IL ou Chega: qual deles tem mais condições para crescer?

Liberais têm mais condições para crescer do que o partido de André Ventura. “Está tudo em aberto, mas a IL é um projecto bastante mais sólido”, diz Riccardo Marchi. Nas últimas legislativas, Chega só não ficou à frente nos centros urbanos.



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Chega e Iniciativa Liberal foram os partidos que mais cresceram nas últimas eleições, fixando-se como terceira e quarta forças políticas nacionais, respectivamente. Em plena reconfiguração da direita em Portugal, qual dos dois tem mais espaço para crescer?

Para Riccardo Marchi, ambos têm “boas possibilidades de crescimento devido à crise das direitas”, uma vez que “tanto no CDS como no PSD não se vislumbram grandes novidades em relação ao passado”.

O investigador do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa considera, por isso, “que está tudo em aberto quer para a Iniciativa Liberal quer para o Chega”, mas aponta “duas diferenças importantes” para o futuro dos dois partidos, levando os liberais vantagem. “A IL é um partido que surge de mais de uma década de debate e que apurou muito quer o debate político interno, quer a selecção dos seus quadros”, analisa Marchi, concluindo que, do ponto de vista ideológico e de quadros políticos, a IL é um projecto “bastante mais sólido do que o Chega”. “Comparativamente, a IL está em muito melhores lençóis para capitalizar a crise na direita, para se apresentar como alternativa viável”, acrescenta.

Já o Chega “ainda sofre as fraquezas de um partido que nasce do zero e que, de repente, se encontra com milhares de filiados que querem constituir os quadros”.

Para Marchi, autor do livro “A Nova Direita Anti-Sistema: O Caso do Chega”, todos os problemas estruturais do partido de Ventura derivam da falta de apuramento ideológico e de quadros. “Tanto que, neste momento, quase 70% dos fundadores já saíram. E aqueles que permaneceram estão numa situação muito crítica em relação à liderança e à direcção”, diz o professor universitário, para quem o caso do Nuno Afonso, chefe de gabinete de André Ventura recentemente exonerado, “demonstra muito bem a fraqueza estrutural do partido.”

O segundo factor que distingue Chega e IL é o facto de, em relação ao partido liderado por André Ventura, existir um cordão sanitário, o que é uma vantagem para os liberais. No entanto, antevê Marchi, se o partido ultrapassar a fasquia dos 10% e cavalgar para os 12% - seja em eleições legislativas, autárquicas ou regionais -, a cerca sanitária “vai enfraquecer muito”. Nesse caso, e apesar das “resistências muito fortes”, o Chega torna-se um parceiro fundamental para pensar numa alternativa de direita ao Governo socialista”. Onde o Chega pode também ganhar pontos é no Parlamento, sendo possível “tornar-se o principal actor da oposição ao PS” graças ao estilo confrontacional, que contrasta com a linha “mais institucional da IL” e com “a linha morna e bloqueada do PSD”.

Chega não tem lepra

Alberto Gonçalves, colunista, não tem dúvidas de que o futuro dos dois jovens partidos depende, em parte, do que se passar na vizinhança. Se o PSD “encolher muito”, Chega e IL “têm terreno aberto para crescer por falta de alternativa”.

O potencial de crescimento dos dois depende ainda de cada um conseguir provar “os seus méritos”. Nesse campo, observa Alberto Gonçalves, o partido liderado por Cotrim Figueiredo “tem mais massa crítica” e, “em teoria, está mais bem preparado”. Ao contrário do Chega, que tem um “discurso pobre e débil”, os liberais têm “uma mensagem mais sólida”.

Quanto à cerca sanitária imposta ao Chega, Alberto Gonçalves reconhece que há um dilema, mas ironiza: “Não acho que os partidos devam correr para os braços do Chega como se fosse a salvação”, mas também não devem encará-lo “como se se tratasse de lepra.” Desse ponto de vista, Luís Montenegro tem sido “mais cauteloso” do que Jorge Moreira da Silva, que tem “dedicado mais tempo a demarcar-se do Chega do que do PS”, uma abordagem que só favorece o próprio Ventura e os socialistas.

João Gomes de Almeida também acredita que Chega e IL têm potencialidades para crescer, mas por razões diferentes. O Chega consegue captar votos por todo o país, mas os liberais têm a vantagem de ter mais consistência ideológica. “Os dois têm ameaças e algumas oportunidades”, diz o consultor de comunicação.

IL tem mais consistência

A vantagem do Chega “é o facto de haver uma cobertura nacional, enquanto a IL está concentrada nos pólos urbanos”. Os resultados das últimas eleições legislativas mostram que o partido de André Ventura só não ultrapassou os liberais em Lisboa e no Porto. Há alguns distritos onde a diferença é grande. Em Faro, por exemplo, o Chega conseguiu mais de 12% dos votos, e os liberais cerca de 4%. Santarém é outro dos exemplos em que o partido liderado por André Ventura ultrapassou os 10% e os liberais não atingiram os 4%, com menos votos do que os bloquistas e o PCP. Na região do Alentejo, a distância também é significativa com o Chega à volta dos 10% em distritos como Beja, Portalegre ou Évora, e os liberais com pouco mais de 2% dos votos.

Em Lisboa e no Porto, o cenário é diferente. A IL foi a terceira força política mais votada - em Lisboa, com mais 1452 votos do que André Ventura e, no Porto, com uma diferença superior a 7300 votos.

Mas o Chega também tem pontos fracos em relação ao partido liderado por Cotrim Figueiredo. “A IL tem uma consistência ideológica que lhe permite mais facilmente fidelizar militância e crescer gradualmente. O Chega acaba por ser uma amálgama de pessoas que não se reconhecem nos partidos de direita do sistema”, diz João Gomes de Almeida. Outra vantagem dos liberais é, ao contrário do Chega, não estar dependente do líder para “continuar a existir e a crescer”.

O consultor de comunicação considera que há ainda outros factores importantes para avaliar as potencialidades de crescimento dos novos partidos. Um deles é a capacidade do CDS para reconquistar o seu eleitorado com uma nova liderança. “O CDS disputa o espaço eleitoral com o Chega e a IL. É preciso perceber o que esta nova liderança irá representar.” Gomes de Almeida entende ainda que o crescimento dos partidos de Ventura e da IL está relacionado com “o discurso mais ao centro de Rui Rio”, mas isso pode mudar com a nova liderança dos sociais-democratas. “Se o PSD apresentar um discurso, do ponto de vista económico, mais liberal, irá roubar votos à Iniciativa Liberal. Por outro lado, um discurso mais à direita irá roubar votos ao Chega. Isto poderá condicionar o crescimento dos dois”, remata. *Com Luís Claro

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