João Cotrim Figueiredo: “Confesso que me dá um certo gozo ver o Bloco de Esquerda com muito medo”

Líder da Iniciativa Liberal acredita que bloquistas e centristas convergem no receio do apelo das ideias e da comunicação do seu partido junto dos jovens, “que alguns consideravam ser a sua coutada de votantes cativos”. Algo que, na sua opinião, se traduz no panfleto “Porque é que os liberais te perseguem” ou na caricatura da “prima modernaça”.



O número de pessoas que o abordam no centro de Lisboa ao ser fotografado pelo NOVO é mais um indício de que João Cotrim Figueiredo, único eleito pela Iniciativa Liberal (IL) em 2019, já está a testar positivo no que toca à notoriedade. O passo seguinte é garantir a votação que permita colocar as ideias do seu partido na esfera do poder, o que implica resistir ao apelo do voto útil no PSD, e contribuir para a mudança, que “passa necessariamente por retirar o PS do poder”. Uma entrevista que pode ler na edição do seu semanário nas bancas esta sexta-feira.

A Iniciativa Liberal já tem uma noção mais concreta de quem é o seu eleitor?
Era mais fácil responder a isso há dois anos. Na sequência das autárquicas tivemos a grata confirmação – não vou dizer surpresa, porque foi algo que procurámos – de que temos boas implantações em zonas que não são litorais e urbanas. Não sei se as pessoas têm noção de que entre as dez freguesias em que tivemos maior votação percentual nove delas são rurais. Portanto, a Iniciativa Liberal e o liberalismo também têm apelo nessas zonas. É evidente que o grosso dos nossos eleitores continuam a ser jovens, urbanos, litorais, mas a implantação do partido tem estado a correr muito bem. Começámos em 2019 com seis núcleos territoriais, hoje já ultrapassámos 50 e só não temos mais porque em tempo de campanha não se aprovaram os novos. Somos um partido que nunca será um catch-all – seremos sempre ideológicos e com apelo dirigido às pessoas que têm ideias liberais convictas – mas teremos implantação em todo o país.

Ao mesmo tempo que o CDS-PP faz a caricatura da “prima modernaça”, o Bloco de Esquerda dedica um panfleto ao tema “Porque é que os liberais te perseguem”. É possível que estejam a disputar votos aos centristas e bloquistas em simultâneo?
Isso tem muito a ver com a forma como sobretudo os mais jovens olham para a política hoje em dia. Não se revêem nada na geometria esquerda-direita e movem-se mais por causas do que por rótulos. Mas interpreto-o de uma maneira bastante mais simplista: o CDS e o Bloco de Esquerda percebem que a Iniciativa Liberal está a ter muito mais capacidade de comunicar com as forças mais dinâmicas da sociedade, sobretudo os jovens, que alguns consideravam ser a sua coutada de votantes cativos. Ao falarmos abertamente para quem quer fazer da sua vida um exercício de liberdade e de autonomia tem entrado muito bem a mensagem, e é por isso que esses partidos têm medo. Esse panfleto foi sintomático do medo que o Bloco de Esquerda tem da Iniciativa Liberal.

O Bloco de Esquerda deu o flanco?
Completamente. Fizeram um panfleto com seis ou sete afirmações em que pelo menos metade eram mentiras descaradas – que queremos acabar com a escola pública e que apoiamos ditadores; já nem me lembro, pois entra por um ouvido e sai pelo outro – e com o cuidado de manter a nossa estética, pintando-nos como os piores dos facínoras. Quem precisa de ridicularizar, mentir e caricaturar àquele nível é porque está com muito medo. Confesso que isso me dá um certo gozo.

Até que ponto é importante a ordenação dos partidos pelo número de votos obtidos nas próximas legislativas?
Só na medida em que alguns puseram a ordenação como critério. Até pode acontecer que quem estava a lutar pelo terceiro possa ficar em quinto ou sexto, o que não deixa de ser divertido.

Mas suponho que há-de almejar algo mais do que ficar à frente do CDS-PP e do PAN...
Almejar é um verbo que em política não sei qual é exactamente o significado. Sonhar com isso, às vezes sim, claro.

O Bloco de Esquerda demorou quatro eleições legislativas a passar de dois para 16 deputados. Acredita que a Iniciativa Liberal poderá ser mais rápida?
Acredito. Não é por achar que tem de haver necessariamente uma justiça de proporcionalidade entre os resultados eleitorais e a qualidade das propostas, mas sobretudo porque não somos um partido que só pense na parte social, na parte política ou na parte económica. Pensamos nas três dimensões com a mesma perspectiva liberal e com soluções. Isso permite-nos mostrar que o liberalismo funciona a mais pessoas. Ao contrário do Bloco, que não faz ideia de como pôr um país a crescer – já perguntei a dirigentes desse partido qual é o país em que cujo regime económico se revêem e não existe resposta, pois aquilo não funciona em lado nenhum e nem na cabeça dos ideólogos do Bloco -, temos capacidade de chegar a mais pessoas e não espantaria que demorássemos menos tempo a ter um grupo parlamentar ligeiramente maior do que esse.

Tendo em conta que em alguns países europeus os vossos partidos-irmãos disputam a vitória nas eleições, e por vezes ganham, é possível que um dia a Iniciativa Liberal possa vencer eleições legislativas em Portugal?
É sempre esse o objectivo. Fizemos um apanhado dos países desenvolvidos da Europa e neste momento 11 têm participação de partidos liberais no governo e há muitos outros que já a tiveram. Há países onde há mais do que um partido liberal e há países onde há mais do que dois. O liberalismo não é só uma posição política – é também uma tradição intelectual e uma forma de ver o mundo que pode ter várias declinações e que em alguns países faz aquilo que em Portugal se faz com visões estatistas, que representam 50 ou 60% do eleitorado. Em países mais desenvolvidos são os liberais que representam essa fatia.

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