Nuno Simões de Melo: “A IL esquece-se de que Portugal é muito mais do que a Foz e a Lapa”

Coronel na reserva e deputado municipal em Mafra prepara uma lista ao conselho nacional da Iniciativa Liberal formada por “liberais clássicos” que contestam a centralização numa “oligarquia” e a falta de separação de poderes. E pretendem levar o liberalismo para fora dos centros urbanos.



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Quais são os principais pontos a melhorar na Iniciativa Liberal (IL) que motivam a sua candidatura ao conselho nacional (CN)?

A grande centralização num partido que é liberal e defende a descentralização para o país, ou a separação de poderes que não vemos - o CN deve escrutinar a comissão executiva (CE), mas 33% dos membros são a própria CE. São juízes em causa própria.

Com direito a voto?

Com direito a voto. Há 50 eleitos e 25, por inerência, da CE. Um dos princípios básicos do liberalismo é a separação de poderes, que achamos não existir. E há outro problema, que é todo um caminho de centralização numa oligarquia para mandar no partido. Isso também pode ser mudado, e daí esta candidatura alternativa.

É uma oligarquia com epicentro em São Bento?

Não vou citar nomes. Alguns não fazem parte do grupo parlamentar, mas haverá três ou quatro que neste momento detêm o poder efectivo.

Quem tem consigo nesta candidatura?

Toda uma corrente daqueles que identifico como liberais clássicos. Atenção que não é uma candidatura fracturante. Não queremos um partido diferente. Pretendemos melhorar o seu funcionamento.

Terão cobertura nacional na vossa lista?

É uma das nossas bandeiras. A IL refugiou-se nos centros urbanos e esquece-se de que Portugal é muito mais do que a Foz e a Lapa. Teremos gente do interior, do norte, do sul, e vamos ver se iremos conseguir ter das ilhas. Queremos ser abrangentes e levar o discurso do liberalismo para fora dos centros urbanos. Mesmo os nossos resultados autárquicos, que muita gente diz terem sido um sucesso, eu não os vejo assim. Elegemos 90 autarcas que, tirando os da coligação do Porto, são deputados municipais ou membros de assembleia de freguesia. Não me parece um resultado expressivo a nível nacional.

Não eleger vereadores em centros urbanos como Lisboa, Oeiras ou Vila Nova de Gaia é um sinal de fracasso?

Creio que ficou aquém daquilo que poderíamos ambicionar. Não quero dizer com isto que a CE fez um trabalho terrível. Aliás, as autárquicas foram antes de tomar posse e, depois disso, passámos de um para oito deputados. Mas, em termos da dispersão territorial, poderíamos ter ido mais além. Gostávamos de ver mais mensagem liberal fora das grandes cidades.

Pensa que existe uma espécie de pensamento único na IL?

Há alturas em que me interrogo se temos um centralismo democrático no partido. [risos]

O partido corre o risco de ter chegado a este patamar para depois desaparecer?

Todas as estruturas orgânicas e não orgânicas têm tendência para nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Pode acontecer. Estou convencido de que a IL tem a qualidade de quadros e de membros que fará com que se vá sempre revigorando e sobrevivendo. Mas o risco existe. Ninguém diria há dez anos que o CDS não teria representação parlamentar. E aconteceu. Neste momento, dizemos que o partido A, B ou C está morto, só que não sabe. Não é o caso da IL, que ainda está pujante e tem uma mensagem para passar. Há três anos, quem dissesse a palavra liberal era quase crucificado na praça pública. A palavra entrou no léxico e foi a IL que fez esse caminho. Alguma coisa de bem foi feita no passado. E era de manter esse ímpeto que eu gostava.

Tem noção de que terá uma luta bastante difícil com uma lista conotada com a CE?

Sou oficial de cavalaria. [risos] Não sei quantas listas irão submeter-se ao sufrágio. Se calhar, não serão só duas. Podem ser três ou mais. Até cinco. A luta não nos preocupa, nem a quantidade de eleitos que vamos ter. O que nos preocupa é passar uma mensagem de mais democracia e liberalismo dentro do partido que se diz a casa dos liberais portugueses. É com esse espírito quase de missão que aparecemos na luta, e com vontade de vencer. Ninguém vai a eleições para perder. É um combate difícil, mas isso não nos demove.

Partilhou as suas preocupações com o presidente da IL?

Não. Sou um militante de base.

Também deputado municipal.

Em termos de militância na IL, sou um anónimo. Em Mafra vão-me conhecendo, pois vou fazendo o meu trabalho. Ainda não falei pessoalmente, mas certamente que o presidente do partido sabe o que penso. Mais que não seja pelo artigo em que eu, a Mariana Nina e o Nuno Carrasqueira fizemos o nosso manifesto de tendência do partido. Estou disponível para que o João me ligue para falar comigo, tal como falarei com o presidente da IL quando puder, para lhe dizer que é normal não pensarmos todos da mesma maneira num partido liberal.

Admite que outras tendências do partido vos encarem como retrógrados e reaccionários?

Há quem diga que entre três liberais há quatro ideias diferentes: a de cada um e a súmula das ideias dos três. Por isso, é perfeitamente possível que sim. Posso é desde já dizer que estão enganados. Podemos ser conservadores - o conservadorismo é a validação histórica das coisas que correm bem. Não seremos progressistas, mas defendemos a modernidade. Não somos retrógrados, não somos reaccionários; somos conservadores e liberais clássicos.

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