Chega e a marcha dos “provocadores”: do discurso na estátua do Ultramar à revolução da tábua de engomar

Na antecipação do terceiro congresso do Chega, o líder André Ventura provocou: protestou em dia simbólico e discursou em frente a estátua do Ultramar. O protesto veio em forma de tábuas de engomar e “piretes”.



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A caminho da Praça dos Heróis do Ultramar, onde André Ventura viria a fazer o último discurso da manifestação do Chega em Coimbra, um rapaz que levava uma tábua de engomar debaixo do braço destoou do resto. “Meu puto, eu só quero ir para casa. Encontrei esta tábua no lixo e quero reciclar”, disse Gonçalo Parreirão ao NOVO, a sorrir em tom irónico.

Em surdina, Parreirão juntou-se em protesto a uma manifestação do Chega cheio de simbolismo. Além do local do fim da marcha, onde Ventura discursou num palanque montado à frente de uma estátua de homenagem aos militares do Ultramar, o protesto acontece no dia 28 de Maio, golpe de Estado de 1926 que viria a resultar na queda da Primeira República Portuguesa e na instauração da Ditadura Militar, abrindo caminho para a ditadura de Salazar. “Provocar é a nossa profissão”, brincou Diogo Pacheco de Amorim, vice-presidente do Chega ao NOVO. No início do trajeto, nas redondezas da Universidade de Coimbra, Ventura nega qualquer intenção na data e garante aos jornalistas: “Se o congresso fosse no dia em que nasceu Napoleão, ainda diziam que era por eu querer conquistar a Europa.”

Pelo menos Coimbra quiseram conquistar. “A esquerda perdeu o monopólio das ruas em Portugal”, disse André Ventura, enquanto marchava segurando uma faixa onde se lia “Ilegalização do Chega não. Lutaremos até ao fim.” Num protesto que juntou poucas centenas de apoiantes do partido, uma clara diminuição face às acções de Lisboa, Ventura anunciou o grande objectivo da convenção que e avizinha. “É neste congresso que o partido vai determinar claramente que o Chega não será muleta de nenhum partido”, frisou André Ventura, em declarações aos jornalistas junto à Universidade de Coimbra, de onde partiu uma marcha até à Praça Heróis do Ultramar.

Sob um grande aparato policial, como várias carrinhas da Unidade Especial da Polícia, a manifestação ocorreu sem grandes momentos tensos. O maior momento ocorreu a poucos metros do fim da manifestação: um homem e uma mulher, do alto de um muro, mostraram o dedo do meio e cuspiram no chão, tendo recebido por parte de manifestantes bocas como “seus ganzados”, “rabetas” e “vão trabalhar, drogados”. “Estive o dia todo a trabalhar. Se há quem não trabalhe, são eles”, lamenta ao NOVO Inês, a mulher que protagonizou o momento. É por acaso que se cruzam com a acção do Chega: estavam a relaxar numa esplanada, de cerveja na mão. “Se há cidade que tem tradição de ter combatido fascistas, é Coimbra. Eles são a reacção, nós somos a reacção – e não os toleramos.”

$!Manifestação do Chega, em Coimbra, que antecedeu o III Congresso do partido liderado por André Ventura.
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À chegada Praça dos Heróis do Ultramar, os seguranças montaram um palanque improvisado frente à estátua do militar, da autoria de Cabral Antunes, inaugurada a 10 de Junho de 1971. No seu discurso, “Preferia pôr a cabeça debaixo de água do que moderar-me”, garante o líder do Chega, que diz lutar contra a “indignidade e promiscuidade” que se vive em Portugal.

“Eu não consigo viver num país em que ninguém quer saber do desemprego e dos que imigram mas continuamos a gastar dinheiro nos bandidos”, refere Ventura, que fala ainda de corrupção e daqueles que “perseguem” o partido pelo país.

$!Manifestação do Chega, em Coimbra, que antecedeu o III Congresso do partido liderado por André Ventura.
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Já perto da meia-noite, horas depois do previsto, André Ventura faz o discurso de arranque da III Convenção do Chega. A reunião magna do partido começa com um vídeo de apoio ao líder do partido, ao estilo de culto do chefe. Termina com uma mensagem: “André Ventura, nunca caminharás sozinho”, em referência ao cântico do Liverpool “You’ll Never Walk Alone”, de Gerry & The Pacemakers.

No discurso que abre o congresso, Ventura deixa um aviso a Rui Rio. “O líder do PS, muito mau líder do PSD, Rui Rio, diz que temos de ser mais moderados. Fico sempre a pensar o que é sermos moderados”, considera Ventura. “Se é para ser uma espécie de CDS 2.0, nós não queremos ser mais moderados, se é para sermos muleta do PSD, não queremos ser mais moderados.” Ovacionado após terminar o discurso, o líder do Chega foi abraçar os secretário-gerais Tiago Sousa Dias e Pedro Pinto, recebeu fogo de artifício e terminou com o hino nacional.

$!III Congresso do Chega, em Coimbra: André Ventura, o líder do partido, discursa na abertura dos trabalhos.
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Segue-se este fim de semana o resto da convenção. Este sábado é dedicado ao debate e votação das moções sectoriais globais e das propostas de alterações aos estatutos, ficando a noite dedicada às intervenções políticas de dirigentes e delegados. No domingo, terceiro e último dia, serão eleitas a direcção nacional, a mesa do congresso, o conselho nacional e o conselho de jurisdição nacional, estando ainda previsto o discurso do presidente da Liga, partido da extrema-direita italiana, Matteo Salvini.

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