Covid-19: Privilegiar crianças com vacinas abre porta a “segunda pandemia”

Com a transmissão descontrolada nos países mais pobres, a desigualdade nos ritmos de vacinação pode dar origem a uma variante que fuja à protecção das vacinas. A Organização Mundial da Saúde apela à distribuição, mas os especialistas dividem-se. Se, por um lado, imunizar crianças e adolescentes aumenta a percepção de segurança interna, o risco de voltar para trás é real. Por cá, a task force já chutou para canto.



A Agência Europeia do Medicamento (EMA na sigla em inglês) deu luz verde ao uso da vacina da Pfizer-BioNTech em jovens dos 12 aos 15 anos, embora a task force ainda não tenha planos nem data marcada para vacinar crianças e adolescentes contra a covid-19 em território nacional.

Nem na comunidade científica a hipótese gera consenso. Contra o “nacionalismo das vacinas”, a coordenadora da Unidade de Infecciologia Pediátrica do Hospital Dona Estefânia, Maria Rocha Brito, junta-se ao coro da Organização Mundial da Saúde (OMS) para alertar para os riscos “incalculáveis” da desigualdade no acesso aos fármacos que está a atrasar os planos da imunização mundial. “Sabemos à partida que na Índia, no Brasil e na grande maioria dos países africanos, a doença está descontrolada em termos de transmissão e que o maior problema é o surgimento de mutações do vírus que não só o tornam mais contagioso como, no limite, podem escapar à vacinação”, diagnostica, antes de carimbar a receita. “Corremos o risco de voltar ao princípio se isso acontecer e é por isso mesmo que, antes de vacinar crianças e adolescentes, a nossa maior preocupação deve ser vacinar todos os países de forma equilibrada. Já sabemos que a AstraZeneca não é eficaz contra a variante sul-africana e, desse ponto de vista, o perigo de surgir uma mutação que escape às restantes vacinas torna-se real. A vacinação em cada país não deveria exceder os 20% enquanto todos os outros não excederem os mesmos 20% de vacinação”, insiste. “Claro que é bom ter toda a gente vacinada, mas o objectivo, aqui, é pensar que temos de atingir percentagens semelhantes para diminuir a transmissão. Mais do que vacinar jovens, precisamos de vacinar a população mundial para evitar o aparecimento de uma variante que escape à vacina, porque ninguém aguenta uma segunda pandemia.”

Noutro plano, o pneumologista Filipe Froes argumenta que a imunização das camadas mais jovens da população cumpre o duplo papel de evitar a transmissibilidade e aumentar a segurança da população. “Se avançar, é uma boa notícia para as crianças e, sobretudo, para os pais. É evidente que a maioria das crianças não têm desenvolvido um quadro sintomático grave, mas não se pode ignorar as excepções e a verdade é que em todo o mundo tivemos óbitos e casos graves e, nesse sentido, é claro que os impactos só podem ser positivos”, contraria o também coordenador do Gabinete de Crise da Ordem dos Médicos. “Parece-me óbvio que temos de vacinar o mundo, mas temos de nos lembrar que, de facto, ninguém está seguro se não estivermos todos seguros.”

Confiante nos pareceres do regulador europeu do medicamento, a epidemiologista e professora catedrática de Estatística Carla Nunes alinha, no entanto, no “equilíbrio global” para travar quer o aparecimento de novas variantes quer a propagação do SARS-CoV-2.

“Num mundo cor-de-rosa, sem escassez de vacinas, avançar para a imunização dos mais novos seria seguir o curso normal da vacinação, mas se há coisa que a pandemia veio provar é que, de facto, não só o mundo não é cor-de-rosa como a questão da saúde pública acaba por ficar refém das decisões da política internacional.” Embora reconheça que a vacinação das crianças e adolescentes traria impactos “óbvios” no controlo da transmissibilidade da covid-19 em Portugal, a também coordenadora da Comissão Científica do Programa de Doutoramento em Saúde Pública alinha pelo equilíbrio. “Claro que o mais eficaz a nível global seria vacinar todas as faixas etárias, mas isso só seria possível se tivéssemos vacinas suficientes e a consciência plena de que as pandemias não são questões individuais ou de um país específico, são mesmo globais.”

Primeiro a imunidade

Tecto das campanhas de vacinação dos 27, a Comissão Europeia lembra que, para pôr termo à pandemia, “cada dose conta” e que cabe a cada Estado-membro “optar por expandir o seu programa de vacinação aos jovens” ou não. Por cá, a Direcção-Geral da Saúde ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Com cerca de 19% da população imunizada e 37% inoculada com a primeira dose, Portugal deverá atingir a imunidade de grupo em Agosto, altura em que a task force prevê ter pelo menos 70% da população vacinada e arrancar o processo de imunização entre os 20 e os 29 anos. O próprio coordenador da equipa que gere o stock de vacinas nacional assume que, quando a campanha chegar à faixa etária dos 18 anos, mais de 90% da população já terá anticorpos contra a covid-19 e que, nesse cenário, não será necessário convocar os menores de idade para receber as duas doses da Pfizer.

Decisão final, ainda não há. Acima das questões internas de cada Estado, a OMS vinca a “falha moral catastrófica” que tem agravado as desigualdades entre os países mais ricos e os mais pobres. Director-geral do organismo, Tedros Adhanon Ghebreyesus tem repetido que não é justo que os mais jovens e saudáveis do Ocidente sejam imunizados primeiro que as pessoas mais vulneráveis dos países emergentes. “Em alguns países ricos, que compraram a maioria das vacinas disponíveis, os grupos de menor risco estão a ser vacinados. Eu entendo que esses países querem vacinar as suas crianças e os seus adolescentes, mas encorajo estes países a reconsiderarem esta decisão e a doarem as suas vacinas ao Covax”, apelou, depois de colocar o problema em números: enquanto as nações mais pobres têm 25 doses para 100 mil pessoas, os 49 mais abastados já administraram mais de 39 milhões de vacinas.

No mesmo sentido, a infecciologista pediátrica Maria Rocha Brito aponta o dedo a países como o Canadá ou o Reino Unido - onde a taxa de cobertura vacinal já é bastante elevada -, que têm vacinas para imunizar cinco e duas vezes a sua população, respectivamente, contra países que não só não testam como não têm capacidade para vacinar um quarto das pessoas. “O primeiro objectivo da vacina é diminuir a mortalidade mas, depois, as vacinas têm a função acrescida de diminuir a propagação da doença e, por mais esforços que os governos façam, só conseguimos virar a página quando a população mundial tiver os tais anticorpos necessários”, afirma, sem tirar o pé do acelerador da solidariedade.

“Em última análise, estas acções vão acabar por prolongar a pandemia, as restrições necessárias para contê-la e o sofrimento humano e económico”, vaticina a própria OMS.

Com uma nova injecção de 2,4 mil milhões de euros, arrecadados na cimeira internacional que decorreu no Japão esta quarta-feira, a missão de distribuição igualitária dos fármacos contra a covid-19 - Covax - dispõe de 9,6 mil milhões de euros em financiamento para compra de vacinas e 807 milhões para entregas, prevendo-se a imunização de quase 30% da população adulta dos 91 países de rendimentos mais baixos, com entregas previstas para este ano e para o início de 2022. Além dos 300 milhões de euros adicionais prometidos pela Comissão Europeia e pelo Banco de Investimento Europeu, os países mais desfavorecidos também vão receber a doação de mais de 54 milhões de doses adicionais, atingindo-se uma reserva total de mais de 132 milhões de doses para o Covax.

Entre este e o ano que vem, o organismo que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, considera “uma das melhores armas para acabar com a pandemia”, tem prevista a entrega de 1,8 mil milhões de vacinas. Doações à parte, prevê-se que os países emergentes só sejam capazes de atingir a imunidade de grupo um a dois anos depois do Ocidente.

Artigo originalmente publicado na edição do NOVO nas bancas a 4 de Junho de 2021.

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