Belver renasceu das cinzas com o programa Aldeias Seguras - Pessoas Seguras

A vila perdeu mais de 80% da mancha florestal em 2017, mas está a ser renovada com espécies autóctones



Martina de Jesus não tem memória de outro incêndio em Belver, no concelho de Gavião, com as dimensões daquele que em 2017 colocou as 14 aldeias da freguesia em risco e obrigou à evacuação de todos os seus habitantes. A autarca e deputada do PS recorda “um fogo que surgia em várias frentes, alimentado pelo vento forte, com um fumo muito intenso e um barulho ensurdecedor”.

Na manhã de 19 de Agosto, Belver despertou negra. Mas começou lago a renascer como uma das aldeias privilegiadas às quais o programa “Aldeias Seguras - Pessoas Seguras” chegou. Vale de Pedro Dias foi a primeira aldeia a receber o programa, em 2018. Seguiram-se Outeiro Cimeiro e Outeiro Fundeiro, mais Belver. Em 2021 foi a vez de Torre Cimeira e Torre Fundeira. Identificaram-se zonas de risco “e planeou-se a actuação da população no caso de acontecer um novo incêndio de grandes dimensões”. O que devem fazer, “enquanto agentes de primeiro combate, para onde devem ir, depois de os profissionais chegarem ao terreno”.

Martina de Jesus assume que as pessoas “estão mais sensibilizadas e têm mais preocupação com a limpeza dos seus terrenos”. Não pode é deixar de referir o esforço que essa proactividade representa numa população “muito envelhecida, sem condições financeiras para limpar terrenos”. Por esse motivo, a presidente da Junta de Freguesia considera que o Governo “deveria disponibilizar mais apoios”. Talvez colocar mais em prática a lei que impõe que “quando um terreno está próximo de habitações e os proprietários não têm condições para o limpar, as câmaras devem assumir a responsabilidade”. Em prática, gostaria ainda de ver “o plantio de espécies autóctones”.

Em Belver o eucalipto continua a ser rei, mas o engenheiro florestal Carlos Machado, proprietário da Terras de Guidintesta, tem sido um dos visionários a querer mudar a paisagem, no trabalho em parceria com a Associação de Produtores Florestais de Belver. Ao NOVO, Carlos Machado fala da prioridade de Belver agora, “na regeneração da floresta, com uma arborização da área ardida feita de forma sustentável e consciente”. É um dos motivos pelos quais a sua empresa está a trabalhar com a Associação de Produtores Florestais de Belver para o plantio de “pinheiro manso, sobreiro e medronheiro e pinheiro bravo”, numa área superior a 600 hectares.

Colado a este projecto de reorganização florestal nasceu logo outro, o da necessidade de criar barreiras de segurança. Nasceu então o “Aldeia Sustentável, Aldeia Segura”. O projecto está “um pouco parado devido à pandemia”, mas mantém os seus objectivos: “reactivar as hortas comunitárias à volta da aldeia, para manter um anel de terrenos limpos com proveito”.

Belver renasce mas não esquece o dia de 2017 em que as centenárias celebrações em honra das Santas Relíquias não saíram à rua e o castelo de 800 anos segurou as chamas, para ajudar a população enquanto os bombeiros não chegavam. Os voluntários de Sacavém foram os primeiros. “Iam a caminho do Mação” conta João Serra, de 38 anos. Quando a corporação passou pela Rua Nunes Álvares Pereira, “as pessoas pediram para ficarem”.

O comandante, Luís Abreu, decidiu na hora parar ali a marcha. “Se tivesse seguido para o destino, a vila tinha ardido.” Logo depois chegaram corporações de Évora, Paço de Arcos, Odivelas, Vila Franca de Xira, Castanheira do Ribatejo, e em pouco tempo Belver tinha sobre si mais de mil bombeiros que, lado a lado com a população, salvaram a freguesia

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