Crise política: Augusto Santos Silva admite nova geringonça

Ministro dos Negócios Estrangeiros considera voto contra do PCP e do BE ao OE2022 “surpreendente e ilógico”. Mas aquele que é um dos ministros mais próximos de António Costa não rejeita que os socialistas se voltem a aliar aos antigos parceiros de coligação parlamentar.

O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, admitiu, esta quarta-feira, que é possível repetir um acordo entre PS. PCP e Bloco de Esquerda, a chamada “gerigonça”, caso o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, decida marcar eleições antecipadas devido ao chumbo do Orçamento do Estado para 2022 e os portugueses assim o decidam. “É possível porque estou seguro que todos os partidos aceitarão os resultados eleitorais, se o Presidente da República decidir convocar eleições, dissolver o Parlamento”, declarou em entrevista à TVI aquele que é considerado um dos ministros mais próximos do líder do Governo, António Costa.

Esta quarta-feira, no discursso de encerramento do debate e aprovação na generalidade do OE2022, o também secretário-geral do PS assumiu o possível fim da “geringonça” como uma “frustração e derrota pessoal” e apelou a uma “maioria forçada, estável e duradoura”. Apesar disso, recordou que a solução governativa de 2015 não foi uma solução de recurso e deu a entender que os acordos à esquerda não eram, para si, uma possibilidade enterrada. “Nasci à esquerda, fui criado à esquerda e a esquerda é a minha família (...) Acredito que tem todo o potencial para construir o futuro e que não está condenada ao protesto”, assumiu.

Ora, este possível novo acordo tripartido foi assumido por Santos Silva como um dos possíveis cenários resultantes de uma antecipação das legislativas. “Ou a direita faz a maioria, e todos nós sabemos que facilmente se entenderá, ou o Partido Socialista tem maioria absoluta ou consegue fazer maioria, por exemplo com o PAN, ou há uma circunstância estruturalmente parecida com a actual”, detalhou.

Na mesma entrevista, Santos Silva disse ainda que a direita conseguiu uma “vitória política” porque os partidos à esquerda do PS votaram com a direita, assumindo que podia ser usada a expressão “coligação negativa”. Uma decisão que considerou “surpreendente e ilógica” e que terá provocado interrogações nos portugueses visto que, objectivamente, o chumbo do OE leva a que todas as medidas de aumento de rendimentos não sejam aplicadas.

Defendendo ser “desejável” evitar cenários de bloco central por ser o “mais sadio” para a democracia portuguesa, Santos Silva adjectivou o momento de hoje como “um percalço” e um “excesso de confiança” da parte de partidos que “não conseguem resistir à hipótese de infligir derrotas circunstanciais ao PS”. “Não consigo compreender o voto contra. Como é que Rui Rio consegue impedir que a proposta do Orçamento passe, contando com o voto contra dos partidos à esquerda do PS”.

Santos Silva disse ainda ser necessário não se enfrentar um cenário de possíveis eleições com “demasiado dramatismo”, visto que o Governo também precisa de ter “autoridade política”.

Esta quarta-feira, a proposta de Orçamento do Estado para 2022 apresentada pelo Governo de António Costa foi chumbada com os votos contra de PSD, CDS, BE, PCP, Os Verdes, Iniciativa Liberal e Chega. O PAN e as deputadas não inscritas Joacine Katar Moreira e Cristina Rodrigues abstiveram-se. O PS foi o único partido a votar a favor do documento.

Após a votação, o primeiro-ministro, António Costa, disse estar preparado para enfrentar qualquer decisão que venha a ser tomada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Para isso, garante estar disponível para “governar por duodécimos ou avançar para eleições antecipadas”. Depois de ter dito sempre que não se demitia, Costa deixou uma “palavra de confiança aos portugueses”, assegurando que vai continuar a garantir a governação do país.

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