Especialista defende testagem diária de crianças por saliva para combater contágio

Tiago Correia diz que testes ao fim de três dias de ser conhecido um caso positivo na sala de aula expõe crianças à infecção e alerta para aumento de hospitalizações noutros países. A pediatra Maria do Céu Machado desdramatiza.



Por isso, critica a mudança da norma de testagem da Direcção-Geral da Saúde, que, no seu entender, não procurou soluções intermédias. “Passámos de uma política que era o 80 - havia um caso positivo e as crianças iam para casa indiscriminadamente - para uma política em que as crianças, quer sejam vacinadas, quer não, são contactos de baixo risco na sala de aula e fazem um teste até ao terceiro dia. Isto expõe muito as crianças à infecção e a testagem não é suficientemente intensa para nos ir permitindo perceber a disseminação do vírus.”

Ainda que faça questão de deixar claro que a testagem por saliva é falível, continua a entender que seria a melhor forma de controlar as infecções entre os mais pequenos, como já é feito noutros países. O protocolo passaria por uma testagem diária por saliva, colectiva, às crianças de uma sala onde se registasse um caso positivo. A partir do momento em que essa testagem colectiva identificasse carga viral, as crianças seriam testadas pelo método tradicional.

A pediatra Maria do Céu Machado também considera que os testes por saliva seriam preferíveis aos nasofaríngicos. A ex-presidente do Infarmed, que chegou a integrar a Comissão Técnica de Vacinação, considera, contudo, que não há interesse em avançar com esse método, por ser caro.

E se em relação aos testes salivares concorda com Tiago Correia, já em relação à testagem ao fim de três dias tem uma opinião diferente: “No início achávamos que o período contagioso era entre o quinto e o 14.º dia, e daí que tenham surgido os testes ao quinto dia e o isolamento até ao 14.º. Esta variante é completamente diferente, é mais contagiosa e contagia mais rapidamente. Testar até ao terceiro dia é um meio-termo aceitável e consensual.” Até porque, sublinha, a probabilidade de quem contacta com um positivo ficar infectado no próprio dia não é assim tão grande, já que muitas vezes não houve replicação viral e o teste pode ser negativo.

Internamentos e mortes

Maria do Céu Machado faz questão de frisar que não tem a certeza de que haja mais casos de crianças infectadas com a Ómicron, acredita que seja apenas proporcional ao maior número global de infecções. Da mesma maneira que também não tem certeza absoluta de que esta variante seja mais grave nos mais novos. “Ainda não há evidência para se poder afirmar isso com rigor académico e científico. Nos Estados Unidos, os internamentos de crianças com esta variante duplicaram - eram mais ou menos 0,47 por 100 mil e agora são 0,93 por 100 mil. Mas o que aconteceu e está a acontecer em vários países, nomeadamente Portugal, é que são contabilizadas as crianças positivas que estão no hospital com uma apendicite ou partiram uma perna.”

É também o aumento de hospitalizações pediátricas nos EUA e no Brasil que Tiago Correia refere para sustentar a sua tese. “Uma coisa que vejo de forma errada nesta discussão é que comparamos as crianças com os mais velhos, quando é incomparável. Se olharmos exclusivamente para as doenças na área da pediatria, a covid está a ser cada vez mais importante. Nos EUA e no Brasil já está entre o top 10 das causas de morte específicas, com causa primária covid. Por isso, é errado assumir que não é uma doença que afecta também as crianças.”

Em Portugal morreram de covid, até sexta-feira 14 de Janeiro, três crianças dos zero aos nove anos e outras três dos 10 aos 19, num total de 19 237 óbitos.

$!Especialista defende testagem diária de crianças por saliva para combater contágio
Ler mais
PUB