Debate legislativas 2022: sem maioria, Costa governa ao estilo de Guterres

Duelo televisivo entre os líderes do PS e do PSD serviu para o primeiro-ministro esclarecer o que fará se vencer as legislativas sem maioria absoluta. Rui Rio apontou baterias ao cenário de o actual líder do executivo ceder o lugar, mesmo ganhando, a Pedro Nuno Santos: “Aí temos o Bloco mesmo dentro do governo.”



António Costa e Rui Rio entraram para o único duelo televisivo a dois para mostrarem as diferenças rumo às eleições legislativas. O primeiro-ministro tentou explorar o programa eleitoral dos sociais-democratas, considerando que o PSD quer colocar, por exemplo, a classe média a pagar o Serviço Nacional de Saúde. Já o líder do PSD atirou ao adversário a insistir para que não fizesse teatro e, no fim da linha, houve uma novidade na discussão.

António Costa garantiu que se não tiver maioria absoluta (que já pediu), assumirá “as suas responsabilidades” e irá conversar “com os partidos” para governar ao “estilo do eng.º Guterres”.

O secretário-geral do PS foi mais longe ao recordar que o PAN, por exemplo, não contribuiu para a crise política que conduziu o país a eleições antecipadas. Logo, pode depreender-se que será um dos parceiros preferenciais do PS caso os socialistas fiquem a uma curta margem dos 116 deputados necessários para a maioria absoluta.

Governar ao estilo de António Guterres significa que a discussão deve passar por negociar medida a medida. Recorde-se que, no Orçamento de 2001, por exemplo, o então primeiro-ministro socialista António Guterres encetou negociações com o ex-deputado do CDS Daniel Campelo, num processo que ficou conhecido como o Orçamento Limiano (Campelo era de Ponte de Lima).

No duelo televisivo, Rui Rio alertou, contudo, que Costa pode ser tentado a passar a pasta a Pedro Nuno Santos, ministro das Infra-Estruturas, caso não tenha maioria absoluta. E dramatizou este cenário: “Aí teremos o Bloco no Governo.”

Do ponto de vista político, este foi o momento do debate televisivo, transmitido pelas três televisões de canal aberto.

Área por área, ficou claro que António Costa quer descer já o IRS, sobretudo para as famílias, enquanto Rui Rio defende que a prioridade deve começar pelo IRC, para permitir às empresas criarem riqueza e poderem aumentar os salários aos trabalhadores.

Na área social, Costa usou as linhas gerais da proposta de revisão constitucional de Rui Rio para o acusar de tentar colocar a classe média a pagar os serviços do Serviço Nacional de Saúde. O líder do PSD tentou rebater esta ideia. Cá fora, considerou-a aos jornalistas como “surreal”. Por fim, o líder social-democrata prometeu um médico assistente (contratualizado com o privado), a título provisório, para colmatar a falta de médicos de família no SNS. E acusou o PS de falhar claramente esta promessa.

Neste tema, Rio pediu a Costa para “não fazer teatro” quando o também secretário-geral socialista se insurgiu contra a avaliação do adversário sobre a resposta do SNS.

O presidente social-democrata considerou ainda que o programa de Costa é o Orçamento de 2022 (chumbado no Parlamento): “Depois do caminho marítimo para a Índia, a coisa mais importante para Portugal será o Orçamento do Estado para 2022”, atirou o líder do PSD, insistindo que o primeiro-ministro quer outros resultados com a mesma receita já apresentada.

No caso da TAP, Costa quis passar a mensagem de que “a companhia estará em condições de, assim que possível, alienar 50% do capital”, enquanto o líder do PSD insistiu que a empresa nunca deveria ter sido renacionalizada: “A TAP recebe 3,2 mil milhões de euros. Isto, obviamente, não é aceitável. Uma empresa que dizem que é de bandeira, mas apenas serve o aeroporto de Lisboa.”

Quanto à justiça, o primeiro-ministro acusou o PSD de ter propostas perigosas ao tentar subordinar o Ministério Público ao poder político, com as mexidas nas composições nos conselhos superiores das magistraturas, e Rio retribuiu-lhe com a farpa de “populismo”.

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