Campanha de Costa termina como começou: com o PRR na boca e sem gravata ao peito

Recados à direita e à esquerda marcaram o último dia de estrada de Fernando Medina em Lisboa. Depois da tradicional arruada do Chiado, o candidato da coligação Mais Lisboa fez o balanço das duas últimas semanas: “Foi bonito ver a esperança a renascer.”

Tudo e todos, milhares, a postos para começar a descer a Rua Garrett. Falta António Costa. Enquanto espera, Fernando Medina vai cumprimentando os apoiantes, socialistas e membros do Governo que quiseram demonstrar o seu apoio na recta final da campanha. O eurodeputado Pedro Silva Pereira, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Duarte Cordeiro, e o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, foram alguns dos que marcaram presença.

António Costa chegaria meia hora depois. À medida que o carro se aproxima agitam-se bandeiras, rosas e cartazes, adereços que não podem faltar numa iniciativa de campanha socialista. Nesta, porém, foi outro o acessório, ou a ausência dele, que acabou por ganhar papel de maior destaque, desde que António Costa explicou aos portugueses como se distingue o secretário-geral do PS do primeiro-ministro.

E foi o secretário-geral quem saiu do carro, sem gravata, para que não restem dúvidas sobre quem, no discurso final, acabaria a deixar alertas sobre o aproveitamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Já lá vamos.

Antes disso, num percurso que durou mais de uma hora, Medina, Costa e as mulheres de ambos, bem como Rui Tavares (candidato a vereador pelo Livre), desceram lado a lado, em mangas de camisa, até ao arco da Rua Augusta, último quilómetro da corrida eleitoral.

E não se confunda a beira da estrada com a estrada da Beira. E muito menos o derradeiro quilómetro da volta nacional de Costa com um Costa às voltas por estar na sua derradeira campanha. Numa altura em que muitos – quer apoiantes, quer adversários – acreditam que o primeiro-ministro esteja decidido a comprar o bilhete para Bruxelas e abraçar um cargo europeu, o líder rosa voltou a sinalizar que vai continuar a andar por aí.

Em declarações aos jornalistas enquanto encabeçava o cortejo, Costa recusou que esta seja a sua última campanha. “Última campanha?! Nããã... Ainda temos muitas campanhas pela frente!”, garantiu. Ao cuidado dos jovens turcos que lhe cobiçam o lugar...

Já Medina, um dos que estão na calha para a sucessão no Largo do Rato, parecia ter chegado finalmente ao estádio depois de uma maratona pelas ruas da capital. Ao chegar ao arco da Rua Augusta, e com ares de quem pressente um triunfo folgado no domingo, atirou: “Ao olhar para trás, apetece-me dizer: ‘Vamos começar tudo de novo e falar com todos.’” Era este o estado de espirito do candidato socialista quando o sol se punha e a campanha findava.

Várias vezes interrompido pelos aplausos, Medina não escondeu o optimismo, mas procurou travar a euforia: “Muitas vezes, já aconteceu acharmos que a campanha vai num sentido, sentimos a confiança, as sondagens dizem uma coisa, mas a verdade é esta: nenhuma sondagem vota.”

A última intervenção da campanha durou pouco mais de cinco minutos, mas foi tempo suficiente para criticar os que acenam com “o papão da maioria absoluta” e deixar recados à direita e à esquerda.

Medina afirma que sai desta corrida eleitoral com duas certezas: uma é de que não há à sua direita “qualquer resposta para nenhum dos problemas fundamentais” da cidade; a outra é de que nada do que defende a esquerda teria acontecido “se o Partido Socialista não fosse a grande força na cidade de Lisboa”.

Agora, sim, era chegada a vez de intervir o secretário-geral do partido. Acusado ao longo de toda a campanha de ter misturado os cargos, ao acenar com os fundos do PRR por onde quer que passasse, António Costa confiou na semiótica de uma camisa sem gravata e não hesitou: “O PRR não são milhões de euros em abstracto, mas fundos em concreto para realizar projectos concretos.”

Será graças à chamada bazuca europeia, prosseguiu o líder socialista, “que o metro, de uma vez por todas, vai chegar à zona ocidental de Lisboa”. “É assim que vamos ter mais verbas para termos mais habitação acessível para a classe média e, em particular, para as jovens gerações. Temos uma oportunidade única que não podemos desperdiçar”, reforçou.

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