Pedrógão Grande: dezenas de casas reconstruídas têm apenas o vento por inquilino

São mais de 20 as casas reconstruídas com fundos solidários que estão ao abandono e alguns dos donos estão acusados de burla. Presidente da associação das vítimas dos incêndios critica o mau uso do “dinheiro de sangue e de morte”.



O casarão revestido a pedra com seis janelas, de barras amarelas e grande portão de quinta, dá nas vistas. Fica no cimo da Rua Quebra Costas, na aldeia de Várzeas, Vila Facaia, Pedrógão Grande, um lugar onde “morreram nove pessoas da mesma família” nos incêndios de Junho de 2017. Há quem lhe chame pejorativamente “o T10” e quem na aldeia jure a pés juntos que aquilo era “para turismo” e que os donos “não viviam ali antes do incêndio”.

O Ministério Público acusa os donos da residência, o casal Maria Manuel e Joaquim Colaço, de 74 e 75 anos, de burla qualificada e falsificação de documento, e alega que o ex-vereador Bruno Gomes ajudou o casal no pedido de apoio quando sabia que a casa era para turismo de habitação. Segundo a acusação, eles não viviam ali e alteraram o domicílio fiscal para terem direito ao apoio financeiro de 182 548,23 euros. Esta é uma das casas reconstruídas no concelho de Pedrógão Grande que estão abandonadas, sem chaves entregues, à espera da conclusão do processo judicial que visa os proprietários por crimes como burla e fraude. São 13 nestas condições. Depois há outras seis habitações permanentes também remodeladas mas cujos donos foram para lares de idosos e outras ainda que têm apenas um uso esporádico. No total há mais de duas dezenas de casas no concelho habitadas apenas pelo sol e pelo vento há três anos, como o NOVO constatou em reportagem. Mas no grande bolo de apoios - entre Fundo Revita, Cruz Vermelha Portuguesa e outras entidades - foi financiada a reconstrução de 259 habitações nos três concelhos afectados pelos incêndios de Junho de 2017: Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos.

“Nunca cá vinham”

O casarão de pedra e barras amarelas na Rua Quebra Costas causa indignação nas pessoas da aldeia de Várzeas. “Naquela casa nunca viveram, vinham cá de ano a ano, um dia ou dois. Agora devem estar para Lisboa e à espera que a chave seja entregue. Aquilo está acabado. Houve dinheiro para uns e não houve para outros. Ainda se lá vivessem...”, lamenta José Carvalho, 64 anos, nascido em Várzeas, lugar onde se casou e teve filhos e onde viu gente de quem gostava desaparecer nas chamas infernais de 2017.

Joaquim Colaço, o dono do casarão, não estava na aldeia, mas falou com o NOVO por telefone para dar a sua versão do projecto de sonho que, alega, tinha para a casa. “Eu e a minha mulher somos arguidos no processo. Por causa disso, não nos entregaram as chaves nem pudemos acabar a obra por dentro. Estamos a viver em Lisboa. Nunca pensámos na casa para turismo de habitação. Somos reformados e trabalhámos toda a vida. Neste sítio investimos, ao longo de 20 anos, tudo o que tínhamos para passarmos o resto dos nossos dias com a família”, conta.

As recordações do incêndio e da tragédia familiar voltam em sobressalto. “Quando nos reformámos houve o fogo. As nossas mães morreram entretanto, com Alzheimer. Tínhamos pensado fazer aqui um bom espaço para elas, para viverem connosco. Foi um desgosto muito grande, perdemos tudo depois de 20 anos a trabalhar na casa. Ali estavam as cinzas dos nossos antepassados, recordações de família, mobiliário, bibliotecas...”

A fachada e o interior da casa foram consumidos pelas chamas. Mas a maior dor foi a perda de pessoas queridas. “Tinha nove amigos de uma família que morreram todos, eram os nossos melhores amigos. Fugiram de casa e morreram os avós, os filhos, os netos. O patriarca dessa família foi quem nos vendeu a casa, que comprámos em ruínas.”

“Dinheiro de sangue e de morte”

No coração da aldeia de Nodeirinho, onde a fonte e o tanque salvaram a vida a várias pessoas, lamentou-se a perda de 11 filhos da terra. Ali, duas casas foram reconstruídas como habitação permanente, mas nenhum dos requerentes foi acusado de burla. É em Nodeirinho que vivem Dina Duarte, presidente da Associação das Vítimas de Pedrógão, e os poucos habitantes que restam.

Rodeada dos seus cães, Dina solta a emoção ao remexer nas feridas. “O processo judicial por causa da reconstrução causou mau ambiente porque as pessoas ficaram a saber de casos injustos. Ficámos todos muito consternados e com um murro no estômago, porque os portugueses foram solidários. E utilizar este dinheiro, que é um dinheiro de sangue, de morte, de sofrimento, e que veio com o objectivo concreto de ajudar uma população e, depois, nunca foi para as vítimas, foi todo para o território.”

A menos de dez quilómetros dali fica a aldeia de Troviscais Fundeiros, freguesia de Pedrógão Grande, outro lugar nas serranias a ter o vento como inquilino principal.

Na Rua Cabeço da Fonte há uma casa que chama a atenção pelos sinais de vida: roupa estendida, uma cadela nas escadas para o primeiro andar e um Mercedes à porta. O prédio foi reconstruído e tornou-se habitação permanente depois dos incêndios. Ao cimo das escadas, a proprietária, Maria de Lurdes Palheira, 61 anos, mostra-se agastada, entre os latidos da cadela Nina e as perguntas sobre o processo judicial. “Eu não sou arguida, sou testemunha, fui ilibada de suspeitas.” Assim é. Maria de Lurdes é testemunha e os suspeitos na atribuição do apoio à sua casa são os arguidos Valdemar Alves e o ex-vereador Bruno Gomes. Quando aconteceram os incêndios, Maria de Lurdes tinha por residência habitual a casa do marido (acamado na altura e entretanto falecido) na Rua 5 de Outubro, em Pedrógão Grande, segundo a acusação. O MP também indica que uma funcionária do GORR (Gabinete Operacional de Recuperação e Reconstrução) questionou o vereador Bruno Gomes sobre a falta de legitimidade da requerente para obter apoio e este respondeu-lhe que “era para ver se se construía mais uma casa para Pedrógão”. Foi a câmara quem confirmou que o prédio corresponde a habitação própria e permanente.

Sentada no alpendre com um tecto recuperado, Maria de Lurdes conta a sua história. “Na realidade, a minha casa era esta. O meu marido estava doente, tinha casa em Pedrógão e lá ficámos porque ele tinha de ir todos os dias ao hospital, em Coimbra. Quando a casa de Troviscais, que é da minha família, estivesse pronta, mudaríamos os dois para lá. Entretanto, o meu marido morreu. Aqui dentro ardeu tudo, até fotos do meu pai. Mas enfim, estou em vias de ir a tribunal e não gosto de falar disto.”

O julgamento foi retomado esta semana.

Maria de Lurdes prossegue o relato. “A Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) chegou a enviar-me uma carta a pedir para ser ressarcida do prejuízo, mas foi por engano, porque depois vieram pedir desculpas. Ainda tive de arranjar advogada para resolver esse assunto. Paguei os 530 euros só para abrir o processo porque a CVP sabia bem que eu não era arguida.”

Terra “da máfia calabresa”

Mas não houve o mesmo lapso nas outras habitações referidas pela acusação do Ministério Público, algumas autênticos palacetes que se destacam no cimo de encostas verdejantes e com vistas desafogadas e espaços vazios. É o caso da enorme residência branca de Amadeu Silva, na Rua da Escola, em Mosteiro, Pedrógão Grande. Do muro para baixo, ainda se avistam terrenos queimados e os únicos habitantes são as ervas aromáticas no terreno da casa. Quem atendeu a chamada do NOVO foi a mulher de Amadeu, Maria Lídia: “Também estou no processo e não vou falar disso”, disse, com a voz embargada. Segundo o MP, os arguidos, acusados de burla qualificada e falsificação de documento, não residiam no imóvel, o qual pertencera aos pais de Amadeu, nem ali passavam férias ou fins-de-semana. Há mais de 40 anos que vivem em Coimbra, a morada oficial, sustenta a acusação. Outra situação de alegado aproveitamento foi a casa de Carlos Martins, na Travessa dos Lopes, em Vila Facaia, que servia de armazém há vários anos. Carlos e a mulher residem numa vivenda na rua em frente. Segundo o MP, o arguido inscreveu a casa da Travessa dos Lopes como habitação permanente do filho deficiente, Bruno, o qual é funcionário da Câmara de Pedrógão e conhecido dos arguidos Valdemar Alves e Bruno Gomes. À porta, apenas vasos com plantas secas. A mulher de Carlos Martins, Maria Cristina, atendeu o telemóvel do marido: “O meu marido está muito doente. O meu filho é que mora nessa casa”, disse, a apressar o fim da conversa.

Victor Reis, antigo presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), de 2012 a 2017, não poupa críticas ao presidente da Câmara de Pedrógão e ao ex-vereador Bruno Gomes, ambos arguidos. “São mais de duas dezenas as casas ao abandono no concelho de Pedrógão, entre primeiras e segundas habitações. Há as casas que estavam em ruínas e que nem segundas habitações eram e que estão sem uso.”

“O vereador Bruno Gomes é um malfeitor que foi para a comissão de inquérito parlamentar com a conversa do estigma de Pedrógão. Quando há uma terra com a máfia calabresa, o povo é o da máfia calabresa. O problema não é do povo de Pedrógão, mas de quem o governa.” Victor Reis lembra que Pedrógão Grande tem uma característica que o distingue de outros casos similares: a “onda de solidariedade nos donativos como nunca se tinha visto em Portugal”.

Em relação à decisão da comissão parlamentar sobre as segundas habitações, Victor Reis assinala: “Vai haver um problema. O Parlamento aprova o relatório da comissão de inquérito e recomenda que o Governo encontre o regulamento legal para apoiar a reconstrução das segundas habitações. Ora, os municípios não têm condições financeiras para assumir a responsabilidade. E uma boa parte dessas casas são de emigrantes ausentes da terra.”

*Reportagem originalmente publicada na edição do NOVO nas bancas a 16 de Abril de 2021

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