Russiagate: “Não interessam nem à embaixada em Lisboa, nem a Moscovo tais indivíduos”

Representação diplomática da Rússia em Portugal reagiu à polémica partilha de dados pessoais de três pessoas que organizaram um protesto a favor de um opositor de Putin na capital portuguesa. “A senhora ‘activista pode voltar tranquilamente para casa”, diz a diplomacia moscovita.



A embaixada da Rússia em Lisboa reagiu, através de uma mensagem na página do Facebook, à polémica relacionada com a partilha de dados pessoais de manifestantes anti-Putin pela Câmara de Lisboa às autoridades russas, acusando os activistas de quererem atrair “atenção mediática”. A diplomacia russa na capital portuguesa avança ainda não estar interessada nas acções destes elementos, os quais, assegura, podem voltar à Rússia sem problemas.

A Câmara Municipal de Lisboa entregou às autoridades russas nomes, moradas e contactos telefónicos de três manifestantes russos anti-Putin (dois deles com dupla nacionalidade, ou seja, russa e portuguesa) que participaram num protesto junto à embaixada de Moscovo em Lisboa, em Janeiro deste ano, para exigir a libertação do opositor Alexey Navalny. Segundo a notícia revelada por Observador e Expresso, o envio dos dados foi detectado pelos organizadores da manifestação: uma análise à correspondência electrónica trocada entre os cidadãos e as autoridades permitiu perceber que as informações tinham sido enviadas não só para a PSP e o Ministério da Administração Interna, como é obrigatório, mas também para a representação diplomática de Moscovo em Lisboa e para os serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo.

Num texto publicado em russo e português, a embaixada russa diz ter reparado “nas notícias na comunicação social portuguesa sobre a alegada entrega não-autorizada ‘à Embaixada russa em Portugal, mas também para Moscovo’ dos dados pessoais de um grupo de pessoas residentes no país”.

As autoridades russas aproveitam a missiva para elogiar Portugal, dizendo “conhecer “bem a abordagem muito rigorosa das autoridades portuguesas ao processamento dos dados pessoais”. Palavras menos simpáticas estão destinadas aos elementos envolvidos nos protestos e cujos dados foram tornados públicos: “Quanto à excitação em causa, está sem dúvida alimentada pelo desejo dos tais activistas de atrair atenção mediática a si próprios através da politização generalizada e provocações deploráveis”.

“Não interessam nem à Embaixada em Lisboa, nem a Moscovo os tais indivíduos com imaginação malsã. Temos outras prioridades que constituem o trabalho construtivo em prol do desenvolvimento da cooperação russo-portuguesa. Assim, a senhora ‘activista’ pode voltar tranquilamente para casa”, termina, ironicamente, o texto. Ao Observador, Ksenia Ashrafullina, uma das organizadoras da manifestação, confessou ter receio do que lhe possa acontecer se voltar ao seu país.

Esta quinta-feira, o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, cuja demissão já foi pedida pelo candidato do PSD à Câmara de Lisboa, apresentou desculpas pelo que considerou um “erro lamentável”, mas recusou que possa ser feita qualquer leitura política do episódio.

“Quero fazer um pedido de desculpas público aos promotores da manifestação, tal como o fiz pessoalmente. Foi um erro lamentável, que não podia ter acontecido. Principalmente, porque Lisboa é um espaço de liberdade, segurança e direito à manifestação, que não carece de autorização de responsáveis”, disse durante uma declaração aos jornalistas. Na mesma, o autarca revelou que, desde hoje, a Câmara só irá fornecer dados de organizadores de protestos a elementos da PSP.

O presidente da Câmara de Lisboa não deixou de considerar que a polémica a envolver o caso nasce de aproveitamento político e do “desespero” da candidatura do PSD à autarquia, liderada por Carlos Moedas. “Não aceito lições de democracia de qualquer candidato em dificuldades à Câmara de Lisboa”, garantiu.

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