enviar um inquérito aos representantes políticos e ao público em geral. O que vimos a partir das respostas que tivemos é que a opinião pública considera que há condutas corruptas ou inadequadas que vão para além daquilo que está na lei. São condutas inaceitáveis como, por exemplo, um ministro nomear o seu genro para assessor, ou seja, tudo aquilo que possa implicar trocas de favores, que não são necessariamente corrupção e que nem envolvem dinheiro ou outros materiais.

Por outro lado, as elites políticas tendem a considerar a lei como único critério orientador da sua política e é curioso que colocámos várias questões sobre que tipo de opinião têm relação a determinadas situações de conduta ética, e parece até que os políticos podem, em determinados casos, ser mais intransigentes do que os cidadãos em condutas específicas. Mas esses políticos avaliam essa situação de acordo com o que está ou não na lei.

A segunda conclusão interessante está relacionada com o facto de os cidadãos revelarem uma tolerância ao conceito do “rouba mas faz”. Portanto, estes inquiridos acreditam que se houver um impacto positivo para a comunidade de determinada conduta ilícita de um político, esta poderá ser mais tolerada do que no conceito dos próprios políticos.

Essa ideia do “rouba mas faz” era algo que parecia ter sido ultrapassado mas, aparentemente, é um conceito que resiste ao tempo.

A assunção de que, se a corrupção tiver algum impacto para mim também, enquanto cidadã, se o “rouba mas faz” trouxer melhorias nos transportes públicos, nos serviços à comunidade, as pessoas acreditam que também podem ganhar com essas melhorias. Os conceitos de roubar e não fazer ou o não fazer tudo são muito mais condenáveis, de acordo com estas respostas que obtivemos. Também se pode ligar isto com a intolerância às trocas de favores, que é muito mais condenável. É uma troca de favores num circuito fechado em que só é favorecido quem está nessa dinâmica.

Já referiu que os políticos tendem a cingir o que é certo ou errado de acordo com o que está ou não na lei. Não deveriam ter outra percepção além dessa que referiu?

O que temos observado nas últimas décadas é um declínio na confiança nas instituições políticas, apesar de as pessoas terem tendência para confiar na importância da democracia, com alguma tendência para a descrença nas instituições. Há, de facto, um desfasamento entre a conduta ética expectável e aquilo que os próprios consideram que se espera do seu comportamento. E, ao haver essa separação tão grande, isto contribui para que os cidadãos confiem menos nas instituições políticas e, apesar de termos casos atrás de casos, escândalos e escândalos e regulação atrás de regulação (note-se a quantidade de reformas e acertos às leis que regulam a ética política), parece não haver um consenso sobre o que é a conduta ética aceitável. Assim, temos políticos escondidos atrás da lei e sem conseguirem construir estas pontes de confiança com os cidadãos.

Foi complicado obterem uma resposta aos vossos inquéritos por parte dos políticos?

Foi difícil ter os políticos a responder, mas acho que é uma dificuldade que se nota em todos os estudos deste género. As taxas de resposta nunca são muito altas, mas foi aceitável, tendo em consideração que tem sido assim em vários estudos. Isto pode ter a ver com o facto de os políticos terem a agenda ocupada e de ser difícil gerir tanta informação que recebem e responder a tantas solicitações que são feitas por mail.

Temos assistido a muitos casos a envolver membros deste governo. Como é que a divulgação desses casos é percepcionada pelos eleitores?

Os casos vão, naturalmente, desgastando um governo, apesar de não ser um caso que faz com que um executivo caia ou provoque a desacreditação definitiva de determinada instituição. Mas, pouco a pouco, vão minando a confiança, e a cada caso que é conhecido existe um desgaste cada vez maior. Por outro lado, é possível que o excesso de casos torne as pessoas um pouco insensíveis: torna-se tão comum que já é só mais um caso, e essa acumulação vai minando essa relação de confiança.

Ler mais