Rui Rio, vencedor das eleições que não queria disputar

À terceira, o ex-presidente da Câmara do Porto volta a ganhar um escrutínio interno. Primeiro derrotou Santana e Montenegro, agora superou Rangel. Sempre por estreita margem. Falta-lhe o supremo teste: enfrentar com sucesso os socialistas nas urnas. Um desafio já com data marcada: 30 de Janeiro.



Em quatro anos venceu três vezes dentro de portas. O mais recente triunfo ocorreu sábado passado, nas eleições directas que mobilizaram 35 991 militantes do PSD e lhe deram maioria à tangente: Rui Rio saiu vitorioso com 52% dos votos expressos contra o eurodeputado Paulo Rangel, o seu opositor nesta contenda, que o presidente do partido não desejava. Em Janeiro de 2018 havia derrotado Pedro Santana Lopes, recolhendo 54% dos boletins. Em Janeiro de 2020, a vitória contra Luís Montenegro - à segunda volta - sorriu-lhe com 53%. Em termos práticos, é apoiado por pouco mais de meio partido. Nunca foi de outra maneira desde que ascendeu à liderança.

Mas Rio parece sentir-se confortável assim: no confronto permanente entre os seus pares. Miguel Veiga - histórico militante social-democrata do Porto, já falecido - costumava dizer que ele revela a sua melhor faceta, mostrando-se aguerrido e combativo, só quando se sente “picado”. E nada o estimula tanto como uma contenda interna. Mesmo quando aparenta desvalorizar o combate, recusando debates com o opositor, como agora sucedeu.

Nas refregas externas, o seu palmarés averba mais derrotas do que vitórias. Já liderava o partido quando o PSD perdeu as europeias de Maio de 2019 (33% para o PS, 22% para o PSD) e as legislativas de Outubro do mesmo ano (36% para o PS, 28% para o PSD). Nas recentes autárquicas de 26 de Setembro, os socialistas foram claramente maioritários: venceram em 148 municípios e 1248 freguesias, enquanto os sociais-democratas conquistaram 72 presidências de câmara e 757 juntas de freguesia - ampla diferença que o inesperado triunfo de Carlos Moedas em Lisboa ajudou a mitigar, sem iludir o panorama nacional.

A maior proeza política de Rio fora de portas ocorreu há um ano, após o escrutínio regional dos Açores, quando o PSD destronou os socialistas, que permaneceram quase um quarto de século à frente do executivo insular. Minoritário nas urnas, o partido laranja conseguiu formar governo adoptando, na região autónoma, uma versão da geringonça, desta vez à direita, tendo CDS e PPM como parceiros de coligação e subscrevendo acordos de incidência parlamentar com Iniciativa Liberal e Chega.

Será talvez um ensaio do que o líder laranja tenciona fazer a nível nacional quando forem contados os votos das legislativas. A verdade é que, desde que ascendeu à liderança, nenhuma sondagem lhe atribuiu o primeiro lugar no confronto com o PS. Mas também nenhuma vaticinou o triunfo nas urnas que Moedas acabou por registar na capital: o eleitorado parece cada vez mais imprevisível.

No discurso da vitória contra Rangel, na noite de 27 de Novembro, Rio teve um momento de compreensível euforia quando exclamou, cheio de confiança em si próprio: “Eu vou ganhar!” Referia-se às legislativas, que poderão proporcionar-lhe um sonho antigo: ser primeiro-ministro. Nada mais natural para quem está há quatro décadas na política, onde já fez um pouco de tudo: vice-presidente da JSD; secretário-geral, vice-presidente e presidente do PSD; deputado e vice-presidente da bancada parlamentar; presidente da Câmara Municipal e da Junta Metropolitana do Porto; membro do Conselho de Estado. Extenso currículo onde só se detecta uma lacuna: nunca exerceu funções governativas. Mas ainda vai a tempo: a terceira vitória interna em quatro anos proporciona novo fôlego a este economista portuense que prometera abandonar de vez a política se Rangel o derrotasse.

Fez tudo para evitar este escrutínio interno, imposto contra sua vontade no conselho nacional do PSD. Vaticinou um clima de “balbúrdia” que poderia prejudicar o partido e rejeitou qualquer frente-a-frente com o eurodeputado, sem deixar de criticá-lo do primeiro ao último dia - reclamando para si o “voto livre” dos militantes, insinuando que o adversário seria manietado pelo baronato partidário e prisioneiro de uma teia de interesses.

Teve contra ele grande parte dos autarcas sociais-democratas e dirigentes da JSD. Nenhum antigo líder do partido - de Balsemão a Passos Coelho - lhe endossou o voto. Até membros da sua estrutura directiva, como Nuno Morais Sarmento, lhe negaram apoio. Participou numa corrida que não quis, com datas a que sempre se opôs e submetido a regras que tentou alterar. E, no entanto, pode agora cantar vitória, reforçado pelas directas, que só pretendia convocar após as legislativas.

No discurso de vitória mostrou-se igual a si próprio: fracturou em vez de congregar. Arremeteu contra os dirigentes distritais e concelhios do partido, que “têm de se ligar mais aos militantes”, intitulando-se porta-voz das bases. Como se fosse um recém-chegado em vez de ser o presidente de partido que há mais tempo lidera ininterruptamente na oposição.

Até 20 de Dezembro fechará as listas eleitorais, avisando desde já que não é ingrato. Ninguém tem dúvidas: vai cortar a direito, penalizando quem ousou enfrentá-lo. Ao contrário do que sempre disse, as eleições internas não fragilizaram o partido: pelo contrário, esse foi um favor que Rangel lhe prestou - algo que Rio dificilmente reconhecerá. A teimosia é uma das suas principais características - virtude para uns, defeito para outros. A 30 de Janeiro, o veredicto será do conjunto dos portugueses, já não só dos militantes.

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