Medina vs. Moedas: o director de marketing e o camaleão moderninho

Para o social-democrata, o incumbente é um excelente “director de marketing”, que promete agora o mesmo que em 2017 e que fala dos últimos quatro anos como se o balanço fosse nada menos que brilhante. Já para o socialista, o adversário é um “camaleão” por adaptar o discurso ao auditório, na tentativa de estar bem com Deus e com o diabo.



Fernando Medina chegou ao mais importante debate autárquico com o conforto de um largo avanço conferido pelas sondagens. Assim, o mesmo será dizer que o maior desafio do frente-a-frente que teve lugar na TVI, esta terça-feira, se colocava a Carlos Moedas – demonstrar os erros da actual gestão, defender o mérito das propostas sociais-democratas, ou ambas. Conseguiu? Ou foi uma oportunidade perdida?

Os “casos e casinhos”

O mote foi dado logo no arranque do debate pela jornalista Sara Pinto, ao confrontar Fernando Medina com polémicas como o Russiagate ou como as suspeitas que recaem sobre uma série de processos urbanísticos e que, recentemente, levaram a Polícia Judiciária a efectuar buscas na Câmara Municipal de Lisboa.

Carlos Moedas quis aproveitar para explicar que, ao contrário do que o acusa Medina, não quer fazer uma campanha de “casos e casinhos” e, sim, escrutinar a actual gestão autárquica.

Para cima da mesa do debate vieram os 28 mandados de busca e os vários processos levantados em torno da autarquia, mas o exemplo utilizado por Moedas acabou por ser a escolha da arquitecta Inês Lobo – responsável por um projecto que está a ser desenvolvido para a capital - como número dois da lista socialista, num “claro conflito de interesses”.

A acusação acabou por fazer ricochete, com Medina a garantir que “Inês Lobo ainda não foi eleita” e que, “quando for, antes de tomar posse”, obviamente não terá essa ligação. Uma coisa é certa: “não vai passar as quotas da sociedade de arquitetura para o marido”, numa clara alusão à sociedade que em 2011 passou para a mulher de Carlos Moedas, quando este integrou o Governo de Pedro Passos Coelho.

Habitação – rendas acessíveis ou compras com “descontinho”?

É um dos problemas mais debatidos na cidade de Lisboa. É, por isso mesmo, prioridade de uma e de outra candidaturas. Não surpreendeu que tenha sido um dos temas que mais fez subir o tom das acusações entre os dois candidatos e que levou mesmo Moedas a mostrar uma fotografia de uma habitação social onde vivem seis pessoas sem tecto na cozinha. “Esta é a situação nos bairros municipais que o senhor não conhece”, atirou o ex-comissário europeu.

Todavia, se noutras alturas Medina já reconheceu que os prometidos programas de arrendamento ficaram aquém da execução expectável, neste frente-a-frente acabou por nem ser confrontado com os números (dos 6000 fogos prometidos, apenas 800 foram atribuídos) pelo adversário, que se limitou a eleger este dossiê como sendo “um dos maiores falhanços de Medina”.

Em contrapartida, o candidato social-democrata defendeu a isenção de Imposto Municipal sobre a Transmissão Onerosa de Imóveis [IMT] para os lisboetas que comprarem uma casa até 250 mil euros. Uma solução que Medina se apressou a desmontar, alegando que “o descontinho” não serviria a ninguém.

O socialista acusou Moedas de desconhecer a realidade dos municípes, que na sua maioria não teriam sequer o valor para dar de entrada para uma casa nesses valores.

Menos carros, mais mobilidade

No objectivo, estão de acordo. No caminho, longe disso. Medina voltou a defender limitações à circulação de carros na cidade, o que levou Moedas a questioná-lo sobre a solução prometida há quatro anos, e que passava por construir parques de estacionamento dissuasores à entrada de Lisboa, aumentando para isso a oferta de transportes públicos. Para o social-democrata, nem uma nem outra foram cumpridas. “Temos a pior rede de transportes da Europa”, lamentou, acusando ainda o socialista de ter falhado “redondamente” nesta matéria.

Contra a proposta de Moedas de atribuir passes gratuitos aos jovens e aos idosos Medina lembrou que foi na sua gestão que os lisboetas viram diminuir para 15 euros o preço dos passes sociais, e atirou insistentemente a pergunta: “Sabe quanto custavam?”. Sem resposta, o próprio rematou: “Não faz ideia quanto pagavam os lisboetas antes da nossa reforma.”

Outro dos assuntos que acabou por aquecer o debate foi a expansão da rede de ciclovias, com Moedas a prometer acabar com a que foi construída na avenida Almirante Reis, e solicitar Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) uma auditoria às restantes. Para o candidato do PSD, o que está em causa é a segurança dos ciclistas, que a rede, tal como está, “não garante”.

Perante o remoque, Medina acusou o adversário de estar do lado dos automóveis, apesar de querer “parecer moderninho”.

E foi nessa fase, já na recta final do frente-a-frente televisivo, que Moedas voltou a rematar ao lado, ao tentar sustentar o argumento nas 26 vítimas mortais, em Lisboa, em 2019. “Tem de confirmar esse número”, respondeu-lhe Medina.

O debate terminou sem a correcção, mas efectivamente o número de mortes diz respeito ao total nacional, e não apenas à capital.

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