Crédito de 54 milhões a empresa de Vieira mostra “sérios indícios de crédito de favor”

Quem o diz é o presidente do Novo Banco, que defende que o problema da Imosteps vem desde os financiamentos do BES. António Ramalho diz que Vítor Fernandes não tomava decisões sozinho e admite ter tido “alguns contactos” relacionados com Vieira e o grupo Promovalor, mas não ser sócio do Benfica nem ter “qualquer relação especial” com o ex-presidente do clube.



António Ramalho, presidente do Novo Banco, alega que os sucessivos financiamentos à Imosteps - a empresa de Luís Filipe Vieira que está no centro da investigação do Ministério Público e da Autoridade Tributária - mostram “sérios indícios de crédito de favor desde a origem”. Isto porque, segundo Ramalho, o valor do crédito da Imosteps “não correspondia ao seu valor nominal” de 54 milhões de euros.

Em resposta a pedidos de esclarecimento adicionais sobre a Imosteps, feitos por deputados do Partido Socialista (PS) e do Partido Social Democrata (PSP), António Ramalho alonga-se sobre o papel de Vítor Fernandes, o ex-administrador do Novo Banco que foi apanhado em escutas telefónicas e que alegadamente terá passado informações privilegiadas a Luís Filipe Vieira.

Na missiva enviada à CPI, e à qual o NOVO teve acesso, o presidente do Novo Banco desvaloriza eventuais contactos entre Vítor Fernandes e o então presidente do Benfica ou entre Vítor Fernandes e empresários que alegadamente seriam intermediários de Vieira: “Relativamente às questões relacionadas com a existência de contactos entre o Novo Banco e o senhor Luís Filipe Vieira, a Promovalor, a Imosteps e respectivos representantes, não podemos deixar de notar que, sendo clientes do banco e com uma exposição relevante, é uma prática bancária normal e saudável a existência de um acompanhamento regular dessas relações bancárias por parte das respectivas estruturas comerciais e, também, por parte da administração do banco.”

No final da carta enviada aos membros da CPI, Ramalho admite até, numa nota adicional “de cariz não institucional mas em benefício da total transparência”, ter tido alguns contactos relacionados com Vieira, com a Imosteps e com o grupo Promovalor, mas diz não ter relações especiais com o ex-presidente do Benfica: “Com exclusão de alguns contactos havidos nas circunstâncias acima descritas, o Presidente do Conselho de Administração Executivo do Novo Banco não é sócio do Sport Lisboa e Benfica, nem integra ou integrou qualquer Comissão Eventual de qualquer sócio à presidência do Sport Lisboa e Benfica, não tendo qualquer relação especial com o referido cliente”.

Ramalho reforça ainda que, para o Novo Banco, “a proposta da Iberis não configurava qualquer situação de conflito de interesses, caso contrário, a mesma não teria sido aprovada pelas estruturas internas competentes e recomendada ao Fundo de Resolução”.

Recorde-se que segundo o despacho das medidas de coacção de Carlos Alexandre, Vítor Fernandes terá informado Vieira de que a dívida da Imosteps seria integrada no pacote de mal-parado denominado Nata 2 e que, se existissem outras propostas, o seu nome não podia aparecer, sob pena de essas propostas serem chumbadas. O mesmo despacho diz que Luís Filipe Vieira e o seu filho, Tiago Vieira, também detido e constituído arguido na operação “Cartão Vermelho”, terão então encetado contactos junto de amigos empresários como José António dos Santos, conhecido como “Rei dos Frangos”, para que comprassem a dívida da Imosteps através de um fundo: a Iberis Semper. Essa proposta viria a ser chumbada pelo Fundo de Resolução (FdR) porque, segundo o juiz e segundo o Ministério Público, o FdR percebeu que o beneficiário efectivo do fundo tinha uma ligação ao devedor.

Ainda nas respostas enviadas ao Parlamento esta quinta-feira, 22 de Julho, Ramalho esclarece que Vítor Fernandes tinha responsabilidade de gestão comercial “de todas as áreas de empresas do banco, com excepção das acompanhadas pelas áreas de recuperação”, o que correspondia a 16.915 clientes. Ainda assim, admite, todas as decisões eram “colegiais”.

Não conseguindo “discriminar, em tempo útil, todos os contactos havidos com o Universo Luís Filipe Vieira”, o homem que lidera o Novo Banco admite ser “de esperar, dada a importância da sua exposição creditícia, que tenham existido contactos frequentes a cargo do DACI e, posteriormente, do DSAE. O Departamento de Acompanhamento de Crédito Mobiliário (DACI) era dirigido por João Castro Simões e o administrador com o pelouro era Vítor Fernandes. Desde Fevereiro de 2017, estes temas passaram a ser acompanhados pelo Departamento de Seguimento e Acompanhamento de Empresas (DSAE), com Vítor Fernandes a ser o administrador com o pelouro deste departamento até à sua saída do Novo Banco, em Novembro de 2020. “Recorde-se que sendo o sr. Luís Filipe Vieira presidente do Benfica, também cliente do banco, também a esse propósito poderão ter existido contactos”, reforçou Ramalho.

Há pouco tempo, o presidente do Novo Banco tinha enviado outra carta aos membros da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre as perdas daquela instituição bancária, como o NOVO revela na edição que esta sexta-feira chegou às bancas. Nessa carta, enviada cinco dias depois da detenção de Luís Filipe Vieira e das buscas ao Novo Banco, Ramalho culpa o Fundo de Resolução pela má venda da dívida da Imosteps.

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