Caos. O que tem a ver uma ruptura nos serviços do hospital de Setúbal com uma pessoa que tenha um AVC em Grândola?

Uma pessoa que tenha um acidente cardiovascular no litoral alentejano arrisca-se a ser socorrida em Lisboa se os hospitais do distrito de Setúbal não tiverem capacidade de resposta.



Uma ruptura no Hospital de São Bernardo pode custar mais 15 minutos e 16,4 quilómetros a uma pessoa que tenha sofrido um AVC em Grândola. Isto, claro, se a chamada via verde coronária do Hospital do Barreiro não estiver entupida e o paciente não tiver de atravessar a ponte sobre o Tejo para ser atendido no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, aí com um prejuízo mínimo de, pelo menos, 45 minutos, mais 33,2 quilómetros e dois distritos. A distância entre as sequelas para a vida ou a morte, “por melhor que seja o condutor da ambulância”, deixa escapar o setubalense e coordenador da União dos Sindicatos da CGTP, Luís Leitão.

Além das populações de Setúbal, Palmela e Sesimbra, o Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) acode entre 30 e 40% da população do litoral alentejano que bate com o nariz na porta do encerramento de especialidades no Hospital de Santiago do Cacém.

“Em ruptura, ruptura, Setúbal não está porque, apesar de terem renunciado aos cargos, os médicos não despiram a bata. Continuam a trabalhar, e há um conjunto de outros profissionais que, renunciando ao próprio descanso com horas extraordinárias em barda e férias sucessivamente adiadas, ainda vão remediando. Mas para lá caminhamos e estas situações acontecem e vão continuar a acontecer enquanto não forem resolvidas as décadas de desinvestimento no Serviço Nacional de Saúde (SNS), agravadas pelo investimento zero da troika”, alerta o sindicalista.

Fora médicos, técnicos de diagnóstico ou auxiliares, “os enfermeiros “chegam a ter 206 turnos extraordinários para cobrir por mês”, relata a enfermeira e dirigente sindical Zoraima Prado.

“O SNS tem de voltar a ser, porque já foi, atractivo. Hoje, os enfermeiros não se sentem motivados. Não há progressão na carreira, os salários são baixos e não há respeito por direitos básicos como o direito ao descanso ou os direitos parentais, nomeadamente a hora da amamentação que é básico. Durante a pandemia fomos proibidos de abandonar o SNS, mas assim que isto abrandou as pessoas começaram a sair. Sem atractividade e sem incentivos à captação e fixação de profissionais este problema que não é exclusivo de Setúbal não se resolve.”

No rescaldo da demissão do director clínico, Nuno Fachada, e de outros 87 médicos, o NOVO foi à procura dos sinais da pré-ruptura que levaram à demissão em bloco das chefias e faz-lhe um retrato do “caos” na edição impressa que lançámos para as bancas neste 22 de Outubro.

Dos médicos, aos enfermeiros, passando pelos técnicos de diagnóstico e auxiliares, “falta de tudo” na engrenagem que ainda segura o Hospital de São Bernardo, em Setúbal. Os efeitos são visíveis nos corredores das urgências, “onde chove há três anos” . Cá fora, na sala de espera há quem tenha de enfrentar esperas de 7 horas para ser visto por um médico.

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