“Debandada” no Chega. Ex-militantes falam em nepotismo, censura e falta de democracia interna

Quatro ex-militantes do Chega, que desempenhavam funções em concelhias do Norte, contam ao NOVO o que os levou a bater com a porta e garantem que não são os únicos a deixar o partido liderado por André Ventura. “Existem centenas de desfiliações a nível nacional”, asseguram. Partido alega que acusações vêm de militantes suspensos ou expulsos.



João Leitão, ex-vice-presidente da concelhia da Maia, Fernando Arriscado, ex-coordenador concelhio da Póvoa de Varzim, João Almeida e José Carlos Silva, ex-coordenadores de núcleos de freguesia da concelhia da Maia, desfiliaram-se do Chega há cerca de uma semana, apontando-lhe severas críticas. Sentem-se enganados e comparam o partido liderado por André Ventura a uma “seita” onde impera o “culto da personalidade”.

A três semanas das eleições legislativas, cortaram laços com o partido e, em uníssono, dizem que a censura não os vai silenciar. “Dentro do Chega impera a ditadura e a censura. Dizermos, por exemplo, que numa determinada concelhia existe nepotismo era motivo para recebermos uma ordem de suspensão ou até de expulsão do partido. Mas não é a censura que nos vai calar. Por isso, desfiliamo-nos e já podemos falar. Falaríamos na mesma, mas não lhes damos o gosto de nos suspenderem ou expulsarem”, começa por explicar João Leitão.

O ex-vice-presidente da concelhia da Maia garante ainda que há uma saída em massa de militantes do Chega um pouco por todo o país. No Porto, explica, “havia mais de 5 mil militantes a pagar quotas. Mas no último congresso percebeu-se que agora não chegam a mil. Isso significa que há realmente um descrédito muito grande e um desânimo e que as pessoas começaram a perceber que realmente é um partido vazio de ideias”. João Leitão vai ainda mais longe e garante que “existem centenas de desfiliações a nível nacional. Os portugueses de bem estão em debandada do Chega”.

Do nepotismo à censura

O alegado nepotismo na concelhia da Maia é um dos motivos que levou estes militantes a cortar laços com o partido e, segundo João Leitão, o cenário é uma realidade transversal a todo o país: “O Chega é hoje um partido onde, das bases à direcção nacional, prolifera o nepotismo e o clientelismo”.

Num e-mail enviado à distrital do Porto e à direcção nacional do Chega, em Abril de 2021, a que o NOVO teve acesso, elementos da concelhia da Maia expuseram a situação de “compadrio”, que classificaram como “inaceitável e vergonhosa”. Na comunicação, os militantes alegam que André Almeida, líder do Chega da Maia à data, tinha na concelhia familiares, funcionários e amigos.

João Almeida, ex-coordenador de núcleo de freguesia da concelhia da Maia, lamenta ao NOVO o facto de, após o envio do e-mail, nada ter sido feito. Critica também Ventura por, mesmo tendo conhecimento da situação, ter nomeado o líder da distrital, Rui Afonso, como cabeça-de-lista pelo Porto às legislativas de 30 de Janeiro. “Enviámos emails para o André Ventura e, mesmo assim, ele nomeou como candidato a deputado o líder da distrital [Rui Afonso] que deixou perpetuar isto tudo”, declara.

Outra das acusações destes ex-militantes prende-se com a censura que, aliás, já não é um tema novo no seio do partido. Desde que o Chega implementou a directiva 3/2020, a chamada lei da rolha, em Dezembro de 2020, a comissão de ética levou a cabo mais de 60 suspensões. No mesmo período, o conselho de jurisdição expulsou sete militantes, como mostrou o NOVO num artigo que pode recordar aqui.

A acção destes órgãos de disciplina do partido fazem ecoar diversas críticas de tentativa de limitação de liberdade de expressão e Fernando Arriscado, ex-coordenador concelhio da Póvoa de Varzim, defende mesmo que estes órgãos foram criados “com o propósito de calar e censurar as pessoas”.

Falta de democracia?

No Chega, as comissões políticas concelhias são nomeadas pelas distritais o que, desde a criação do partido, tem gerado críticas quanto à limitação do princípio da democracia interna. Os apelos para eleições directas nas concelhias já vêm do congresso de Évora, em 2020, mas, conclave após conclave, vão ficando na prateleira.

“Estamos há três congressos para conseguir eleições para as concelhias. É isto que André Ventura acha que é democracia interna?”, questiona João Almeida.

No Congresso de Viseu, recorde-se, Luís Vilela, líder concelhio de Vila do Conde, apresentou uma recomendação que aqueceu os ânimos na reunião magna. Luís Vilela pretendia alterar o artigo 15 dos estatutos para substituir a eleição dos delegados ao congresso do partido pela “indicação” por parte da direcção nacional. As concelhias e distritais ficariam apenas com 10% dessas designações.

De acordo com a agência Lusa, para justificar a proposta, Luís Vilela alegou que havia militantes suspensos que continuam a questionar o partido e os seus dirigentes. “É muito triste haver militantes que já foram suspensos e nesse período, nas redes sociais através de perfis falsos, continuarem a denegrir o partido e os seus dirigentes e integrarem agora a lista de delegados. É simplesmente lamentável”, disse na altura.

Entre os militantes que se insurgiram contra a proposta estava João Leitão, que lembrou que “quanto maior a participação dos militantes maior é a democracia e mais o partido cresce”. A recomendação acabou por ser chumbada com 257 votos contra, 97 abstenções e apenas 46 votos a favor. André Ventura e a direcção nacional anunciaram que não iriam votar a recomendação.

A aprovação desta proposta, salienta agora Fernando Arriscado, só não representaria o “fim da democracia interna porque ela já não existe”. O ex-coordenador concelhio da Póvoa de Varzim lembra ainda que chegou ao último congresso “optimista” de que a moção que propunha eleições internas dentro do partido fosse aprovada, mas os anseios caíram por terra. “Quando chegámos lá, batemos completamente contra uma parede. Estava tudo montado para a nossa moção ser rejeitada. Fui avisado de que o André [Ventura] não queria as eleições e não me deveria meter por ali”, conta.

Fernando Arriscado diz que, durante algum tempo, acreditou que esta situação “poderia ser torneada” e que talvez ainda fosse possível transformar o partido naquilo que ambicionavam: “um partido que fosse democrático”. Mas, defende ainda o antigo dirigente, “um dos pontos intocáveis no Chega é que não pode haver poder nas bases. Se houver poder na base, vamos retirar poder ao André Ventura”.

O presidente do Chega é ainda acusado de afastar “pessoas com ideias diferentes ou capazes de ter uma opinião, como é o caso do Nuno Afonso [chefe de gabinete parlamentar]. Ficamos apenas com os yes men [sim senhor]”, vinca Fernando Arriscado. E João Leitão acrescenta: “[Ventura] escolhe as pessoas para estar ao lado dele em função de favores ou interesses. Não existe um critério de meritocracia ou de competência”.

“Ventura é um encantador de burros e os burros somos nós”

Fernando Arriscado recorda ao NOVO que se filiou no Chega não pelo programa, mas pelo líder, “que fala bem”. “Conheço uma pessoa que diz que o André Ventura é um encantador de burros e os burros somos nós. E eu hoje reconheço que ele está coberto de razão”, assume.

O antigo responsável pela concelhia da Póvoa de Varzim aumenta o tom de crítica e diz mesmo que o Chega “não é um partido, é uma seita”, onde impera o “culto da personalidade”. “Queríamos um partido que defendesse a direita, mas não é isso que acontece. Achei que podia mudar isto por dentro. Não consegui e por isso tomei a decisão de sair. Dei a cara pelo partido e, por isso, agora tenho de explicar as razões da minha saída e explicar às pessoas que enganei sem querer. Desculpem mas também fomos enganados”, lamenta.

Por sua vez, João Leitão entende que o “país precisa de estabilidade para que as empresas possam crescer, criando mais emprego e melhores salários”. Mas o Chega, alerta, pode ter o efeito inverso: “Pode ser uma pedra no sapato e o causador de uma instabilidade brutal no nosso país”.

José Carlos Silva, também ex-coordenador de núcleo de freguesia da concelhia da Maia, confessa-se “deveras desiludido” com o partido. Enquanto militante do Chega, apesar de ter “conhecido pessoas maravilhosas”, também conheceu “o pior que há no ser humano. Lamenta “a hipocrisia, falta de ética e a traição” de quem não olha a meios para alcançar objectivos. “O partido está completamente minado de gente incapaz de proteger o bem comum”, termina.

Contactado pelo NOVO, o Chega defende que as “acusações estão a ser feitas por militantes que foram suspensos ou expulsos por não cumprirem os seus deveres de ética”.

Os ex-militantes negam que tenham sido suspensos ou expulsos e defendem que “este tipo de mentira é o modus operandi do partido para escapar às denúncias que são feitas. Ponderamos inclusive apresentar queixa contra o partido por falsas declarações, atendado ao bom nome e honra”.

*Notícia actualizada no dia 17/01 com a reacção dos ex-militantes ao contraditório do partido.

Ler mais
PUB