Dados de refugiados ucranianos eram exigidos pelo SEF e pela autarquia, garante casal russo

No centro da polémica com o acolhimento dos refugiados ucranianos em Setúbal, Igor e Yulia Khashin lamentam ver o trabalho de mais de 20 anos posto em causa e garantem não ter enviado qualquer dado às autoridades russas.



Igor e Yulia Khashin, casal russo no centro da polémica com o acolhimento dos refugiados ucranianos em Setúbal, afirmaram esta sexta-feira que os documentos pedidos aos refugiados eram para a autarquia e para o pedido de protecção temporária ao SEF.

Numa entrevista aos jornais Público e Setubalense, o casal defende-se das acusações dizendo o SEF requer obrigatoriamente estes dados e realças que o atendimento de refugiados era intermediado por um técnico da autarquia no âmbito do atendimento social.

“Estávamos sempre acompanhados por uma portuguesa. Era ela quem preenchia os formulários. Foram tiradas fotocópias do passaporte e da certidão de registo de proteção temporária, que foram juntas ao processo e guardadas na câmara”, explica Yulia Ksashin.

“Temos de digitalizar os documentos e anexar na plataforma. As questões, colocadas pela plataforma do SEF, e não por nós, são o nome da mãe, nome do pai, local de nascimento, agregado familiar. Tem de ir tudo preenchido”, acrescenta a mulher de Igor Khashin.

O casal, que reside em Portugal há mais de 20 anos, garante que os processos, em papel, eram guardados no gabinete da câmara e que o único sítio para onde foram encaminhados foi para o Instituto de Emprego e Formação Profissional, para inscrição no curso de português.

Igor rejeitas as acusações de ser um espião russo e assegura não ter enviado dados para qualquer autoridade russa, incluindo a embaixada. Quando falavam com as pessoas sobre a família, acrescenta, era porque muitas perguntavam como os familiares podiam sair da Ucrânia.

“Nós moramos cá há mais de 20 anos, a nossa associação foi fundada em 2002 para dar resposta às necessidades dos imigrantes, trabalhamos com todos. A maior parte da associação são imigrantes do Leste, sendo a maioria ucranianos, moldavos e russos. Mas russos são muito poucos”, conta, justificando que decidiu participar no acolhimento de refugiados ucranianos porque só assim mostrava a sua vontade de ajudar.

Sobre o facto de falar com os refugiados ucranianos em russo, assume que sim, mas lembra que no Leste da Europa, o russo “é praticamente como o inglês na Europa ocidental”, uma “língua de comunicação, de instrumento”.

“Nós nem pensámos nessa questão, de quem vai atender os refugiados, se russos ou ucranianos. Não pensámos mesmo. Havia uma situação de urgência que ninguém esperava”, acrescenta a mulher de Igor.

Sobre o facto de ter dirigido o Conselho de Compatriotas Russos, explica que “é igual ao Conselho das Comunidades Portuguesas”.

“O objectivo deste conselho não é mais nem menos que o mesmo que faz o Estado português. Há a Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas. Este trabalho é o que faz qualquer Estado. Quando recebia o convite para participar em conferências, eu ia e trazia as necessidades e as questões dos imigrantes”, justifica.

O casal, cuja associação atendeu milhares de imigrantes em 20 anos, “a maioria ucraniana, porque é a comunidade mais representada”, garante que tudo foi feito “com boa intenção e de acordo com os procedimentos estabelecidos” e lamenta estar nesta situação.

“Ficámos numa situação em que nós é que temos que provar que não somos maus. Fiquei chocada. O nosso trabalho de 20 anos foi destruído num dia”, concluiu. Sobre a guerra na Ucrânia, afirmam tratar-se de “uma tragédia”.

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