Abusos sexuais: Secretário de Estado da Educação acusa Igreja de desviar atenções

Governante respondeu, pelo Facebook, às declarações do bispo D. Américo Aguiar, que questionou o trabalho feito pelo Ministério da Educação ou outras ordens profissionais no combate a abusos de menores.

O secretário de Estado da Educação, João Costa, acusou a Igreja portuguesa de praticar a “falácia do espantalho” e de “levantar poeira noutros sectores antes (ou em vez de) olhar para dentro e agir” contra os abusos sexuais a menores perpetrados por clérigos. Foi através do Facebook que o governante reagiu à posição do coordenador da comissão de protecção de menores do patriarcado de Lisboa, D. Américo Aguiar, que, em declarações ao Público, admitiu a realização de um levantamento retrospectivo sobre os abusos de menores em Portugal, desde que este não se restrinja aos membros do clero. “A Igreja é a única instituição que, apesar de todos os arrastamentos e dificuldades, está a levar isto a sério. Vêem o Ministério da Educação a fazer alguma coisa? As ordens profissionais a fazer alguma coisa?”, questionou o clérigo.

“Como católico, entristece-me profundamente que a posição oficial da igreja portuguesa seja esta. A falácia do espantalho. Vamos levantar poeira noutros sectores antes (ou em vez de) olhar para dentro e agir”, escreveu João Costa, criticando duramente as declarações do bispo. “Seria bom que o responsável que fala ao Público soubesse que (...) nas escolas, quando há indícios de abuso por parte de algum profissional, abrem-se de imediato processos de averiguações, suspensões preventivas e reporte às autoridades. Não há silêncio ou deslocação do profissional para outra escola”.

Na sua explicação, o secretário de Estado Adjunto recorda ainda que todos os profissionais que trabalham com crianças nas escolas e que as acompanham têm que apresentar “registo criminal”. Além disso, é também nos estabelecimentos de ensino que “são detectados pelos professores e técnicos os primeiros sinais que podem indiciar situações de abuso, que são sempre encaminhados para as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens e para as autoridades”.

“Em todas as escolas, por vezes contra ventos e marés e contra sectores ultraconservadores, é promovida educação sexual, que contempla nos referenciais a tomada de consciência por parte dos alunos do facto de que os outros não têm direitos sobre o seu corpo e das formas de pedir ajuda. Nas escolas portuguesas, associações como a APAV | Associação Portuguesa de Apoio à Vítima ou a Quebrar o Silêncio promovem ações de prevenção e sensibilização”, escreveu ainda.

O governante admite não estar tudo bem - “de todo” - mas considera que “não está bem a responsabilização das vítimas ou a vitimização de quem nunca foi vítima de nada”. E remata: “O mito diz que as avestruzes enfiam a cabeça na areia por medo. Na verdade, estão apenas a alimentar-se e a detectar a proximidade de predadores pelas vibrações no solo.”

Ler mais
PUB