Amigo de Costa fez lobbying por empresa britânica enquanto era administrador da TAP

Diogo Lacerda Machado, o pronto-socorro do primeiro-ministro, é consultor de uma das empresas do consórcio que vai investir 3,5 mil milhões de euros em Sines. Ao NOVO, o advogado confirma a acumulação de funções, mas recusa revelar desde quanto está a ser remunerado pelos seus serviços.



Sines vai acolher um megacentro de processamento de dados que promete afirmar-se como um dos maiores campi digitais da Europa, mas o investimento de 3,5 mil milhões de euros da Start Campus surge sob controvérsia. Isto porque, apurou o NOVO, o projecto chega a Portugal graças a um “empurrão” dado por Diogo Lacerda Machado, um dos melhores amigos de António Costa, que fez lobbying pela empresa detida pelo fundo de investimento americano Davidson Kempner e pela sociedade britânica especializada em infra-estruturas Pioneer Point Partners quando ainda desempenhava funções como administrador da TAP.

O homem que tem sido o negociador-mor do primeiro-ministro em dossiês delicados - dos lesados do BES à renacionalização da TAP - voltou a ser o broker de serviço. O NOVO sabe que Lacerda Machado foi recrutado por uma das empresas do consórcio, a Pioneer Point Partners, para garantir o empreendimento em Sines e manteve contactos directos com vários membros do Governo ao longo dos últimos meses.

O velho conhecido do chefe do Governo português é consultor da Pioneer Point Partners desde Outubro do ano passado, tendo acumulado esse papel com o cargo de administrador não executivo da TAP (indicado justamente pelo accionista Estado), da qual só saiu em Março.

Contactado pelo NOVO, Lacerda Machado foi evasivo. “Sim, sou consultor da Pioneer Partners”, confirmou o advogado, sem acrescentar mais, recusando esclarecer se vislumbrava algum conflito de interesses entre o exercício simultâneo de funções no board da transportadora aérea nacional e o trabalho como lobista junto do Executivo do PS no qual, como é sabido, tem várias relações de amizade.

De acordo com informações recolhidas pelo NOVO, o consultor da Pioneer Point Partners - que não especificou desde quando é remunerado pela empresa britânica - foi exercendo a sua influência junto de vários membros do Governo. Em reuniões formais teve como interlocutores o secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, o secretário de Estado da Energia, João Galamba, e o secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, Hugo Santos Mendes.

Mais: sentou-se também à mesa com o presidente da Câmara Municipal de Sines, o socialista Nuno Mascarenhas, com o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, António Ceia da Silva (também do PS), e ainda com representantes da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP).“Foram inúmeras comunicações”, confidencia uma fonte conhecedora das negociações, que sublinha ainda o facto de Lacerda Machado ter estado na sessão que serviu para anunciar o avultado investimento da Start Campus no Sines 4.0, que decorreu na sexta-feira passada, 23 de Abril.

O NOVO procurou obter esclarecimentos de António Costa sobre os alegados conflitos de interesses subjacentes à actuação de Lacerda Machado, mas até à hora de fecho da edição não recebeu resposta do gabinete do primeiro-ministro.

O maior desde a Autoeuropa

O investimento no município alentejano, que recebeu a classificação de projecto de potencial interesse nacional (PIN) por parte do Governo, e que ascenderá a 3,5 mil milhões de euros, visa dar resposta às necessidades e à procura crescentes das gigantes tecnológicas, como a Google, a Microsoft, a Amazon ou o Facebook, e funcionará apenas com base em energia verde.

O empreendimento, cujas obras arrancarão ainda este ano, deverá assegurar a criação de 1200 postos de trabalhos qualificados directos e oito mil indirectos até 2025. Está prevista a construção de cinco edifícios com capacidade útil de fornecimento de 450 megawatts de energia aos servidores (90 megawatts cada um).O megacentro de processamento de dados situar-se-á nos terrenos contíguos à recém-encerrada Central Termoeléctrica de Sines.A PLMJ, que assessora juridicamente a Start Campus na criação do empreendimento digital amigo do ambiente, frisou num comunicado que o Sines 4.0 será “um dos maiores centros de dados da Europa”. “A capacidade de geração de energia renovável a custos competitivos em Portugal, e especificamente em Sines, foi um factor decisivo para a escolha do local, permitindo fornecer energia 100% sustentável”, reforçou o escritório de advogados, que constituiu uma equipa multidisciplinar (da qual farão parte quatro dos seus associados) para conduzir este trabalho.

Para que se tenha noção da magnitude do projecto é preciso recuar a 1991, quando foi assinado o contrato que viria a trazer para Portugal o maior investimento estrangeiro de sempre. Quatro anos depois, em Palmela (também no distrito de Setúbal), foi inaugurada a Autoeuropa, que significou a entrada de 450 milhões de contos no país - e que previa a criação de cinco mil empregos de forma directa e outros dez mil por via indirecta.

Em 2020, mesmo num quadro de pandemia, a fábrica da Volkswagen produziu 192 mil automóveis e 20 milhões de peças para outras fábricas do grupo alemão. No total, terá representado 1,4% do produto interno bruto (PIB) nacional e 4,7% das exportações portuguesas.

Artigo publicado na edição do NOVO nas bancas a 30 de Abril de 2021.

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