Amor em pandemia. As histórias de quem começou uma relação entre confinamentos e restrições

Alfredo, Madalena, Beatriz, Joana, Mariana e José partilharam com o NOVO as suas vivências e principais desafios. E há uma ideia comum: o contexto social obrigou as relações a avançarem a maior velocidade. Nem sempre com final feliz.



As relações sociais foram profundamente abaladas pela pandemia de covid-19, não apenas durante os períodos de confinamento, mas também naqueles meses de liberdade que nunca deixaram de estar sujeitos a regras e medidas de distanciamento físico. Ainda assim, houve quem encontrasse o amor nesses tempos, como aconteceu com Alfredo, Madalena, Beatriz, Joana, Mariana e José. De forma geral, o principal desafio foi o mesmo: “a inevitável velocidade a que as coisas acontecem”.

Beatriz, 26 anos

Beatriz conheceu aquele que é agora o seu parceiro em Abril de 2020, altura em que o país se encontrava em confinamento e que a doença provocada pelo SARS-CoV-2 ainda era uma incógnita.

Seguiam-se nas redes sociais há vários anos, mas só começaram a falar pouco depois de o país ter confinado. A relação ganhou força de uma forma que Beatriz considera não ser possível caso não existisse a pandemia. “Falamos muito por videochamada e isso ajudou a quebrar barreiras. Ele ligava-me para fazer companhia enquanto almoçava e novamente ao jantar... a conversa prolongava-se até adormecer. Tornou-se uma companhia muito presente e isso fez com que a relação se desenvolvesse muito mais rápido”, explicou a jovem de 26 anos.

“Nunca senti que precisava de ter alguém. Acho é que como estava sem nada para fazer fiquei mais disponível”, acrescentou.

O entrave era ainda maior porque viviam em cidades diferentes - ela em Lisboa, ele em Viseu. Mas isso não impediu que se encontrassem. Em pleno confinamento e com a circulação limitada, encontraram-se em Lisboa. “Fizemos batota”, admitiu Beatriz ao NOVO.

A decisão não foi tomada de ânimo leve, confessou, lembrando que isto aconteceu numa altura em que ninguém sabia do que se tratava a doença.

O primeiro encontro aconteceu em Lisboa e durou uma semana. “Apesar de falar com ele todos os dias, parecia um pouco irreal. Passar do virtual para o físico foi estranho. Mas rapidamente começámos a falar. Sabe aquelas pessoas que são amigas há anos e se reencontram após muito tempo sem se ver? Foi assim. Foi como se visse um amigo com quem já não falava há muito tempo. Inicialmente nem houve tanto aquela questão do engate, parecíamos amigos. Depois, as coisas fluíram”, recordou.

Mas a pandemia trouxe também desafios: “Numa fase inicial não se conhece bem a pessoa, mesmo que se fale por mensagem ou se vá a encontros. É preciso tempo para nos adaptarmos aos hábitos das outras pessoas e durante um confinamento, em que se é obrigado a estar com a pessoa tanto tempo, somos obrigados a lidar com esses hábitos de imediato. Não acho que seja negativo, é mais fácil perceber se gostamos ou não”.

Depois de mais de um ano a relação perdura e os confinamentos já fazem parte da própria dinâmica: “Não o conheço sem ser em pandemia. O que temos nasceu e vive na pandemia e corre bem. Por isso, quando não existir pandemia, deverá correr ainda melhor”.

Joana [nome fictício], 27 anos

Joana terminou uma relação e queria companhia para ir a restaurantes e concertos. Na altura em que conheceu a pessoa com quem actualmente namora, o país estava sob restrições mas ainda não havia confinamento.

“Queria uma companhia que não me fizesse constantemente perguntas sobre o meu relacionamento anterior ou como estava a lidar com a separação. Amo os meus amigos, mas foi difícil para eles entender que estava farta do tema”, explicou ao NOVO.

As preocupações com a pandemia e a propagação do vírus existiam e fizeram Joana anunciar ao agora namorado que não existiria qualquer tipo de contacto físico no primeiro encontro. “Foi muito por intuição. Ao falar com uma pessoa dá para aferir [mais ou menos] o tipo de vida que tem e se corre muitos riscos, apesar de em tempos de covid-19 nada ser garantido. Falávamos diariamente há cerca de duas semanas e pareceu a altura certa”, confidenciou.

Apesar de não procurar uma relação, rapidamente deu por si numa e em circunstâncias incomuns. “Com tudo fechado vivemos numa bolha, que nos permitiu conhecer um ao outro num ambiente confortável”, explicou, acrescentando que o maior desafio “é mesmo a inevitável velocidade a que as coisas acontecem”.

“Dizia diariamente a mim própria que as coisas andavam demasiado rápido, mas não havia mais planos que pudéssemos fazer sem ser estar em casa”. Desde então, passaram-se nove meses e a relação “está cada vez mais sólida”, admitiu.

Alfredo [nome fictício], 30 anos

Alfredo tomou uma série de decisões antes de celebrar o 30º aniversário, entre as quais a procura activa de uma relação amorosa. O confinamento não impediu esses planos, tendo até funcionado “como catalisador”, explicou ao NOVO. “Talvez por nos fazer passar mais tempo afastados das pessoas, o confinamento pesou no acelerar dessa procura”, admitiu.

À semelhança das restantes histórias, as restrições contribuíram para que a relação evoluísse de forma mais rápida e intensa. “Poucas semanas depois de terminar o confinamento, conhecemos a família um do outro. Partilhamos os nosso medos e inseguranças, algo que possivelmente demoraria mais tempo caso a situação fosse outra”, reconheceu, acrescentando que “o confinamento contribuiu para uma maior disponibilidade emocional”.

Madalena [nome fictício], 61 anos

Madalena gosta de adrenalina e não se deixa intimidar pelos desafios que a vida lhe vai proporcionado. Conheceu José, de 74 anos, através de uma amiga e após o primeiro confinamento a que o país esteve sujeito.

Ao NOVO, contou como teve início a sua história de amor.Queres vir tomar um gin ao fim da tarde junto à piscina de um amigo? Coloquei um fato de banho no saco e fui. A curiosidade está cheia de adrenalina e eu gosto, por isso fui. Tinha tudo para correr mal... a ideia de conhecer alguém à força, o facto de ser uma pessoa muito mais velha e que era conhecida por ser um nómada nas relações que tinha tido anteriormente”.

Questionada sobre se o confinamento teve algum impacto na decisão de se encontrar pessoalmente com o parceiro, Madalena admite que este mudou a forma como vê as relações e acabou por ajudar na decisão. “Estávamos sós, com falta de afectos e de abraços e com uma vontade inexplicável de conhecer pessoas novas”, admitiu.

Os medos e receios provocados pela covid-19 não impediram Madalena de investir na relação. “Porque não? Conquistou-me quando me trouxe uma melancia depois de eu o ter desafiado a andar com ela em cima do carro até ao local onde eu caminhava. O desafio fascina-me. O destino, nesse não mandamos”.

Um ano depois - e mais um confinamento passado - a relação perdura. O principal desafio de conviver tanto tempo com alguém numa fase tão inicial é fácil de identificar para Madalena: ultrapassar o passado, viver o presente e não pensar muito no futuro. “Colocarmo-nos na pele do outro é um grande desafio, dos mais difíceis de praticar”, terminou.

Mariana, 29 anos

A viver em Inglaterra há vários anos, Mariana viu-se confrontada com uma série de emoções na altura em que a covid-19 assolou o mundo.

Impossibilitada de sair do país e visitar a família, que vive em Portugal, o período do confinamento foi passado a trabalhar - como enfermeira, num hospital britânico - e em casa. Começar uma relação não era de todo uma prioridade.

“O confinamento mudou totalmente a minha predisposição para encontros. Apaguei todas as aplicações, concentrei-me imenso em mim e em saber estar comigo própria. O facto de estar longe do meu país e dos meus fez-me ter uma visão diferente da importância dos laços de família e amizade. Durante o período de confinamento dediquei-me inteiramente aos meus amigos e família, mesmo com toda a distância entre nós”, começou por contar ao NOVO.

Em Dezembro de 2019 teve o primeiro encontro virtual com Lee, através da aplicação Tinder, mas uma série de incompatibilidades fez com que cada um seguisse a sua vida. Ela em Inglaterra, ele no Canadá.

“Quando o Canadá entrou em confinamento, ele voltou para o Reino Unido”, contou Mariana ao NOVO.

Uma resposta a uma publicação no Instagram deu o mote para que os dois voltassem a falar. “Quando me começou a enviar mensagens ignorei-o totalmente, mas a sua perseverança e humor falaram mais alto”, admitiu.

O primeiro encontro ocorreu meses depois e sempre de acordo com as medidas decretadas pelo governo britânico. “Os nossos primeiros encontros foram em diferentes parques da cidade com a devida distância. Fomos sempre seguindo as regras até podermos estar juntos em espaços fechados”.

Mariana não considera que o confinamento tenha acelerado o desenvolvimento da relação. “Na nossa relação teve o efeito contrário. Permitiu que nos conhecêssemos devagar e a relação foi construída aos poucos. Enfrentámos vários confinamentos juntos, alguns quase sem nos vermos mas sem dúvida que tudo isto nos fortaleceu imenso e possibilitou a relação. Se não fosse a covid-19, ele ainda estaria pelo Canadá e provavelmente nunca nos teríamos conhecido”, explicou.

José, 30 anos

A relação de José começou em Julho de 2020, através de uma aplicação de encontros. “Não estávamos em confinamento, mas estavam em vigor uma série de restrições. O primeiro encontro foi na casa dela”, começou por revelar ao NOVO. Grande parte do tempo era passado entre paredes por dois motivos: protecção e não existir muita opção.

José admite que o isolamento e o sentimento de carência sentido devido ao período de confinamento podem ter contribuído para o início da relação. “O sentimento de carência era maior, não via ninguém além das pessoas com quem trabalhava”.

Hoje, José reconhece que as restrições fizeram com que saltasse etapas. “Ela vivia sozinha e eu passei basicamente a viver com ela. Foi uma mudança de rotina. Saltam-se etapas, passas a conhecer a pessoa de uma forma mais íntima mais rápido. O problema não está em ficar fechado numa casa, a dificuldade é distinguir o momento em que estás a conhecer alguém daquele em que já estás numa relação séria”, admitiu.

Cinco meses depois a relação chegou ao fim. “Percebi que não era alguém com quem me identificava. Talvez tenho sido a tal carência que me fez aproximar e até confundir um pouco as coisas”, terminou.

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