“Horror corrupto e desumano”: Isabel Moreira justifica voto contra ida de Marcelo ao Catar

Quatro deputados socialistas opuseram-se à viagem do chefe do Estado ao Catar. Isabel Moreira argumenta que este país ter sido escolhido para organizar o Mundial “traduz o pior de um mundo vergonhosamente impune dentro do qual os direitos humanos e a legalidade desportiva estão à venda”.



“Não estamos perante uma viagem diplomática”: é desta forma que a deputada socialista Isabel Moreira justifica o seu voto contra a deslocação do Presidente da República ao Catar, um posicionamento, contrário ao que tomou o seu partido, o PS.

“Ciente” de que o seu voto contra é “inédito”, a parlamentar explica que também a situação é “inédita”. “Não estamos perante uma viagem diplomática, por exemplo, mas perante um absurdo caucionamento de um Mundial organizado de forma corrupta pela FIFA num país onde há trabalho escravo – desde logo, para construir estádios onde os não havia, porque ali inexiste tradição de tal desporto”, assinala numa publicação feita nas redes sociais, enfatizando: “Gente morta para que possa haver estes tempos de futebol corrupto, tudo num país bárbaro em termos de direitos humanos.”

No entender da deputada socialista, a escolha do Catar para organizar “o já chamado Mundial da vergonha traduz o pior de um mundo vergonhosamente impune dentro do qual os direitos humanos e a legalidade desportiva estão à venda”.

Reconhecendo que não é a primeira vez que há Mundiais em ditaduras, Isabel Moreira acrescenta, aludindo às explicações dadas pelo Presidente, que também está ciente de que em nenhum desses eventos “foi fortunosa aquela ideia da ‘oportunidade’ para ‘ali’ se dizer alguma coisa sobre direitos humanos”.

Além disso, prossegue a socialista, “estamos em 2022”, pelo que “devemos ser mais exigentes e mais experientes”. “A própria FIFA dá-nos razões, todos os dias, para emitirmos o sinal possível contra a presença dos nossos titulares de órgãos de soberania no Catar, onde a religião é a lei que faz das mulheres e dos homossexuais não pessoas”, assinala.

Sobre a exploração laboral no Catar, Isabel Moreira afirma: “Repugna-me a luta pela exactidão acerca do número de escravos oriundos do Sri Lanca, Bangladeche, Nepal, Índia e Paquistão. Repugna-me a comparação entre ‘acidentes de trabalho’ no Catar e em Estados de direito. No Catar, essas pessoas migrantes são uma ‘casta’ desumanizada, são praticamente toda a mão-de-obra que existe, essa que trabalha sem direitos, debaixo de 50 graus, sem condições de vida, ameaçados, sem voz, esquecidos.”

E termina dizendo: “Se a única coisa que posso fazer é votar contra a deslocalização do PR para assistir a jogos de futebol à conta do que é este horror corrupto e desumano, pois faço-o.”

Isabel Moreira e outros três deputados socialistas, entre eles a ex-ministra Alexandra Leitão, votaram contra a viagem de Marcelo ao Catar para marcar presença no primeiro jogo da selecção no Mundial. Iniciativa Liberal, Bloco de Esquerda, PAN e Livre também se posicionaram contra. PS, PSD e PCP votaram a favor e o Chega (e três deputados do PSD) abstiveram-se.

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