“A relação do meu marido com Ricardo Salgado não era fantástica”

No interrogatório do processo EDP, que o NOVO revela, Alexandra Pinho explicou que o marido e Ricardo Salgado tinham uma relação tensa e nada cordial, e que o ex-ministro lhe pediu para deixar o BES Art. Alegou que cheques do BES eram pagamentos de Pinho para as despesas da casa e atrapalhou-se a explicar emails trocados com mulher do Nobel da Economia Joseph Stiglitz.



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“Não sei se devo dizer isto, mas, de facto, a relação do meu marido [Manuel Pinho] com o dr. Ricardo Salgado não era fantástica. E isso causou inclusivamente alguns problemas no meu relacionamento... porque eu tinha de gerir a minha relação profissional com o BES e, por outro, a minha amizade com a mulher do dr. Ricardo Salgado. Não estou a dizer que não se falavam, mas era... uma relação tensa.” A revelação foi feita por Alexandra Pinho, mulher do ex-ministro da Economia, durante o interrogatório do processo EDP, no qual também foi constituída arguida por suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais.

Questionada pelos procuradores do processo e pelo juiz Carlos Alexandre, Alexandra Pinho voltaria a dizer que Ricardo Salgado e Manuel Pinho “não eram próximos” e nem sequer mantinham uma “relação cordial” na maior parte das vezes, dando a entender que fazia parte das funções de ambos “engolirem sapos”. Foi ainda mais longe, dizendo que Manuel Pinho lhe pediu várias vezes para abandonar o BES Art, projecto do qual foi curadora e directora. “Ele pedia-me para largar o projecto das artes. Estando eu na colecção, ele achava que eu devia largar aquilo tudo.”

Carlos Alexandre perguntou-lhe se Manuel Pinho assim o desejava porque entendia haver um conflito de interesses enquanto estava no Governo. “Nunca se colocou a opção de Manuel Pinho não despachar assuntos sobre o BES?” A mulher do ex-ministro responderia num tom ofendido que acompanharia grande parte do seu interrogatório. “Acha que as mulheres, quando têm um marido a trabalhar num sítio, têm de se despedir e ficar em casa?”

Porque foi para o BES Art

Ao final da tarde de 22 de Dezembro, o juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC) perguntou se a contratação de Alexandra Pinho para o BES Art tinha sido com a intenção de Salgado lhe agradar e agradar ao seu marido. “Não foi por influência do meu marido!”, respondeu: “Tenho um currículo com provas mais que dadas e não preciso de favores (...) É inconcebível no século XXI pensar que uma mulher só consegue ter sucesso profissional por influência de algum homem.”

Alexandra Pinho aproveitou aqui para puxar dos galões: disse que estudara “numa universidade estrangeira”, que se licenciara com “distinção em Gestão”, que foi “a aluna mais nova que entrou na universidade naquele tempo”, que começou por trabalhar no sector financeiro “e, aos 33 anos, já estava no nível 17 do ACTV, sabendo que os administradores são nível 18”, que era “directora coordenadora no grupo BES três anos antes” de Pinho ser contratado para o Banco Espírito Santo, que trabalhou em empresas privadas e numa empresa com capitais públicos, e nesta última declarava, em 2001, “mais de 91 mil euros por ano”. “Bastante mais que os 84 mil euros/ano que recebia 12 anos depois pela prestação de serviço ao BES.”

“Por tudo isto”, acrescentou, “não é aceitável que me tratem por uma coitadinha a quem pagavam um salário milionário.”

O prédio do GES

Um dos factos sob investigação no processo EDP é a compra de um imóvel no bairro lisboeta de Campo de Ourique a um fundo do GES, por cerca de 800 mil euros, cerca de quatro meses antes de Pinho entrar para o governo. Sobre este negócio, feito através de uma sociedade - a Pilar Jardim -, Alexandra Pinho disse que “durante muito tempo, esse edifício existiu nos livros do BES e não conseguiam vender porque, dado o valor tão alto de base, era impossível”. Contou que Pinho disse só estar disponível “se pudesse escolher os arquitectos” e se, caso não existissem compradores, o fundo recomprasse, e alegou que, no final da venda dos apartamentos, tinham ficado muito longe dos “quatro milhões de mais-valias” que a investigação alega: “Foram apenas 50 mil euros de lucro. Esquecem-se de deduzir as despesas com a construção e os impostos.”

O primeiro pagamento do negócio foi feito com fundos próprios, que vieram das contas de Manuel Sebastião, ex-presidente da Autoridade da Concorrência (AdC), que comprou uma das fracções em planta, ainda em 2004. “Portanto, vendem contrato-promessa ao prof. Manuel Sebastião sem terem a certeza de que iam comprar ao GES?”, indignaram-se os investigadores. Carlos Alexandre juntou-se-lhes: “Ele foi nomeado pelo senhor seu marido presidente da AdC, não é verdade?” “Não sei quem é que o nomeou”, respondeu Alexandra Pinho. E o juiz replicou: “Se ele foi a ponto de confiar nos senhores, que ainda não tinham o prédio em vosso poder, quer que ponha o resto da fita na carta? É natural que soubesse que ele tinha sido nomeado presidente da AdC, ou não?”

Segundo a mulher de Pinho, o resto da construção foi financiado com dinheiro do BPI, e não com dinheiro do BES, como a investigação argumenta. O procurador Hugo Neto perguntou então porque existia um empréstimo do BES aprovado em Março de 2005, data em que Pinho foi para o Governo. Alexandra Pinho não soube explicar. “Não me recordo minimamente. Sei que não foi usada, não foi essa via que se seguiu para a construção, disso tenho a certeza.” O procurador continuou: “Resta saber porque foi aprovado. Duvido que o BES tenha decidido oferecer sem a Pilar Jardim ter pedido.”

Leia o artigo na íntegra na edição do NOVO que está, esta sexta-feira, dia 24 de Junho nas bancas.

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