De punk “facho” a fundador do PAN: a fase extrema de Paulo Borges

Na escola era anarquista e cantava sobre pôr “Lisboa a arder”. Na faculdade apelava à morte de “freaks e hippies”. Hoje é animalista e budista - e “lamenta” o seu passado.



No dia 25 de Abril de 1981, punks de fato e cabelo curto distribuíam um manifesto nos corredores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) que contrastava com os cravos vermelhos dos outros alunos. “O sistema democrático-populista e o preconceito do valor das multidões esgotam as possibilidades de aproveitamento total das capacidades superiores da Raça Humana (...)”, lia-se. Naquele documento deu-se a conhecer o movimento Axo, cujos membros se auto-intitulavam “Arautos do Quinto Império”. Semanas mais tarde viriam a lançar novos panfletos com apelos mais agressivos: “Pela higiene nacional: freaks e hippies para a fogueira”; “Olivença é Portugal! Pela Reconquista!”; “Cristo era judeu! Marx era judeu! Freud era judeu! Quando nos libertaremos desta maldita herança?”; “Purificação Nacional!”.

Passados 40 anos, o movimento ficou esquecido no tempo, mas os seus líderes são caras conhecidas: o músico Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar, Madredeus e Resistência), o académico António Emiliano e... Paulo Borges, que viria fundar o PAN e a União Budista. Ao NOVO, o fundador do PAN frisa que foi “um período da sua vida” de “revolta cega e niilista contra tudo e contra todos”, “de grande ignorância, confusão e sofrimento, mental e emocional”. “Lamento profundamente tudo o que fiz, disse e escrevi neste período, pois as pessoas não tinham de ser vítimas das minhas neuroses, da minha estupidez e das minhas crises.”

Um movimento “(F)Axo”?

Nos corredores da FLUL de então era trocadilho comum colocar um “F” atrás de “Axo” (para se ler “facho”, de fascista). Quem se lembra disso é o investigador Humberto Nuno de Oliveira, então universitário e membro do Axo - que cedeu gentilmente os panfletos e imagens ao NOVO. Mas aos olhos de Pedro Ayres Magalhães, o movimento era uma “construção surrealista” para “chocar os barbudos do folk e da ‘paz, pão e habitação’”, referindo-se a uma canção de Sérgio Godinho. “Aqueles panfletos polémicos não são para se levar à letra. Aquilo é teatral”, garante o músico ao NOVO.

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Revoltados por sentirem que “assuntos da portugalidade” eram logo etiquetados de fascistas, descreve Ayres Magalhães, o grupo pensou no mote: “Portugal, Raça e Império”, palavras provocatórias numa Lisboa que acabara de sair de uma ditadura sete anos antes. Bastou uma ida à Loja das Bandeiras, na Baixa, e já arranjaram bandeira e logótipo: “Até fizemos pins misteriosos que usávamos como se tivéssemos recebido uma medalha”, lembra Ayres Magalhães.

Por fim, vieram as iniciativas: uma conferência sobre o mito do Encoberto com o Partido Popular Monárquico; no 1.º de Dezembro uniram-se ao Grupo dos Amigos de Olivença para protestar; a 10 de Junho lançaram um manifesto para celebrar o “Dia da Raça”, usando a designação do Estado Novo. “Carne e sangue, ferro e aço pelo quinto império! É chegada a altura de provar por actos quem são os melhores filhos da raça. Prová-lo-ão aqueles que tiverem a força de reerguer um único sentido nacional.”

Axo, embrião dos Heróis do Mar

Conhecido no circuito punk lisboeta por Paulo “Desordem”, o fundador do PAN era vocalista dos Minas e Armadilhas. “Estou farto de castrados, estou farto de flipados, quero algo p’ra fazer, quero ver Lisboa a arder!”, cantava em “Lisboa a Arder”. Mais tarde, também o Axo fazia música: o publicitário Pedro Bidarra, que fazia parte do grupo de amigos, lembra-se de o Axo ser “o protonome dos Heróis do Mar”. “Ainda cheguei a distribuir panfletos do Axo no primeiro concerto dos Heróis do Mar no Rock Rendez-Vous”, lembra ao NOVO. Segundo Ayres Magalhães, o colega da “causa axista” Paulo Borges chegou a escrever duas letras dos Heróis do Mar: “Brava Dança dos Heróis” e “Amantes Furiosos”.

Os ex-colegas do Minas e Armadilhas estranharam ver Borges seguir aquele caminho. “Volta e meia, eu e o baterista ríamo-nos do percurso dele. Era anarquista no Minas, depois seguiu para áreas obscuras, nacionalismos e sebastianismos... e, de repente, virou budista”, disse o guitarrista Paulo Ramos ao NOVO. Volvidos 40 anos, Paulo Borges conclui que “não acreditava verdadeiramente em nada disto”. “Esta pedagogia de choque nada visava a não ser procurar desesperadamente chamar as atenções e dar nas vistas”, admite. Hoje diz-se “curado”: “Felizmente, encontrei logo a seguir a meditação, a via do Buda e as tradições espirituais da humanidade, e houve uma súbita e total reviravolta na minha consciência e na minha vida.”

Artigo integralmente publico na edição do Novo nas bancas a 16 de Abril de 2021.

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