Rio sobrevoa Costa (agarrado a um OE morto e a uma TAP moribunda)

Líder do PS atacou com as propostas sociais-democratas para a saúde e para a justiça, mas o presidente do PSD tinha argumentos poderosos: o caos nos serviços públicos, a estagnação económica e as dificuldades do PS em conseguir reeditar a geringonça.



A gravata azul-celeste podia indiciar ao que ia Rui Rio. O presidente do PSD sentou-se esta quinta-feira, à hora de jantar, no Capitólio, em Lisboa, para debater com António Costa, mas foi graças ao folhetim TAP que ganhou asas. Já no final do frente-a-frente televisivo, transmitido em simultâneo pela RTP, pela SIC e pela TVI, o líder social-democrata descolou e deixou o adversário em terra.

Enquanto Costa quis serenar os contribuintes que suportarão a injecção de 3,2 mil milhões de euros na companhia aérea, dizendo que, “assim que possível”, poderá “alienar 50% do capital”, Rio defendeu ser “inaceitável” haver um sorvedouro de tal dimensão, sobretudo por estar em causa “uma empresa que dizem que é de bandeira, mas apenas serve o aeroporto de Lisboa”. Mais: o líder da oposição ainda pegou no exemplo de um voo entre Madrid e São Francisco, que fica mais barato a um espanhol (fazendo escala em Lisboa) do que a um passageiro que apanhe o mesmíssimo avião na capital portuguesa.

O primeiro-ministro teve dificuldades em retorquir. Assim como quando teve de defender o estado da arte nos serviços públicos, com a saúde à cabeça, mesmo perante o facto de, nos últimos seis anos, o número de funcionários do Estado ter voltado a disparar. Ou até face às sucessivas ultrapassagens, em termos de PIB per capita, de países mais recentes na União Europeia, a que Portugal tem ficado a assistir impávido e sereno.

A nu ficaram igualmente as dissemelhanças nas propostas fiscais. Rio sacou do programa eleitoral, que o NOVO esmiúça na edição desta semana, e demonstrou ambição para lá do curto prazo: quer começar por reduzir o IRC e só depois ir ao IRS – primeiro a produção, depois a distribuição, explicou. E reforçou: “Se quisesse ganhar eleições, fazia ao contrário.”

Nesse momento, Costa puxou do Orçamento do Estado (OE) para este ano – exibiu-o novamente no final do debate, abrindo o flanco para que os criativos de internet façam das suas –, que esquerda e direita reprovaram na Assembleia da República e que previa o desdobramento do terceiro e do sexto escalões de IRS e um ligeiro alívio nas respectivas taxas. Vincou estar pronto para o pôr em prática mal ganhe as eleições, forme governo e tome posse. Problema de que Rio o recordou: sem maioria absoluta, cuja “probabilidade de ter é quase zero”, quem o viabilizará?

Esse foi, de resto, outro ponto em que o líder laranja marcou pontos. Em primeiro lugar, por já ter afirmado à saciedade que, se não ganhar as eleições, dará luz verde a um executivo do PS. Em segundo, porque Costa foi “obrigado” a admitir cenários, como governar à António Guterres ou usar o PAN como tábua de salvação (caso não alcance a maioria absoluta).

Pelo caminho, ainda chamou Pedro Nuno Santos à colação ao procurar assustar o eleitorado moderado com o esquerdismo arreigado do ministro das Infra-Estruturas e da Habitação (o mais provável sucessor de Costa no Largo do Rato), aquele que, na óptica de Rio, pode constituir “um perigo” por poder inclusivamente levar bloquistas para o Conselho de Ministros.

Verdadeiramente, num frente-a-frente em que a autenticidade quase descuidada de Rio se sobrepôs à preparação calculada de Costa, o primeiro-ministro em funções só esteve por cima quando desmontou a ideia do opositor de retirar a expressão “tendencialmente gratuito” da Constituição quando em causa está o acesso ao Serviço Nacional de Saúde, e quando o acusou de querer pôr a mão na justiça ao pretender acabar com as actuais maiorias de magistrados e procuradores, respectivamente, no Conselho Superior da Magistratura e no Conselho Superior do Ministério Público.

Em suma, tal como no primeiro debate de 2019, ciente de que as sondagens não lhe são favoráveis, Rio foi cirúrgico nos ataques e superiorizou-se a Costa. Pode não ter feito virar o tabuleiro, mas demonstrou que o jogo está longe de estar arrumado.

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