Christina Hippisley: “O Brexit levou a que a relação bilateral seja agora muito mais forte”

Deslocação de Marcelo Rebelo de Sousa a Londres no Dia de Portugal e a assinatura pelos governos dos dois países de um memorando para facilitar trocas são encarados pela responsável da Câmara de Comércio Portuguesa no Reino Unido como demonstrações da importância de uma relação prestes a celebrar o 650.º aniversário. Até por o adeus britânico à União Europeia trazer novas oportunidades que Christina Hippisley reconhece serem mais difíceis para as empresas de menor dimensão.



Qual é a importância da ida de Marcelo Rebelo de Sousa a Londres no Dia de Portugal?

É um sinal maravilhoso para a comunidade portuguesa residente no Reino Unido, mas também uma mensagem muito clara para o Governo britânico de que a relação bilateral é muito importante. Sobretudo neste ano crucial, em que regressamos à vida normal depois da covid.

É uma oportunidade para chamar a atenção do Governo e dos partidos britânicos?

Sim. Até porque, a 13 de Junho, os governos britânico e português devem assinar um memorando de cooperação pós-Brexit, reduzindo entraves no comércio devido a questões de regulação. O Governo britânico está a esforçar-se para que seja o mais fácil possível cumprir padrões. Está a fornecer informação sobre os novos rótulos e a documentação que passa a ser necessária, pois é do interesse britânico facilitar a vida ao máximo. O memorando é uma mensagem ao mais alto nível de que o Reino Unido quer fazer negócios e dá valor à relação com Portugal, enquanto grande parceiro comercial. E é do interesse de Portugal recordar o valor que a relação comercial traz.

Muitas empresas e sectores económicos dependem muito do mercado britânico.

Estamos muito empenhados no imobiliário e temos noção de que muitas empresas vêem Portugal como um local muito atractivo para investirem. Juntamente com o AICEP, reunimo-nos com muitas que estão a deslocalizar pessoas ou parte dos escritórios devido aos benefícios fiscais. E muitas pessoas são atraídas pelo regime fiscal para residentes não habituais. Até à crise dos refugiados da Ucrânia, os britânicos eram a segunda maior comunidade estrangeira residente, atrás dos brasileiros. É um fenómeno recente, pois há muitas segundas residências, e o Brexit lançou luz sobre o número de britânicos que decidiram fazer de Portugal o seu lar.

O Brexit potencia a relação económica luso-britânica?

Ironicamente, forçou uma clarificação. Quem passava metade do ano em Portugal e metade no Reino Unido teve de decidir: ou vive em Portugal ou continua no Reino Unido e vai a Portugal durante 90 dias. Além disso, o processo forçou pessoas ou empresas que estavam a pensar em mudar de residência ou fazer negócios a irem para Portugal. Apesar de não ser o que muitos de nós queríamos, o Brexit levou a que a relação bilateral seja agora muito mais livre. Portugal tem bastante poder, sobretudo na área fiscal, através de tratados mais velhos que a União Europeia. E pode renegociar directamente certos aspectos da relação comercial com o Reino Unido, o que pode ser positivo.

O regime fiscal para residentes não habituais e os vistos gold mantêm-se um factor de atracção de britânicos?

Não temos dúvidas de que esse regime é atraente para muitos britânicos que ponderam um novo rumo depois da pandemia, com uma vida mais tranquila num país para onde pretendem trazer muito dinheiro. E também atrai pensionistas, que são uma faixa da população que pode escolher onde irá viver e o que irá fazer. Quanto aos vistos gold, disponíveis para os britânicos no último ano e meio, ainda há que espalhar a notícia. Os britânicos mais sofisticados têm presentes as vantagens, mas estas não servem para todos e existe a consciência de que estão a ser debatidos.

E geram polémica em muitos países, incluindo Portugal.

A crise ucraniana fez sobressair as dificuldades de um programa sustentável de vistos gold a nível europeu e Portugal está a tornar o seu aceitável por Bruxelas. Será interessante assistir aos avanços.

Existe um rácio de um para dez entre britânicos residentes em Portugal e portugueses a viver no Reino Unido. Acredita que se poderá estreitar no futuro?

Será mais difícil os portugueses irem trabalhar para o Reino Unido, mas a comunidade vai aumentar com os filhos de quem tem estatuto de residente. Já a comunidade britânica em Portugal pode crescer mais depressa, pois a dinâmica é diferente. Cada vez mais pessoas ponderam seriamente mudar-se para Portugal, sobretudo famílias mais velhas. O fosso entre as duas comunidades vai encolher, mas muito lentamente.

Sentem mais interesse pelos vossos eventos Starting in the UK e Moving to Portugal?

Vivemos de eventos ao vivo em que as pessoas se conhecem e fazem networking. A pandemia levou a que fossem por Zoom durante dois anos, mas em Outubro de 2021 retomámos mostras e seminários em que convidamos os associados para um grande espaço no centro de Londres onde contactam com centenas de britânicos. Temos uma base de dados com cerca de 6500 pessoas e juntamos pelo menos 400 ou 500 três ou quatro vezes por ano. Também cada vez mais empresas portuguesas querem ser mais conhecidas no Reino Unido e recorrem à nossa experiência em eventos, networking e comunicação ao mais alto nível com membros do Parlamento. Conhecemos os principais stakeholders nas maiores empresas britânicas interessadas em Portugal. Entre as empresas portuguesas que temos na câmara estão a EDP Renováveis, o Grupo Pestana, bancos apostados em aumentar a sua notoriedade, grandes sociedades de advogados e portugueses que são CEO de empresas britânicas. Penso que no futuro, com as vantagens do Brexit e o pós-covid, iremos ter um papel mais activo. Em Junho de 2023 vamos organizar um grande evento para celebrar o 650.º aniversário do Tratado de Londres [primeiro entre Portugal e Inglaterra]. É do interesse dos portugueses recordar sempre aos britânicos as vantagens do país. E é do interesse do Reino Unido mostrar que está a negociar de forma efectiva e flexível com o mais antigo parceiro comercial para facilitar negócios no pós-Brexit.

Ajudar empresas portuguesas a entrarem no Reino Unido é mais complicado?

Não é fácil. O mercado britânico é altamente competitivo, mas abre-se quando se lida da forma certa. As empresas portuguesas de maior dimensão sabem o que é necessário, abrem escritórios aqui no Reino Unido e trazem as suas pessoas. É mais complicado para empresas mais pequenas, pois é muito difícil expandir os negócios a partir de Lisboa. Boa parte de fazer negócios no Reino Unido tem a ver com estar no sítio certo no momento certo e conhecer alguém. Caso haja ligação, os britânicos são muito abertos. Não respondem a emails que não foram pedidos, mas estão interessados em fornecedores que façam bons preços e entreguem a horas. São muito práticos e pragmáticos.

Quais serão os vossos próximos passos na câmara?

Reconstruir o nosso programa de eventos no pós-covid, recrutar cinco a dez novos membros corporativos e assegurar que trabalhamos de perto com o Governo português, pelo que é uma alegria que o nosso antigo chairman Bernardo Ivo Cruz seja agora o secretário de Estado da Internacionalização.

$!Christina Hippisley: “O Brexit levou a que a relação bilateral seja agora muito mais forte”
Ler mais
PUB