Autárquicas 2021: quem ganhou e quem perdeu

É raro haver uma eleição assim: com vários vencedores, de diversas forças políticas, por motivos muito diferentes. Mas também houve derrotados evidentes nestas autárquicas em que não faltaram emoções fortes e verdadeiras surpresas. Fica a galeria, com uns e outros.



VENCEDORES

Carlos Moedas

É o principal vencedor político da noite eleitoral. Venceu, desde logo, contra as sondagens. Contrariou as expectativas generalizadas dentro do próprio PSD. E viu até o líder do partido deixá-lo isolado no encerramento da campanha. Torna-se uma figura ainda mais influente no futuro próximo do PSD: Lisboa pode transformar-se num trampolim para outros voos.

Rui Moreira

Terceira corrida autárquica, terceira vitória consecutiva. Um triunfo desta vez mitigado por ter perdido a maioria absoluta, mas continua a ser o mais destacado representante de listas independentes em autarquias do país. Rui Moreira vai gerir o Porto durante mais quatro anos. Mantendo o PS e o PSD, em simultâneo, a larguíssima distância.

José Manuel Silva

À segunda, conseguiu. O ex-bastonário da Ordem dos Médicos – que em 2017 liderou uma lista independente, sem triunfar – impôs-se agora em Coimbra, derrotando um histórico da elite autárquica do PS. José Manuel Silva mantém-se independente, mas beneficiou do apoio do PSD. E de mais seis: CDS, PPM, Volt, RIR, Aliança e Nós, Cidadãos. Todos coligados.

Pedro Santana Lopes

Ele já tinha avisado que ia andar por aí. Cumpriu a promessa. Parece ter sete vidas, como os gatos. Derrotado em 2018 na batalha para a liderança do PSD, vendo afundar-se a sua Aliança quase à nascença, renasce das cinzas para emergir como grande vencedor na Figueira, 20 anos depois. Agora sem sigla partidária, tendo como trunfo apenas o seu nome.

Inês de Medeiros

Em 2017 tinha vencido a Câmara de Almada por escassos 313 votos. Desta vez, Inês de Medeiros amplia a vantagem, vendo os eleitores validarem a sua acção autárquica. E deixando a adversária comunista, Maria das Dores Meira, a uma distância considerável. Foi a maior vitória de sempre do PS neste concelho, histórica praça-forte da CDU.

António Costa

O PS é o maior partido autárquico pela terceira vez consecutiva. Mantém maioria na Associação Nacional de Municípios Portugueses. E conquista ainda mais terreno ao PCP, no Alentejo e na Margem Sul. Mas perde Lisboa, Coimbra, Funchal, Figueira da Foz, Elvas e Horta. Sinais de claro desgaste da governação de António Costa, que liderou a caravana eleitoral socialista.

Rui Rio

Tinha perdido as europeias e as legislativas. Agora perde as autárquicas em termos globais, apesar de o PSD reconquistar Lisboa, Coimbra, Funchal e Portalegre. Mas sai politicamente robustecido deste escrutínio. Em larga medida graças à vitória de Carlos Moedas, seu potencial rival interno. Rui Rio vai aguentar-se na liderança. Resta ver até quando.

Francisco Rodrigues dos Santos

Aposta ganha: mantém as seis câmaras que haviam sido conquistadas pelo CDS em 2017 – tendo agora maioria absoluta em todas. Aumenta o número global de autarcas e reforça a influência em sete capitais de distrito onde o partido concorreu coligado com o PSD, além do Porto, onde apoiou Rui Moreira. Mesmo havendo mais concorrência à direita.

André Ventura

Surge à tangente entre os vencedores. Apesar de ter cometido o erro de colocar a fasquia demasiado alta nestas autárquicas. Mesmo assim, balanço positivo para um partido em estreia num escrutínio para o poder local. Viu o partido implantado a nível nacional. E é a terceira força mais votada em sedes distritais como Santarém, Vila Real e Bragança.

João Ferreira

Dos principais rostos comunistas, é o único com algum motivo para sorrir. Não apenas por ter segurado o lugar de vereador em Lisboa, mas porque reforça a votação anterior, em contraciclo com os resultados globais do seu partido. E por se tornar ainda mais indispensável, a partir de agora, no processo de sucessão de Jerónimo de Sousa à frente do PCP.

Pedro Nuno Santos

O ministro do Equipamento não foi candidato nas autárquicas. Mas é um dos vencedores deste escrutínio: vê sair de cena, como possível adversário interno, um dos seus antagonistas mais prováveis. O resultado em Lisboa torna Medina praticamente inelegível como eventual herdeiro político de Costa. O caminho de Pedro Nuno Santos fica mais desimpedido.

VENCIDOS

Fernando Medina

Recebeu em 2015 o poder em Lisboa que lhe foi transmitido por António Costa, em transição para o governo. Nessa altura, o PS ainda tinha na capital a maioria absoluta que viria a perder em 2017. Quatro anos volvidos, recua muito mais. Fernando Medina, a partir de agora, vê desfeito o sonho de se tornar o sucessor de Costa à frente do partido.

Jerónimo de Sousa

Há quatro anos, a CDU tinha sofrido uma hecatombe, perdendo um terço dos municípios – incluindo Almada, Barreiro e Beja. Agora só recupera dois e vê caírem mais alguns bastiões autárquicos: Loures, Alvito, Montemor-o-Novo, Mora. Tomados pelo PS, seu adversário histórico. Liderança gasta: este desfecho apressa a despedida de Jerónimo de Sousa.

Catarina Martins

Mais de 20 anos após ter sido criado, o Bloco de Esquerda continua sem implantação autárquica digna de registo. Acaba de perder mais uma oportunidade para alcançar tal meta. Continua sem liderar qualquer dos 308 municípios do país e mantém um número residual de vereadores a nível nacional. Poucochinho, como diria António Costa noutros tempos.

Manuel Machado

Presidia à Associação Nacional de Municípios Portugueses – cargo que fazia dele o mais emblemático autarca socialista. Sofre uma pesada derrota em Coimbra, apesar de ali ter recebido o apoio expresso de António Costa, entre promessas de obras que já haviam sido prometidas. Confirma-se o cansaço dos eleitores: Manuel Machado está de saída.

Inês de Sousa Real

Havia expectativas de crescimento do PAN pelo menos em concelhos de cariz mais urbano, começando por Lisboa. Mas os resultados gerais foram seguramente decepcionantes para a nova líder do partido, que falha neste seu primeiro teste eleitoral. As propostas fracturantes dos animalistas parecem seduzir ainda muito poucos portugueses à escala local.

Rui Tavares

Alguns conseguem somar quando se juntam a outras siglas. O Livre confirma nestas autárquicas que faz ao contrário: subtrai, não adiciona. E quando entra em cena o seu fundador, Rui Tavares, isso ainda se torna mais nítido. Coligado com Fernando Medina em Lisboa, garantindo um lugar na vereação logo à partida, contribui para a queda do PS na capital.

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