Manhã de ressaca para o PCP, mais uma vez derrotado na sua Margem Vermelha

Nem nomes históricos na península de Setúbal como Carlos Humberto de Carvalho e Maria das Dores Meira devolveram câmaras bem cobiçadas ao Partido Comunista. Barreiro e Almada renovam mais quatro anos com o Partido Socialista. Moita, a grande surpresa da noite, caiu. Seixal segue com a CDU, mas sem maioria.



Câmara a câmara, o Partido Socialista está a tomar a Margem Vermelha ao PCP. Se em 2017 já tinha conquistado Almada, Barreiro e Alcochete, a noite passada os socialistas foram ainda mais longe e venceram na Câmara da Moita. Desde 1976, o município nunca tinha mudado de cor política, mas há quatro anos começou a sentir o chão tremer quando perdeu a maioria absoluta. Numa inversão de papéis, agora vão governar socialistas, mas também sem maioria absoluta.

Na península de Setúbal, o PS sagra-se assim vencedor das autárquicas 2021, com cinco das nove câmaras em seu poder, cerca de 37% dos votos e 35 vereadores eleitos até ao momento, porque o Montijo ainda não tem números finais. A CDU arrecada quatro câmaras, 30% de votos e elege 28 vereadores, também ainda sem dados do Montijo.

O concelho de Setúbal é, de resto, a única derrota que os socialistas têm a lamentar na península, depois de uma campanha de peso, com o deputado Fernando José a concorrer à presidência da câmara e a líder do Grupo Parlamentar do PS, Ana Catarina Mendes, a concorrer à assembleia municipal. Nenhum dos dois impediu que André Martins, candidato da CDU, apoiado por Maria das Dores Meira, vencesse para dar continuidade ao legado da obra feita pela veterana. Uma vitória da CDU que não se sabe a que custo será mantida: com 34,04% dos votos e cinco vereadores, terá de enfrentar dois do PSD (16,57%) e quatro do PS (27,67%).

Ao longo da noite, Paulo Lopes, líder da Comissão Concelhia de Setúbal do PS, foi afirmando ao NOVO que “isto não é uma derrota, pois conseguiram-se mais votos e a diferença da CDU foi pouca comparada com outros anos”. Mas cerca das 2h00, com uma freguesia ainda por apurar, Ana Catarina Mendes disse que ainda não havia resultados finais, portanto, nada havia a comentar, “nem derrota, nem vitória”.

E se Setúbal é a grande derrota do PS, Almada é a grande derrota da CDU, seguida do resultado na Moita. Obra em terra alheia não foi suficiente para dar a vitória a Maria das Dores Meira, que ao longo da campanha se defendeu falando várias vezes das “provas dadas” que deixou em Setúbal e queria trazer para os almadenses. Passava pouco das 21h00 quando a veterana admitiu “a derrota da CDU em Almada”.

No Barreiro, outro histórico do PCP ficou para trás. Carlos Humberto de Carvalho, actual primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa, já governou a câmara barreirense por 12 anos. Em 2017 não pôde voltar a recandidatar-se, devido à limitação de mandatos. Este ano, o PCP voltou a colocá-lo na corrida autárquica para tentar recuperar a câmara perdida para os socialistas. Arrecadou apenas uma tremenda derrota, com 23,43%, enquanto o executivo socialista de Frederico Rosa, imbatível, conquistou 56,68%.

Apesar das mudanças fortes que este mapa político vai sofrendo a cada eleição, em Sesimbra e no Seixal, a CDU consegue manter-se no poder. E em Palmela tem agora o último bastião que o PCP governa, sem interrupções, desde 1976.

Se os comunistas perderem terreno na península de Setúbal já não é novidade, o Chega eleger vereadores é. A representação da direita em terras de raízes bem vermelhas já havia sido notada nas presidenciais, quando André Ventura conquistou um segundo lugar na Moita. Por agora, não vai tão longe, mas o partido associado a ideais de extrema-direita terá um vereador na Moita, no Seixal e em Sesimbra.

Em recentes declarações ao NOVO, dizia o politólogo e historiador José Pacheco Pereira que “o PCP não está a conseguir renovar-se porque mantém-se muito fechado, com o poder de decisão centralizado e sem abertura ao diálogo e à renovação nas altas instâncias com gerações mais jovens. Quando assim é, em tempos de grandes reivindicações e insatisfação é natural que se perca herança política entre gerações e se radicalize. Assim foi com o comunismo. Assim pode ser com os populismos e partidos como o Chega”.

Perdidas as autárquicas, recomeça bate-pé ao Orçamento do Estado

Nem o território perdido para o PS nem o alerta da extrema-direita a ganhar eleitores (que podem ser os seus) demovem o secretário-geral do PCP de considerar que, embora o resultado destas autárquicas fique “aquém dos objectivos colocados”, a CDU “confirma-se como uma grande força de poder local". Foi assim, de semblante reservado e repetindo as palavras “povo” e “trabalhadores”, que, pelas 22h45, Jerónimo de Sousa se dirigiu ao país e aos militantes do seu partido. Ao seu lado nem sinal de João Ferreira, candidato da CDU à Câmara de Lisboa, que só conseguiu um terceiro lugar e dois vereadores.

Jerónimo de Sousa segue em frente, sem dar nota de querer mudar a imagem de um partido com grande dificuldade em acompanhar o diálogo interpartidário e o multicolorido que fica no mapa destas autárquicas, mas está pronto para bloquear o Orçamento do Estado. Ainda os resultados finais das eleições estavam a ser apurados, já o secretário-geral do PCP, resignado perante a derrota, confirmava que era tempo de “olhar para o futuro” e “abrir perspectivas a uma política de alternativa que não limita leituras estritas do Orçamento do Estado para 2022”. E para deixar bem clara a sua posição sobre o que o Governo de António Costa pretende fazer com o dinheiro da bazuca, garantiu que “as forças que integram a CDU tomarão as iniciativas para afirmar a alternativa que é necessária”.

O não ao Orçamento do Estado por parte do PCP já havia sido dado em pré-aviso, dias antes das autárquicas, e só pode ser mudado, diz Jerónimo, se houver “investimentos que respondam às necessidades das populações e do país”, em temas como “os direitos laborais e o acesso ao emprego”.

Derrotas e vitórias assumidas, a única força que não pára de crescer a cada eleição é a da abstenção. Depois dos 45% de 2013 e 2017, chegou a mais de 46% nestas eleições e bateu o novo recorde dos últimos 45 anos. No distrito de Setúbal passou mesmo os 54%.

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