O banco onde os depósitos são tecidos e amostras humanas

O Biobanco do Instituto de Medicina Molecular está a comemorar dez anos. Neste tempo processou e armazenou 244 mil amostras humanas, que vão do sangue a pedaços de tumores. Estão distribuídas por 58 colecções que incluem 11 áreas clínicas e terapêuticas, como neurologia, reumatologia, cardiologia, oncologia e pediatria. O objectivo é serem usadas por investigadores na busca de curas.



Todos os dias, Ângela, Ionela e Andreia atravessam os escassos metros que separam o Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) e o Hospital de Santa Maria. Quando regressam ao laboratório trazem na geleira amostras humanas, que tanto podem ser sangue, ossos, pele, tecidos de tumores como simplesmente urina - amostras que vão ser processadas e armazenadas no Biobanco-iMM Centro Académico de Medicina de Lisboa (CAML) para posteriormente serem requisitadas para investigação biomédica e ajudarem na cura e tratamento de doenças.

Debruçada sobre a bancada, Ionela Toader processa a amostra de um meningioma, um tumor do sistema nervoso central. Um tecido rosado, com aparência esponjosa, que maneja com perícia e que em poucos minutos estará congelado com azoto líquido a 196 graus negativos para ser armazenado até que o médico que pediu a sua conservação o requisite para investigação.

O processo que antecedeu o tratamento desta amostra é simples: o médico fala com o doente e, depois de obter o seu consentimento informado, cumprindo as regras da protecção de dados, contacta o Biobanco. No dia da extracção da amostra, seja através de cirurgia ou de biópsia, seja por outro método mais simples, uma das três técnicas do laboratório irá recolher o material humano. Que depois será tratado - de uma única amostra podem ser extraídas várias, como soro, plasma, RNA, ADN, células ou proteínas, que serão depois guardadas em arcas a 80 graus negativos e em enormes potes de azoto líquido a menos 180 graus. O pedido mais estranho que receberam foi para guardarem um pedaço de cabelo, de onde foi extraído ADN, embora esta amostra tenha sido guardada à temperatura ambiente.

Não há recolha de amostras post mortem, apenas de dadores vivos, sejam eles doentes ou saudáveis.

O Biobanco-iMM Centro Académico de Medicina de Lisboa, que está a comemorar dez anos de existência, tem um único objectivo: promover investigação biomédica de qualidade, através da partilha de material biológico representativo de várias doenças humanas. E assim ajudar a responder a questões relevantes do ponto de vista clínico, científico e da saúde pública.

Menos amostras seria melhor

Grosso modo, funciona como um “armazém” de amostras onde os investigadores vão buscar matéria-prima para desenvolver os estudos. Daqui já resultaram dezenas de artigos científicos, publicados em revistas de especialidade. Desde que o Biobanco foi criado, em 2011, no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM) foram processadas e armazenadas 244 mil amostras, doadas voluntariamente por 24 mil dadores. As amostras estão distribuídas por 58 colecções que incluem 11 áreas clínicas e terapêuticas, entre elas neurologia, reumatologia, cardiologia, oncologia e pediatria. Em 2020 destacou-se por ser um dos primeiros biobancos do país a criar uma colecção de amostras de doentes com covid-19, contribuindo para inúmeros projectos de investigação e publicações.

Há muito tempo que o Biobanco ultrapassou a sua capacidade. O ideal era que tivesse menos amostras armazenadas porque isso seria sinal de que haveria mais requisições. “Temos tentado aplicar uma regra: se a amostra tem mais de cinco anos sem nenhuma utilização é porque há pouco interesse científico, e contactamos a pessoa responsável pela criação da colecção. Os biobancos não são armazéns ou depósitos, têm de ser estruturas dinâmicas”, diz o co-director Sérgio Dias, reforçando que só assim podem garantir material para investigação biomédica de qualidade.

O co-director do Biobanco, em parceria com Cláudia Coelho Faria, diz ainda que há anos em que a requisição de amostras fica aquém do desejado. E aponta duas razões para isso acontecer: “Por um lado, ainda existe, a nível nacional, défice de conhecimento sobre o potencial do biobanco; por outro, há uma falta de financiamento crónica para projectos de investigação. O financiamento para a actividade biomédica tem decrescido.”

Nestes dez anos de existência, o Biobanco já recebeu 436 pedidos de investigadores nacionais e internacionais para utilização de amostras armazenadas - e se a sua vocação é, em primeiro lugar, responder aos investigadores portugueses, a verdade é que já colaborou com muitos pedidos internacionais, que vêm de países tão longínquos como Austrália, Estados Unidos, Canadá ou Brasil, e outros europeus, como Alemanha, Espanha, Reino Unido e França. O Biobanco-iMM CAML participou em cerca de 50 publicações científicas e permitiu o desenvolvimento de várias teses de mestrado e de doutoramento.

Ajudar a encontrar respostas

Além de armazenar e processar amostras biológicas, o Biobanco disponibiliza uma variedade de serviços que facilitam o desenvolvimento de projectos de investigação, como a cultura primária de fibroblastos (células da pele) e a sua posterior reprogramação em células estaminais pluripotentes (iPSC). Estas células têm múltiplas aplicações em investigação biomédica como, por exemplo, ajudar a compreender como se formam os tumores e a desenvolver novas terapêuticas.

Ao fim de um dia de trabalho, Ângela Afonso, Ionela Toader e Andreia Lopes podem ter separado 100 amostras provenientes de dez dadores. Licenciadas e mestres em áreas como biomédica e bioquímica, não lamentam que a sua tarefa seja tratar e armazenar as colecções. Pelo contrário, lembram que é graças ao seu trabalho que são criadas condições para se fazer investigação de qualidade. Estão no backstage, a preparar o trabalho dos investigadores, e já viram a sua participação mencionada em alguns artigos. Ângela Afonso, que coordena o laboratório, resume: “Não estamos à procura da resposta, mas ajudamos a encontrá-la.”

Artigo publicado originalmente na edição impressa do NOVO de 1 de Outubro de 2021.

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