PSD: Como baralhar as contas nas eleições para a liderança

Líder social-democrata mudou de ideias sobre calendário para a clarificação interna no partido em horas, pedindo o adiamento do processo eleitoral. Há quem veja sinais de desespero num conselho nacional que promete ser, no mínimo, tenso.



Os conselheiros nacionais do PSD reúnem-se esta quinta-feira à noite em clima de dramatização total. A direcção do partido tinha proposto o dia 4 de Dezembro (data da morte trágica de Sá Carneiro, fundador do partido) como hipótese mais forte para as eleições directas no PSD.

A decisão até já estava pensada, com argumentos de que era possível o partido ir a votos em Dezembro, e o discurso alinhado. Os conselheiros do PSD receberam o cronograma com o calendário eleitoral pelas 17h30 da passada quarta-feira. Até aí, não havia qualquer problema do lado da direcção de Rui Rio, sendo certo que entre os críticos do líder em funções, o dia escolhido era considerado “de mau gosto”.

A segunda volta, prevista para 11 de Dezembro (havendo dois candidatos mais votados em três), não causava grande preocupação entre alguns conselheiros. E houve quem lembrasse que se Rio contava com o apoio de autarcas para se manter no poder, o dia 11 não poderia ter sido mais mal escolhido (para Rui Rio): é a data do congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses.

Pelas 19h30 de quarta-feira, Rio anunciava uma reflexão que fez em poucas horas: afinal, pode haver crise política (sinalizada pelo Presidente da República pelas 16 horas) e o partido não pode estar a fazer clarificação interna nessa altura. Se houver legislativas, o PSD tem é de ir a votos para ganhar e Rio vai à luta. Foi esta a síntese da mensagem.

Quem apoia Paulo Rangel, o até agora mais que certo adversário de Rui Rio nas eleições directas, apressou-se a falar em desespero, sinalizando que o líder do PSD percebeu que perdeu muitos dos seus apoios. Do lado dos rioístas, a versão é a de que há mesmo sinais de crise política (e até pode ser o próprio António Costa a provocá-la).

O deputado Pedro Rodrigues, que esteve ao lado de Rui Rio no passado mas entrou em rota de colisão com o presidente do PSD há dois anos, acusou-o de tentar “suspender a democracia”, numa declaração citada pela Lusa.

José Eduardo Martins, apontado como um possível apoiante de Paulo Rangel, escreveu no Facebook para atacar Rui Rio: “Que penosa esta falta de coragem. Confesso que ainda me surpreende a maneira como se tenta agrafar à cadeira... É mesmo a possibilidade de uma crise política que obriga o PSD à clareza há muito. O que deve acontecer é exactamente o contrário, as eleições internas devem acontecer na primeira oportunidade para que o PSD possa mesmo vir discutir o rumo do País”.

Agora, as contas fazem-se no Conselho Nacional, na altura de votar propostas, sendo certo que Rui Rio não irá, ele próprio, submeter o pedido de adiamento das directas. Mas haverá alguém a fazê-lo, seguindo a estratégia da direcção.

Costa presente e Rio ausente

Numa altura em que os sinais de crise política se adensam, o primeiro-ministro decidiu ir, em cima da hora, à reunião do grupo parlamentar do PS e a sua declaração foi aberta à comunicação social: António Costa quis passar a mensagem de “humildade” para negociar, levou um pacote de medidas a aprovar rapidamente em Conselho de Ministros que agradam à esquerda e não viu “nenhuma razão” para que o Orçamento de 2022 não seja aprovado.

Mais ou menos à mesma hora, a bancada do PSD também se reunia, mas sem o líder do partido, Rui Rio. Deputados como Duarte Marques defenderam que o presidente do PSD “devia” ter estado na reunião a anunciar o voto contra o Orçamento do Estado. O debate sobre a estratégia do PSD segue mais logo, no Conselho Nacional, o órgão máximo entre congressos.

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