120 minutos de autárquicas na TV. A barba de Carlos Daniel e o supercalifragilisticexpialidocious de Santana Lopes

“Hora da decisão”, “E agora?”, “A Decisão”, “O Clube” (este último não, esqueçam). São nomes de séries? De novelas? Não. São os nomes que os canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) atribuíram aos vários blocos informativos dedicados aos resultados e análise das eleições autárquicas.



As megaoperações especiais, anunciadas com pompa e circunstância como se de filmes de acção se tratassem, incluíam sondagens “e se isto fossem as legislativas?”, 493 684 repórteres no terreno e mais 407 362 comentadores em estúdio. Eu, de política, percebo pouco. No que toca a televisão também sou medíocre, mas safo-me. Por isso, calhou-me ver (e analisar) os noticiários dos canais generalistas dedicados aos resultados destas eleições.

O critério para esta crónica? Simples. Apesar de a RTP1 começar a emissão dedicada às autárquicas às 19h00, só a partir das 20h00 é que SIC e TVI arrancam com os noticiários dedicados a estas eleições. Por isso, dividi os 120 minutos seguintes (até às 22h00, hora a que a TVI emite a gala do “Big Brother”) em blocos de 20 minutos. Para que a análise seja imparcial, sorteei a ordem pela qual veria os canais.

Explicações feitas, vamos a isto.

20h00 – RTP1

Mesmo antes das 20h00, não consigo passar ao lado de um pormenor: a barba de Carlos Daniel. Não sei se foi de propósito para esta emissão, mas estou a sentir o novo look.

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São oito da noite, menos uma hora nos Açores (sempre quis escrever isto). A RTP arranca com a projecção da abstenção e José Rodrigues dos Santos já está rouco. Alguém dê ao homem um rebuçado São Braz.

Rui Moreira entra em directo, à chegada à sede de campanha, na Avenida dos Aliados, e diz que dormiu “uma soneca” à tarde. Esperemos que não tenha sido vigiado pelo seu guarda-costas com ar de Terry Silver da Wish.

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Estou mesmo a ficar preocupada com a voz de José Rodrigues dos Santos...

Vamos para a sede da CDU. Tudo a regra e esquadro. Sai António Filipe, entra logo música. O timing é quase germânico, caramba.

Agora, o Bloco de Esquerda. O jornalista Pedro Esteves está a dar tudo num fato impecável, cinzento. Como podem ver, estou já a treinar para os Globos de Ouro, que são no próximo domingo.

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Acabou o bloco dedicado às autárquicas, começa o “Telejornal”, e nós vamos pregar para outra freguesia.

20h20 – TVI

Pedro Mourinho e José Alberto de Carvalho voltam a recordar os números da abstenção. Tive alguma dificuldade em perceber em que canal estava porque a TVI estreou um novo grafismo para a noite eleitoral, em tons de dourado, elegante e sóbria. Deviam manter. Fica a dica.

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Intervalo no mundo, só a RTP mantém a emissão (o primeiro canal, por ter financiamento público, só pode ter seis minutos de publicidade por hora, ao passo que os canais privados têm direito a 12). Esta é a hora a que o país está a comer os restos do almoço – por isso, a altura certa para encher o bucho com anúncios a grandes superfícies, automóveis, fornecedores de energia, medicamentos para a azia (muito útil para o final da noite em algumas sedes de campanha) e para as pernas cansadas (idem), lubrificantes para fazer amor. Tantas analogias, tão pouco tempo.

E já lá vão 11 minutos de anúncios...

Finalmente! Mesmo a tempo de uns cinco minutinhos antes de irmos para a SIC.

Fernando Medina diz que não contava com tantos jornalistas à entrada do Pátio da Galé. Pois não, até porque é candidato à freguesia de Pindelo, não faz sentido tanto jornalista [suspiro]. “Vocês querem esgotar todas as conversas da noite?”, diz Fernando Medina, com o sotaque a fugir-lhe para o tripeiro. Podes tirar o homem do Porto...

Momento “Passadeira Vermelha”: adorámos o look preppy da mulher de Fernando Medina, a colocação irrepreensível da camisola amarrada sobre os ombros. 10/10.

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20h40 – SIC

Siga para Paço de Arcos, onde encontramos a emissão na sede de campanha de Carlos Moedas. Ah, agora já estamos no Porto. Mas Rui Moreira já se recolheu (esperemos que não para outra soneca) e perdemos a oportunidade de vislumbrar novamente o segurança do incumbente.

Voltamos a estúdio, onde estão os quatro comentadores da noite (Francisco Louçã, Ana Gomes, Luís Marques Mendes e José Miguel Júdice). Luís Marques Mendes parece algo chateado por não ter o seu espaço dominical a solo. Clara de Sousa (que, recorde-se, vai apresentar a gala dos “Globos de Ouro” do próximo domingo) impecável num fato preto com um medalhão dourado.

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Dos senadores para o grande trunfo da SIC (e a arma para tentar conter o porta-aviões “Big Brother”): Ricardo Araújo Pereira. À mesa com Rodrigo Guedes de Carvalho, que faz um teasing maroto com as sondagens.

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Ricardo Araújo Pereira fala sobre a relativização das autárquicas em detrimento das legislativas e faz-me lembrar um certo tweet que Rui Rio fez esta tarde...

Rodrigo Guedes de Carvalho passa a bola para Bento Rodrigues e sai o gráfico! Não do expulso, mas da evolução dos partidos ao longo das autárquicas desde 1976. E gostávamos de ver Bento Rodrigues a dissecar, num ecrã interactivo, os resultados da votação dos nomeados do “Big Brother”. Um dia.

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21h – TVI

São 21h00 e é em Queluz de Baixo que vamos apanhar as projecções... 3,2,1... Lisboa. E Fernando Medina a tremer. Ui, isto vai aquecer e José Alberto de Carvalho fala em “empate”. Directos simultâneos para as sedes de Medina e Moedas, e parece que já chegou o dia 1 de Outubro. Está tudo em cima de cadeiras.

A campanha de Carlos Moedas parece uma noite na saudosa Kapital, tal é a quantidade de camisas e calças de vinco. Vemos um rapaz a whatsappar furiosamente e questionamo-nos o que vai para ali.

Já o ambiente na sede de campanha de Fernando Medina parece o de um casamento às cinco da manhã, em que toda a gente já trocou os sapatos por ténis e está com vontade de ir para casa antes que a coisa azede. Mas, como disse Fernando Medina, a noite vai ser longa.

De volta a estúdio, Sara Sousa Pinto está com o painel de comentadores: Sérgio Sousa Pinto, Miguel Sousa Tavares e Manuela Ferreira Leite. Sousa Tavares, de braços cruzados, parece estar a ler a mente de Luís Marques Mendes.

Parámos para ouvir Manuela Ferreira Leite, que elogia a “ousadia” de Carlos Moedas (palavra que nunca associaríamos ao candidato).

21H20 – SIC

De volta à SIC, de volta a Coimbra. Fala José Silvano e Clara de Sousa tem de interromper José Miguel Júdice. “Não me diga que ele vai estragar o meu número?”, brinca o antigo bastonário da Ordem dos Advogados. LOL. #soquenao.

“Luís, eu sou o Luís”, diz Luís Marques Mendes. Clara de Sousa já está assoberbada com tanto comentador e troca os nomes próprios.

São 21h26 e começo a achar que das duas, uma. Ou a TVI atrasa a gala do “Big Brother” ou arrisca-se a perder para a SIC que, além do suspense eleitoral em Lisboa, tem também RAP em estúdio. Quem irá ganhar as audiências? Isso só saberemos amanhã.

Intervalo no mundo, já com certezas da eleição em Coimbra e em Almada.

21h40 – RTP1

José Rodrigues dos Santos já deve ter esgotado o stock de Mebocaína da Marechal Gomes da Costa porque recuperou a voz. E esta parece (a esta hora, claro) a noite dos underdogs, porque até o CDS-PP está a cantar vitória.

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Na sede da CDU, João Oliveira tenta fazer um spin maluco às projecções, com um ar de felicidade que até parece que o partido conquistou uma câmara no Cavaquistão.

Vejo em rodapé que Santana Lopes é eleito na Figueira da Foz e já sinto o odor a El Charro e a charuto às cinco da manhã no Stones.

João Soares e Miguel Poiares Maduro peroram sobre as projecções e tenho de reforçar o que já disse no início: estou fascinada com a barba de Carlos Daniel. Nunca esperei dizer isto, mas Bento Rodrigues está a perder a pole position no meu top de pivôs sexy.

Ah, a sede do Chega. Que musiqueta é aquela que soa na sede do Chega? Máscaras na sede do Chega? Nem vê-las. Nem uma. Clássico. Um verdadeiro covidário, onde nem sequer faltam criancinhas a bater palmas por Ventura. #arrepio.

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Agora, eis o rei da noite! Pedro Santana Lopes. Já tinha saudades, confesso. O ex-primeiro-ministro/presidente do Sporting/presidente da Câmara da Figueira da Foz parte 1/presidente da Câmara de Lisboa/etc., etc., etc. regressa à vida política activa. Ele andou por aí, andou, andou, andou e chegou onde foi já feliz: à Figueira.

“Cair e levantar”, diz, referindo-se ao que é a vida. Santana cita Mary Poppins, diz que a sua vitória é “supercalifragilisticexpialidocious” e já comenta tudo, desde a saída do PSD até ao sofrimento dos portugueses na pandemia. Não há como não amar este homem. Que belo momento de televisão. Se é bom para a Figueira? Isso, agora, não interessa nada.

Tal como prometido, às 22h00 terminámos esta análise. A malta dos temas sérios trata do que interessa que eu vou tratar de ver o “Big Brother”.

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