Saúde mental. Um em cada cinco portugueses cai nas malhas da depressão

Em alta, a ansiedade e a depressão já representam 22,5% das patologias identificadas no país. A pandemia agravou o quadro que a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) atribui à falta de investimento e especialistas.



Sem um investimento na promoção da saúde e na prevenção das doenças do foro mental, o estado psicológico dos portugueses tem tendência a agravar-se. O aviso da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) acompanha o estudo epidemiológico sobre a saúde mental “Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade dos cuidados de saúde primários”, que conclui que 22,5% - um em cada cinco - dos cidadãos nacionais desenvolve, sobretudo, quadros depressivos e de ansiedade.

“Na realidade, vários estudos reportam um aumento dos problemas de saúde psicológica (nomeadamente de ansiedade e depressão) entre os jovens e os adultos (sobretudo aqueles que ficaram desempregados, os pais e mães que tiveram de conciliar o cuidado de menores com a vida profissional, os profissionais de saúde, e pessoas com vulnerabilidades psicológicas prévias)”, mostra o documento divulgado na semana em que o Serviço Nacional de Saúde completa 42 anos.

Efeito pandémico

Mais. Realizado entre os confinamentos impostos pela propagação do novo coronavírus, o estudo garante que não só a “pandemia veio agravar a situação” mental do país, como “um terço de todas as mortes podiam ser atribuídas a riscos comportamentais (por exemplo, hábitos alimentares, tabagismo, consumo problemático de álcool, obesidade, sedentarismo ou acidentes).

Marcado pela hecatombe financeira associada ao encerramento forçado de vários sectores de actividade, este período interferiu inclusivamente na alimentação dos portugueses. Quatro em dez assumem que passaram a comer pior, num momento em que a actividade física recuou para metade. Com o teletrabalho a prejudicar as relações interpessoais, as dificuldades de conciliação da vida profissional e pessoal também deixam cicatrizes no estado mental do país.

Faltam especialistas

Com apenas 250 psicólogos a actuar dos centros de saúde, o país está longe dos rácios recomendados. Em vez de um especialista para cada cinco mil utentes, há actualmente 2,5 psicólogos para cada 100 mil utentes. Feitas as contas, o SNS precisaria de 20 vezes mais profissionais no activo para atingir a meta.

Uma contradição já que, segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, existem 24 mil psicólogos registados no país - 5 mil com especialidade em psicologia clínica e da saúde e 1.345 com uma especialidade avançada em psicoterapia.

O caminho, diz a Ordem, passa por cumprir o Plano de Recuperação e Resiliência (PPR), através a criação de “núcleos de Psicologia onde ainda não existam”, com especial enfoque na prevenção e no diagnóstico precoce.

Em Julho, a OMS já alertava para o “impacto prolongado” da pandemia na saúde mental a nível mundial. “Da ansiedade ligada à transmissão do vírus ao impacto psicológico dos confinamentos e do isolamento às consequências sobre o desemprego, as dificuldades financeiras e a exclusão social, toda a gente foi afectada de uma forma ou de outra”, avisava o organismo especializado em saúde pública.

Ler mais
PUB